filhote de cachorro na banheira

O estresse do banho pode ser fatal – Matthew Cunnelly/Creative Commons

De tempos em tempos há relatos de cães que voltaram feridos do pet shop após banho e/ou tosa. Mas quando há morte envolvida, o caso ganha maior repercussão. Foi o que aconteceu com o cão Floki da raça Spitz Alemão, em Brasília. Sua tutora, Larissa Marques de Carvalho, conta que deixou seu cão para tomar banho em um pet shop na Asa Norte da cidade. Poucas horas após recebeu uma ligação do estabelecimento informando que havia tido um problema. Ao chegar ao local, encontrou o animal já sem vida.

Larissa já costumava pagar R$ 20,00 a mais do que o preço normal, devido ao fato do cachorro ser mais agitado e dificultar o trabalho de banho e tosa. O veterinário responsável pelo pet shop não soube explicar o motivo do óbito. Por isso, o animal foi enviado para necropsia. O resultado ainda não foi divulgado.

Perante tamanha tragédia, muitos tutores voltaram a se questionar sobre maus tratos no ambiente de banho e tosa. Será que ficar observando o serviço ajuda a coibir problemas como o que houve com o Floki?

Para entender melhor sobre tudo o que ocorre com o comportamento do cachorro e dos profissionais de banho e tosa, procurei a terapeuta comportamental para banho e tosa, Brigitte Lee.

Todo cachorro sofre para tomar banho?

Segundo Brigitte, o banho é bem estressante para os cães, por não ser natural para eles. “Alguns são mais resilientes e outros menos, assim como os humanos. Alguns traumatizam com algumas situações, enquanto outros não” explica.

A grande questão é que muitos cães são obrigados a entrar na banheira e subir na mesa para secar. Quando não há uma adaptação prévia a esse ambiente, o estresse é maior. “Muitos não são acostumados primeiro com o jato de ar do secador, que é o mais assustador para eles” conta Brigitte.

Quando o cão é filhote e vai tomar seu primeiro banho, ele já é colocado direto em todas as situações e, quando ele tenta fugir, o profissional caba segurando o animal e impedindo qualquer comportamento. É nesse momento que os problemas começam. Brigitte pontua que pode ser que o cachorro vá se acostumando com o tempo, mas pode ser que ele traumatize.

cachorro preso na banheira

Banho normalmente é estressante para cães – Michael Hansen/Creative Commons

Qual a reação comum do cachorro no banho e tosa?

Quando o cachorro tem medo, ele se comporta fugindo ou lutando. Se há espaço, ele vai tentar fugir. Por isso alguns sobem no ombro, pulam da mesa, buscam rotas para sair correndo. Mas quando eles estão presos, sem chance de se desvencilhar da situação, eles partem para a luta, rosnando e mordendo.

Se ao lutar ou fugir, eles forem contidos a ponto de frustrar a resposta, eles podem entrar em congelamento por excesso de medo. Apesar de ser uma situação ideal para o profissional, já que o animal fica parado, há um extremo estresse e angústia.

Não é pelo fato dele ficar parado que ele não está em sofrimento. Por isso, muitas vezes ele baba, respira de forma ofegante, tem batimento cardíaco elevado, aumento da temperatura, podendo levar ao desmaio. Em alguns casos, esses sintomas podem chegar ao óbito.

Acidentes no pet shop

A maioria das pessoas pensa “é só um banho e tosa, não tem risco”, mas é justamente o contrário. Principalmente para os cães que têm doença congênita, existe risco de óbito por “apenas” estresse.

Esse foi o assunto abordado na tese defendida pela médica-veterinária Anna Carolina Barbosa Esteves Maria. Ela investigou sobre as principais alterações encontradas em necropsias de cães e gatos, que vieram a óbito em pet shops e processos similares. Nos resultados, encontrou que 72% dos que faleceram, não tiveram trauma (choque mecânico), “apenas” estresse.

Na formação de um profissional de banho e tosa, normalmente não há conteúdo sobre fisiologia, anatomia ou comportamento de cães. Por isso, muitas vezes, o profissional não consegue perceber quando o animal está em sofrimento ou passando mal. E pior, não sabe como agir.

Banho e tosa é considerado uma ocupação, assim como cabeleireiro. Não existe uma regulamentação para exercer a função de banhista e tosador. Não há uma necessidade de curso ou qualquer tipo de profissionalização. “Muitas pessoas acreditam que é simples fazer um banho e uma tosa. Mas esquece que o cachorro está lá de forma involuntária, obrigado” lembra Brigitte.

Brigitte confessa que ela já passou por isso. “Uma vez fui atender em domicilio uma maltês idosa. Durante o banho, ela começou a gritar. Chamei a tutora, que disse ser normal. Ao secar, a cachorra estava agitada e começou a ficar amolecida. A tutora continuou dizendo que era normal. A língua ficou para fora e a cachorra mole. Coloquei a cachorra no piso frio. Não sabia o que estava acontecendo. Enviei o vídeo para a veterinária, que pediu para levar para uma clínica. Eu não sabia o que fazer. Desde esse momento comecei a ficar com medo de atender sem veterinário por perto. E o tutor acha que tudo aquilo é normal”.

Pode ser pesado, mas em muitos casos, o banho e tosa é considerado como lavanderia, na qual o tutor deixa a peça, vai embora e depois volta para buscar. Tudo deve estar limpo, lindo e cheiroso.

Os próprios tutores não se deram conta da gravidade do cachorro não ficar confortável no banho e tosa e os riscos que isso implica. O bem-esta do cachorro depende do nível de empatia do profissional que faz o manejo, mas também do tutor.

Segundo Brigitte, geralmente os acidentes acontecem não por maus tratos, mas porque o cachorro estava tentando fugir daquela situação. E, sem entender que o cachorro estava passando mal, o profissional continua o seu trabalho.

Como saber se o cachorro está sofrendo maus tratos no pet shop?

Brigitte aponta dois sinais para prestar a atenção no comportamento do cachorro depois do banho.

  • Ele fica muito eufórico quando o tutor chegar para “salvar”?
  • Ao voltar para casa, ele se esconde? Fica agressivo? Para de comer? Fica apático?

O que mais importa é se o cachorro volta ao normal após o estresse do banho. Qualquer alteração de comportamento em decorrência do banho é sinal de alerta.

Pode ser que não tenha havido maus tratos por agressão. Mas se seu cachorro não fica bem após o banho, é sinal que ele está sendo forçado a fazer algo que lhe é desconfortável.

A presença do tutor ajuda ou atrapalha o banho?

Segundo Brigitte não há uma regra. Cada caso deve ser avaliado individualmente. Mas em geral, o cão se sente mais seguro próximo ao tutor.

Em seus atendimentos, Brigitte sempre pede para o tutor ficar junto. “Na presença do tutor, o cão entende que há uma forma de escapar daquela situação. Por isso, muitas vezes, o cachorro acaba ficando mais agitado na presença do tutor. É uma escolha delicada. Talvez se ele tentar fugir, pode acontecer um acidente com a tesoura, por exemplo. Mas, uma vez que ele se acostuma com o manejo, e percebe que nada de ruim vai acontecer, ele vai ficar mais tranquilo” elucida.

E continua “os pet shops que permitem a presença do tutor, normalmente são locais mais conscientes do bem-estar do animal. Já que o tutor é o porto seguro do animal, pois fornece comida, abrigo, carinho. Se o tutor está perto, pode demorar mais para secar, leva mais tempo para fazer o serviço. Por isso alguns pets não deixam que o tutor fique perto”.

O ideal é estar junto, junto mesmo. Não apenas olhando pelo vidro. “Se ele ficar só vendo pelo vidro, o cão vai ficar angustiado e o tutor não vai poder ajudar em nada. Quando está perto, o tutor pode ajudar a segurar, pegar no colo para secar” alerta Brigitte.

Mesmo na presença do tutor, o cachorro ficar angustiado, agressivo. Então é preciso encaminhar para um profissional do comportamento para fazer o tratamento adequado.

Como seria o mundo ideal?

Brigitte diz que deve-se começar com a conscientização dos tutores em relação ao comportamento dos cães antes, durante e depois do banho e tosa.

Em segundo lugar, os tutores devem ter maior proximidade com as pessoas que fazem um banho e tosa. Tudo isso para entender que, na maioria das vezes, o pet vai achar aquilo tudo muito desconfortável e vai tentar fugir daquela situação. Juntos, o tutor e profissional podem traçar uma estratégia, seja o tutor estando junto, seja dando petisco ou frequentando mais vezes o pet shop sem dar banho naquela visita.

Contratar um terapeuta comportamental pode ser fundamental na maioria dos casos, para fazer o processo de habituação ou de dessensibilização e modificação comportamental.

“Tanto banhistas, tosadores, quanto as escolas de banho e tosa devem atentar à importância de se estudar sobre comportamento e linguagem corporal. Deve saber como se portar diante do cão ou gato que está agitado, que está tentando morder. Também é fundamental saber ter um bom relacionamento com o cliente e conseguir explicar ao tutor que talvez não seja possível finalizar o procedimento em prol do bem-estar e segurança do cão. Sem ter medo de perder o cliente” finaliza Brigitte.

Esse é um tema denso, tenso, mas que a mudança pode começar conosco, tutores, buscando profissionais capacitados para lidar com a personalidade e comportamento dos nossos pequenos. Em nenhum momento abra mão do bem-estar do seu pet. Essa é a nossa responsabilidade.