gato sendo medicado

Gatos não transmitem o novo coronavírus – Stratman² – (Joey and I are /Creative Commons

Um pré-artigo lançado recentemente e publicado no site da revista Nature está gerando muita polêmica. Com o título “Susceptibility of ferrets, cats, dogs, and different domestic animals to SARS-coronavirus-2” (Sucetibilidade de ferrets, gatos, cães e diferentes animais domésticos a SARS-coronavírus-2), o estudo, ainda não publicado, demonstra que pode haver transmissão do vírus de gato para gato.

Esse estudo foi feito na China, após três gatos terem sidos testados positivos para o novo coronavírus. Todos estavam em casas cujo os tutores estavam com Covid-19.

Em ambiente de laboratório, alguns gatos foram expostos a altas doses do novo coronavírus, as quais são muito mais elevadas do que um ambiente com o tutor infectado por Covid-19. Segundo a virologista Linda Saif da Universidade de Ohio, esse experimento não representa as interações entre humanos e pets na vida real. Linda ainda aponta que não há evidências que a secreção dos gatos infectados tem coronavírus suficiente para passar para humanos.

No estudo, os gatos infectados não apresentaram sintoma algum, deixando claro eu os gatos não são acometidos pela doença.

Segundo um comunicado lançado pela Profa. Dra. Aline Santana da Hora da Universidade Federal de Uberlândia e pelo Prof. Dr. Paulo Eduardo Brandão da FMVZ-USP, o estudo acima é falho e apenas alarma a sociedade.

O documento começa assim:

“ O manuscrito “Susceptibility of ferrets, cats, dogs, and different domestic animals to SARS-coronavirus-2” publicado em um site que serve como repositório para textos ainda não publicados em revistas científicas descreve a inoculação intranasal de uma carga viral alta de SARS-CoV-2 (agente causal de COVID-19) em um número diminuto de gatos filhotes. Os gatos infectados experimentalmente estiveram mantidos próximos a outros gatos não infectados, dos quais foi recuperado o RNA viral de SARS-CoV-2, o que sugeriu-se no artigo como uma comprovação de que os gatos positivos para SARS-CoV-2 podem infectar outros gatos. Com a atual disseminação “viral” desse manuscrito, um sinal de alerta foi acionado, impulsionando a redação dessas reflexões com a finalidade que conclusões precipitadas não sejam tomadas.”

Eles explicam que apesar da ampla circulação do estudo, foi observado que o mesmo não foi publicado em nenhuma revista científica. Todos os artigos científicos, antes de serem publicados, normalmente, passam pela revisão de no mínimo 2 experts da área correlata ao trabalho. O que não aconteceu com este trabalho.

Segundo os professores, o desenho experimental é bastante falho. De forma que não foram apresentados dados laboratoriais que comprovassem a saúde geral dos gatos utilizados no experimento, assim como o status desses gatos para as principais viroses felinas que poderiam contribuir para um quadro de imunossupressão e consequente interferência nos resultados da inoculação experimental.

Outro viés experimental bastante importante do estudo foi a descrição no texto do manuscrito de que os autores não conseguiram obter amostras nasais dos gatos, por eles estarem muito agressivos. “Sabidamente, o estresse age negativamente na imunidade celular que é essencial na defesa dos hospedeiros contra as infecções virais. Assim, ressalta-se que cuidados de bem-estar não foram tomados na condução desse estudo” apontam os professores.

Gato testa positivo para novo coronavírus na Bélgica

Segundo os professores Aline e Paulo Eduardo, o caso do gato doente na Bélgica se tornou “viral”. “Neste caso, os dados foram apresentados em forma de notícias, portanto não está bem esclarecida qual foi a metodologia de diagnóstico de SARS-CoV-2 e nem se outros exames foram realizados para o estabelecimento de um diagnóstico diferencial” apontam os professores.

O médico veterinário e professor na UEL (Universidade Estadual de Londrina), Hélio Autran, apontou que este gato da Bélgico estava com diarreia e vômito, por isso foi levado ao médico veterinário. “O gato ficou doente aproximadamente 1 semana depois do proprietário ter ficado doente. O vírus foi detectado nas fezes e não está claro se foi por PCR (partículas virais) ou por cultivo (vírus integro e capaz de causar infecção). Não dá para saber se o gato estava doente por causa do SARS-CoV-2 ou apenas eliminando o vírus (ou fragmentos deste) e doente por outros motivos” explica.

Qualquer animal ou objeto que esteja em um ambiente com alta carga viral e for testado, terá fragmentos de vírus em sua superfície. Assim, se o tutor infectado com Covid-19 espirrar perto da água do gato e ele beber daquele pote, poderá ingerir partes do novo coronavírus. Se este animal passar por um teste, dará positivo. Não por ele está infectado, mas por estar em contato com o vírus, igual a uma mesa, corrimão ou maçaneta. Mas, devido às características genéticas do novo coronavírus animais, até o momento, não foi verificada a transmissão do vírus de animais domésticos para seres humanos.

O que fazer com meu gato, se eu estiver com Covid-19?

Independentemente de qual animal de estimação você tenha, a recomendação é que os tutores com suspeita ou confirmados para COVID-19 permaneçam isolados do contato com pets. Por enquanto, ainda não há evidências cientificamente comprovadas, por estudos publicados em revistas científicas e com metodologia confiável, que aponte que animais domésticos podem contrair ou transmitir o novo coronavírus.

“Portanto, considerando-se que não há evidências científicas de que os gatos possam em condições naturais se infectarem e serem uma fonte importante de SARS-CoV-2 para humanos, assim nós veterinários temos um papel fundamental no combate ao abandono ou ao sacrifício desses animais, bem como de impedir que informações sem base sólida sejam veiculadas” finalizam os professores.