cachorro defecando

Observar as fezes do cão pode falar muito sobre a saúde – Chris/Creative Commons

Dia 31 de março é o dia nacional da saúde e nutrição. Tenho atendido alguns cães com alteração gastrointestinal e questões sérias de comportamento. Conversando com a médica-veterinária Patrícia Gardemann, especializada em gastroenterologia, refletimos sobre os erros que muitos tutores cometem na rotina com o cão. Coisas básicas como frequência da alimentação, observação da eliminação (olhar as fezes) até não se preocupar com vômitos e diarreias constantes.

Quantas vezes por dia devo alimentar meu cachorro?

Segundo Dra Patrícia, isso depende de vários fatores, como idade, nível de atividade e estado de saúde.  “Em geral, se o tutor passa o dia em casa, as refeições podem ser fracionadas em 3 porções e se você trabalha fora, talvez seja melhor fracionar em 2 porções por dia. O ideal é criar uma rotina, um esquema de alimentação baseado nas necessidades individuais, assim como o melhor horário para alimentá-lo, sempre levando em conta a rotina do tutor” explica.

Porém, vale ressaltar sobre os cuidados com os horários das refeições. “Alimentando o cão diariamente, sempre no mesmo horário (ou próximo disso), ajuda a manter o sistema digestivo regulado e o tutor consegue prever por exemplo, quando ele precisa sair para urinar e defecar, evitando ‘acidentes’ em casa” complementa Patrícia.

A rotina também possibilita que o tutor preste atenção às preferências do cão. Ele pode, por exemplo, preferir três pequenas refeições ao invés de duas maiores, ou vice-versa. Além disso, o tutor consegue saber se o cão está ingerindo toda a quantidade diária, ou se está deixando de comer, comendo menos, podendo indicar que algo não está bem com a saúde dele. “Outro benefício ao fracionar as porções é a garantia do alimento mais fresco e mais saboroso, evitando que o alimento se deteriore, fermente, ou que seja atacado por formigas ou outros insetos e animais que podem até transmitir doenças para o tutor e o seu cão” eluciada Patrícia.

Existe jejum intermitente para cachorro?

Com a moda de ficar muito tempo sem se alimentar, alguns tutores estão proporcionando esse estilo de vida aos cães. Mas segundo Dra Patrícia, o jejum prolongado, em um cão adulto, jovem e saudável, pode não causar malefícios. Porém, se o cão tem um refluxo gástrico, ele pode estar mais sujeito a crises, podendo apresentar náusea ou até vômito. Um filhote, pode ter hipoglicemia. E um cão idoso, por ter um sistema digestivo mais lento, pode não conseguir ingerir toda a necessidade diária que ele necessita, ficando subnutrido, caso isso se repita com frequência.

O tempo do jejum “maléfico” varia de acordo com fatores como: idade, peso e estado de saúde do cão. “Para um cão adulto, jovem e saudável, o ideal é que não passe de 12 horas. Agora se é um filhote, de manos de 8 semanas ou com menos de 2 kg de peso, o ideal é que não ultrapasse 1 ou 2 horas. Se é um cão diabético, o ideal é que não ultrapasse 4 horas e se é um cão que tem histórico de refluxo gástrico, o ideal é que não passe de 8 horas de jejum” conta Patrícia.

O que as fezes dos cães podem nos contar?

Mas não é só a alimentação que é algo a ser observado pelo tutor. A eliminação diz muito sobre o estado geral do animal. Dra Patrícia explica que as fezes do cão têm quatro características principais: cor, conteúdo, consistência e revestimento.

A cor está relacionada ao que ele come e varia de castanho dourado à um castanho mais escuro. Colorações enegrecidas, amareladas ou com estrais de sangue, podem indicar que algo não vai bem.

O conteúdo esperado é que seja apenas o alimento digerido. A presença de vermes, corpos estranhos (pedaços de plástico, pedras e tecidos, por exemplo), presença muitos cabelos ou pelos podem ser um sinal de alarme e isso deve ser abordado com o médico-veterinário.

A consistência pode ser avaliada em uma escala, de 1 (muita duras, ressecadas e quebradiças) a 5 (fezes inteiramente líquidas). A consistência ideal, de acordo com a escala, é entre 2,5 e 3. Ou seja, devem ser macias e com formato bem definido, deixando muito pouco resíduo no chão ao serem recolhidas.

Quanto ao revestimento, se as fezes estiverem revestidas com muco, isso pode indicar uma inflamação intestinal e se as fezes continuarem a ter muco nos próximos dias, um médico-veterinário deverá ser consultado. E isso não deve ser deixado para depois.

É comum cães terem diarreia?

Segundo Dra Patrícia, um episódio de diarreia, de tempos em tempos, pode ocorrer na maioria dos mamíferos, pois é uma forma do organismo eliminar rapidamente algo que não pode ou não deve ser digerido (70-80% das células do sistema de defesa do organismo encontram-se no intestino). Porém, é importante ficar atento a alguns sinais que podem indicar uma doença mais grave ou uma doença crônica e progressiva.

A diarreia aguda, pode estar associada a troca abrupta de ração, verminoses ou de indiscrição alimentar, por exemplo.

Em filhotes, pode estar associada à um sistema digestivo imaturo, ou seja, seu trato gastrointestinal ainda está aprendendo a processar novas substâncias e a diarreia pode ser uma reação normal.

A diarreia crônica (aquela que persiste por mais de 3 semanas e/ou está associada a outros sinais como perda de apetite e/ou vômito ou ainda se repete com certa frequência, sem algo que justifique, pode indicar uma hipersensibilidade alimentar, insuficiência de órgão(s) ou doença inflamatória intestinal (que tem semelhanças com a doença de Crohn em humanos).

As causas da diarreia podem ser:

  • estresse,
  • mudanças abruptas de dieta,
  • uso de antibióticos,
  • desequilíbrios no microbioma (comunidade de trilhões de micróbios que vivem em várias partes do corpo) intestinal,
  • verminoses,
  • infecções bacterianas e virais,
  • hipersensibilidade alimentar,
  • doença inflamatória intestinal,
  • ingestão de toxinas, corpos estranhos, lixo ( = indiscrição alimentar),
  • doença renal,
  • doença hepática
cachorro mostrando a lingua

Vômito e diarreia são sinais de alerta – Joe King/Creative Commons

É comum cães vomitarem?

Dra Patrícia comenta que não é incomum ocorrerem vômitos, mas existem situações que são mais preocupantes que outras. Principalmente quando se repete com certa frequência e quando está associado a outros sinais, como perda de apetite, diarreia, apatia. É neste momento que os tutores costumam buscar ajuda.

Qual a relação entre o intestino e o emocional do cão?

Já existem vários estudos científicos que comprovam a existência de um eixo cérebro-intestino-microbioma. Cães ansiosos, por exemplo, que vivem em um estado de estresse fisiológico crônico, podem apresentar perturbações no trato gastrointestinal. Isso pode contribuir para a doença inflamatória intestinal, supressão do sistema de defesa (sistema imunológico), causar problemas dermatológicos, como pioderma e prurido, entre outros, como aponta Dra Patrícia.

A notícia boa é que por meio de probióticos específicos, é possível modular a microbiota intestinal, contribuindo para que cães ansiosos tenham um comportamento mais calmo. Isso ocorre especificamente via eixo cérebro -intestino. O probiótico ajuda a diminuir os níveis de cortisol em resposta à eventos que causam ansiedade, além de fortalecer o sistema imunológico do cão.

Mas não é só o intestino que deve ser tratado! Não esqueça que o comportamento do cão é resultado de uma soma de fatores, incluindo o ambiente em que vive. Mas não podemos deixar de olhar para um sistema tão importante quanto o gastrointestinal