couleurs gm/Creative Commons

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O Brasil tem muito a comemorar! Foi do solo brasileiro que saiu um dos artigos científicos mais importantes dos últimos tempos. Os pesquisadores confirmaram o que já sabíamos há muito tempo: os cães são capazes de compreender a emoção humana.

Pode parecer algo simples ou óbvio. Basta ficar bravo, que o cão sai de perto. Ou quando estamos tristes, eles se aproximam, como quem quer consolar. Porém, para a ciência, não basta apenas que os tutores observem esse comportamento. Deve haver uma comprovação científica.

Entre os seres vivos, a única espécie capaz de identificar a emoção da sua própria espécie (coespecífico) e de outra espécie (interespecífico) era a homo sapiens. Apesar que alguns homens ainda têm bastante dificuldade de identificar o que uma mulher está sentindo.

Voltando aos cães…

nikoretro/Creative Commons

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Os canis lupus familiaris (espécie dos peludos) são, cientificamente comprovado, os únicos seres, além dos humanos, a compreenderem as emoções de outros cães e de seres humanos, tanto por observação, quando por voz.

A bióloga Natalia Albuquerque encontrou esses resultados na sua dissertação de mestrado em psicobiologia pela USP. Mas a relação com os cães vem muito antes disso.

Apaixonada por animais, Natalia sempre teve uma queda para os cães. Queria entendê-los melhor. ”É muito fascinante como um cachorro na rua quer te seguir para a casa. Há uma relação muito especial entre cães e pessoas” relata Natalia.

Desde pequena, Natalia dizia que queria ser psicóloga de bicho, para entender o que eles pensavam. “Queria mostrar para as pessoas que os animais são mais complexos do que se possa imaginar. Os bichos merecem ser respeitados, pois são tão complexos quanto a gente” afirma a bióloga.

Antes de trabalhar com comportamento de cães, trabalhou com golfinhos, tartarugas marinhas e macacos. Até que foi para a USP estudar emoção em cães com o Prof. Dr. Cesar Ades.

Como nem tudo são flores, Natalia perdeu seu orientador. “Fiquei sem chão ao saber da morte de Cesar. Ele era mais que um orientador; uma referência científica” lamenta.

Por conta desse incidente, o professor Dr. Daniel Mills da Universidade de Lincoln, na Inglaterra, convidou Natalia para coletar seus dados na terra da rainha. Detalhe: esse professor é O CARA, quando falamos em comportamento de cães.

Aceitaram participar do experimento 23 cães. Porém, só 17 conseguiram cumprir o teste, que consistia em ficar sentado e olhar para uma tela. Eram projetadas duas imagens, com duas emoções diferentes (raiva e alegria) em cães e pessoas. Neste momento, um som era acionado, com uma pessoa falando, em português, algo positivo (feliz) ou algo negativo (raiva). O cão, para acertar, tinha que associar a intensão do som, com a face da pessoa/cão. Tudo isso era filmado para análise posterior.

Muitas as influências foram avaliadas. Por isso, os cães não eram treinados e não tinham nenhum tipo de habituação. As palavras utilizadas no áudio eram ditas em português, mesmo os cães sendo da Inglaterra. A pessoa que segurava os cães olhava para baixo e com fones de ouvidos. Tudo isso para não interferir no comportamento do cão.

“É um método interessante, pois é um comportamento espontâneo; o cão não é forçado a nada. A grande dificuldade está em codificar, pois a interpretação do olhar do cão é feita quadro a quadro” explica Natalia.

Foto: Natalia Albuquerque

Foto: Natalia Albuquerque

Como não havia nenhum procedimento invasivo, a Natalia não se continha e, no final, liberava seu lado “felícia” e brincava com os cães. “Eu queria levar todos para casa” relembra “Os cães tinham temperamentos diferentes. Alguns superconcentrados e outros queriam só correr e bagunçar. Mas no geral, todos eram capazes de responder à tarefa, desde cães de colo até cães enormes. Teve um labrador que era super agitado, não queria ficar sentado. Quando finalmente sentou, se concentrou e fez direitinho o teste”.

Apesar da metodologia do estudo parecer, ela foi desenvolvida para crianças em fase não verbal. Posteriormente foi usada com primatas, e agora com cães. Foram alguns meses de trabalho de manhã, tarde e noite, de segunda a segunda. Nada de descanso para a Natalia, só para os cães.

Foto: Natalia Albuquerque

Foto: Natalia Albuquerque

Se você acha que parou por aí, nada disso! Após a coleta dos dados, Natalia enviou os resultados para a Dra. Carine Savalli da Unifesp fazer as análises estatísticas.

Também apaixonada por cães, Carine trabalhou por muito tempo nos dados, com a maior ansiedade. Quando saiu o resultado, mostrando que os cães realmente compreendem a emoção humana, foi muita comemoração. Elas sabiam da importância do estudo, mas não imaginavam a repercussão que isso daria. Até a Science publicou um nota sobre o artigo.

A vitória não é apenas pela questão científica em si, mas esse estudo abre discussões importantes. Cães são tão sensíveis quanto os humanos, merecem respeito e uma mudança de paradigma, inclusive na legislação (já feita em outros países, como a França). Sei que ainda é apenas o início, mas fico muito feliz disso ter partido de um estudo feito por uma mulher brasileira.

Por que cães e gatos são tão diferentes?

Para os gateiros de plantão, a Dra. Carine alerta: “a domesticação dos gatos é muito mais recente que a dos cães. Não podemos falar que o mesmo não ocorra nos gatos. Os estudos com felinos ainda são insuficientes, mas daqui a alguns anos, com certeza, teremos novidades. É uma questão de tempo”.

sakai_dai/Creative Commons

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O estudo foi publicado no dia 13 de janeiro na revista científica Biology Letters e pode ser lido aqui (em inglês).

Tenho certeza que o Dr. Cesar estaria ainda mais orgulhoso de suas pupilas Natalia e Carine. Parabéns a todos que participaram dessa grande descoberta científica! Que venham os próximos!

Sexta-feira, dia 12/02, teremos a Agenda Animal com muitos eventos para curtir com o peludo!