cachorro na guia, esperando

Fazer com que o cachorro escolha executar o comportamento desejado, é a melhor forma de aprendizado – EX22218 – ON/OFF – Creative Commons

Infelizmente ainda tendemos a educar os cães por coerção. Se queremos que ele sente, gritamos até ele sentar. Outras pessoas empurram a traseira do cão contra o chão para que ele entenda o comportamento a ser executado. Todavia, essa atitude agressiva apenas gera medo e dificulta o aprendizado.

Ontem fui atender um cão da raça weimaraner. A comunicação do tutor com o cão era a base de gritos e utilização de guia. Sem saber outra forma de educar o cão, fui chamada. Mesmo durante a consulta, enquanto o cão pulava em mim, o tutor ficava bastante constrangido e gritava com o cão. Eu pedi, então, para que eu lidasse com aquela situação, sem a interferência dele.

O cão pulava como uma forma intensa de buscar interação. Ele não havia aprendido outra. Afinal, muito do que ele tentava, recebia grito. Em alguns minutos já ensinei ao cão a forma de interagir comigo, sem pulos. Não precisei gritar, nem bater, nem usar a guia. Mas dei opção ao cachorro para que ele decidisse qual comportamento ele iria executar.

Dar opção não significa deixar o cachorro fazer o que ele quer, mas conduzir para que ele opte por executar o comportamento desejado por mim. Com um petisco na mão, solicito o comportamento de “senta”, por exemplo. A solicitação é feita apenas uma vez. O cachorro não é surdo, não precisa ficar falando várias vezes ou aumentando o tom de voz.

O petisco só será liberado quando ele sentar. Enquanto isso, ele tentará outras formas de pegar a guloseima, mas eu não permito. Até que, por escolha, ele finalmente senta. No mesmo segundo, eu ofereço o petisco. Na segunda vez que eu ofereço o alimento e solicito o “senta”, rapidamente ele opta por executar o comportamento desejado para ser recompensado.

Não precisei gritar, nem brigar, nem tocar no cão, muito menos causar qualquer tipo de medo.

A mesmo técnica vale para qualquer tipo de aprendizado.

cachorro no comando fica

Solicitar o comportamento e facilitar o acerto, facilita o aprendizado – psinderbrand/Creative Commons

Em um segundo momento do atendimento com o weimaraner, fomos fazer o treino na porta da casa. O objetivo era fazer com que ele se acalmasse para sair. Então, coloquei o cão de frente para a porta, pedi para sentar e treinei o “fica”, para que eu pudesse abrir a porta.

Claro que aqui eu estou resumindo o treino. São vários passos para que o cão entenda o que desejamos e não haja erros. Mas a técnica de solicitar o comportamento e esperar que o cão execute é a mesma.

Depois de demonstrar o treino, o tutor solicitou para fazer o mesmo. O cão teve bem mais dificuldade para atender às solicitações. Por um simples motivo: o tutor já estava viciado em usar o próprio corpo e a guia como indutores do comportamento. Ao invés de solicitar ao cão para virar e ficar de frente para a porta, o tutor pegava no cão e ele mesmo colocava na posição desejada. Imediatamente o cão voltava à posição anterior, de costas.

Quando o cão ficou de frente para porta, apenas com a condução com o petisco, sem ser tocado, chegou a hora de pedir para ele sentar. Mesmo com o petisco na mão, o tutor tocava no queixo do cão, elevando o focinho. O cachorro teve bastante dificuldade para executar o solicitado. Então, pedi para apenas mostrar o petisco e falar para sentar, sem tocar. Imediatamente o cão sentou.

Mas o mais difícil mesmo foi na hora de treinar o fica. Nessa parte é fundamental que haja confiança e tranquilidade por parte do tutor. Quanto maior a ansiedade do acerto e a não observação do comportamento do cachorro, maiores as chances de erro.

Com o cachorro sentado, o tutor solicitou o fica. Com receio de não funcionar, ele repetiu a palavra várias vezes. Quando o cachorro ameaçou sair da posição, ele aumentou o volume. Com medo, o cachorro tentou sair do local do treino. Foi então que o tutor confessou que estava com medo do cachorro não atender e fugir pela porta.

cachorro weimaraner

A confiança é a base de uma boa comunicação – “Olga”/Creative Commons

O processo de comunicação entre cães e humanos não é algo simples. Mexe com muitos conceitos prévios aprendidos ao longo de toda uma vida. Mas o peludo está aí, pronto a nos ensinar uma comunicação mais efetiva, sem obrigações, mas com opções.

O cão sempre vai optar por atender a nossa solicitação, se, em troca, ele receber algo que lhe seja muito agradável. Não é uma questão de comprar o cachorro, mas de recompensá-lo pela escolha “certa” do comportamento. Quanto mais obrigarmos o cão a fazer algo, mais quebramos a confiança, dificultamos o processo de aprendizado e propiciamos comportamentos indesejados por nós, como pular, latir ou morder.

Esse processo pode não ser fácil de iniciar ou manter sem supervisão. Por isso, opte por buscar um profissional do comportamento que siga a linha da comunicação positiva, ensinando o cão através da opção e não da coerção.

Afinal, o bem-estar e qualidade da relação com nosso cão depende de nós.