carrapato na orelha do cachorro

Carrapato busca regiões vascularizadas para se alimentar – Megan Marrs/Creative Commons

Uma preocupação muito grande entre os tutores de cães é a doença do carrapato. Erlichiose, Babesiose, Anaplasmose, Hepatozoonose (mais comum no Centro-Oeste) e Rangeliose (mais comumm no Sul e Sudeste) são algumas das doenças transmitidas pelos carrapatos do Brasil. A melhor forma de prevenção ainda são os antiparasitários. Mas será que seu cachorro está totalmente protegido, mesmo com a medicação?

Para sanar todas as minhas dúvidas, busquei médicos veterinários que trabalham exatamente na prevenção dessas hemoparasitoses (doenças do sangue).

Como o carrapato age no cão

O cachorro passa por uma área com carrapato, o animal se prende ao pelo do cão e sobe até o corpo, em busca de um vaso sanguíneo. Por isso que, muitas vezes, encontramos carrapatos nas orelhas e pescoço, por serem regiões muito vascularizadas.

Ao chegar no local de preferência, o carrapato introduz seu aparelho bucal na pele do cão e começa a sugar o sangue do cão. Ao contrário do que muitos pensam, o carrapato não fica o tempo todo se alimentando do sangue do cachorro. Ele suga um pouco, para, suga mais um pouco e assim vai. Esse processo pode durar horas e até dias.

Quais são os produtos contra carrapatos e como eles agem

São três categorias de produtos

  • Pipeta ou spot on, que é colocada na nuca do animal
  • Comprimidos orais
  • Coleiras

Segundo a médica-veterinária e gerente técnica de pets da Boehringer Ingelheim, Karin Botteon, todos os três modelos de prevenção são tem a mesma eficácia, mas diferentes formas de ação. “Não há um produto que seja repelente de carrapato. Em todos os casos, o animal precisa picar o cão para morrer” explica e continua “A grande diferença é o tempo de ação, que é menor nos produtos orais. Ou seja, eles agem mais rápido, com menor chance de contaminação”.

Deixando mais claro: não há produto com ação repelente. É preciso que o carrapato pique o cachorro, ingira seu sangue, para, junto, ingerir o produto que irá causar sua morte. O grande problema é que esse pequeno bicho é bastante resistente. A depender da quantidade de bichos no cão, o quanto ele está infectado e ainda o quanto ele demora para morrer, o cão pode ter a doença, mesmo usando um antiparasitário.

Lembra dos tipos de hemoparasitoses. A mais preocupante é a Erlichiose, doença do carrapato mais comum. Para que o carrapato infectado passe a doença para o cão, pode levar entre 3 e 12 horas. A ação mais rápida do remédio é de 4 a 6 horas. Ou seja, o carrapato pode infectar o cão antes mesmo dele morrer.

Segundo Marcio Barboza, médico-veterinário da MSD Saúde Animal, as diversas pesquisas feitas ainda não encontraram um produto seguro para repelir o carrapato. “O produto liberado pelo modelo spot-on é secretado pelas glândulas sebáceas do cão. Já o produto oral se associa às proteínas plasmáticas do sangue. Enquanto o carrapato suga o sangue do cão, ele também ingere o produto que causará sua morte” pontua.

O grande problema é a forma como esse serzinho se alimenta. Como ele suga, para, suga e para, leva um tempo para ele conseguir ingerir a quantidade de produto suficiente para levá-lo a morte.

Sobre os repelentes vendidos pelas farmácias de manipulação, Karin explica que os produtos manipulados não precisam passar por comprovação de eficácia rígida, exigida pelo MAPA, como as indústrias farmacêuticas passam. “Se quiser usar repelente manipulado, questione a farmácia sobre os estudos feitos para comprovar a eficácia do produto” aconselha. Mas de verdade, eu faria um combinado entre repelente manipulado e os produtos preventivos já conhecidos no mercado.

A importância da utilização desses antiparasitários não é apenas para o cão, mas para toda uma população. Os cães que usam esses produtos, estão ajudando a controlar a quantidade de carrapatos do ambiente, fazendo a chamada proteção de rebanho (como é com a vacina).

cachorro triste

Os sintomas podem ser falta de apetite, vômito, diarreia e até falta de ar – bullcitydogs/Creative Commons

Vamos aos mitos sobre os produtos orais

Obviamente que eu questionei o Dr Márcio sobre o medo de muitos tutores de oferecer os produtos orais contra pulgas e carrapatos. Segundo ele, o produto não é armazenado e nem secretado pelo fígado. Como explicado anteriormente, o princípio ativo fica circulante no sangue, junto das proteínas plasmáticas. “O MAPA, para liberar a venda de uma medicação, exige diversos estudos de eficácia e segurança no país de venda. Foram feitos experimentos oferecendo cinco vezes a dose do princípio ativo para o cachorro. Estes animais foram acompanhados por um tempo, com exames regulares. Não houve alteração renal ou hepática” elucida.

Quais os sintomas da doença do carrapato e como diagnostica

É aí que mora o problema. Segundo a Dra Karin, o diagnóstico não é fácil e simples. “Há uma gama de parasitas e todos podem gerar doenças com os mesmos sintomas, como anemia e plaqueta baixa, além de fraqueza, gengiva e mucosa do olho pálidas, febre, vômito, diarreia e sinais respiratórios (mais ofegante)” expõe.

Há três exames que podem ser feitos para detectar a doença:

  • Snap 4DX
  • PCR
  • Esfregaço de lâmina

O Snap 4DX, segundo a Dra. Karin é uma ferramenta de triagem para animais com sintomas. Mas se o animal já tiver histórico de já ter sido contaminado, talvez não seja a melhor opção. Isso porque o exame detecta se há uma resposta imunológica à doença. Mas não é possível dizer se a infecção ainda está ativa ou se foi resultado de uma infecção passada. “É possível que esse teste dê falso negativo. Quando o animal está infectado, mas ainda não teve resposta imunológica à doença” alerta Karin.

Para confirmar infecção ativa, Dra Karin explica que o melhor exame é o PCR, que vai detectar a porção molecular do parasita ativo e circulante. “Mesmo assim, é importante atrelar o resultado aos sintomas clínicos, para definir o tratamento” elucida.

Para fazer o acompanhamento da evolução da doença, também há indicação do PCR, já que nesse exame há a quantificação do parasita circulante.

Segundo o Dr Márcio, o esfregaço do sangue em lâmina é o exame que mais apresenta falha. “Somente em 5% dos casos é possível encontrar o parasita. Mas, quando encontrado, é fácil a diferenciação entre qual a espécie do parasita” pontua.

Cabe ao veterinário explicar o que é cada exame, para que serve, as possíveis suspeitas e qual será o tratamento. Mas nós, enquanto tutores, também podemos questioná-los.

Reincidência da doença

E lá vamos nós para mais uma dificuldade nesse assunto. Segundo a Dra Karin, os últimos estudos têm mostrado que nem todos os tratamentos conseguem eliminar 100% os parasitas do sangue. “O que não se sabe ainda é se essa sobra do microrganismo é capaz ou não de reinfectar o cão. É mais comum que o cão seja picado novamente pelo carrapato e tenha uma nova infecção” conta.

Mas pode piorar. Se, por ventura, o cachorro está infectado, mas não apresenta sintomas, ele pode passar pela fase aguda da doença, sem que percebamos. Sem tratamento, o caso pode se tornar crônico. O parasita se aloja na medula do animal e passa a “matar” as células sanguíneas, em especial as hemácias, no local de produção. Então, o animal passa a ter uma anemia profunda. Muitas vezes já não há o que fazer e o animal vai a óbito.

Esse é um tema tenso, delicado e que cabe muitas discussões. Mas o mais importante é você manter em dia o antiparasitário do seu cachorro. Não importa a marca ou o tipo. O importante é usar e prevenir a infestação de carrapatos. Ah, não esqueça de escovar seu cachorro todos os dias (principalmente depois dos passeios) e verificar se ficou algum carrapato nele. Quanto antes agirmos, menor a chance do cão pegar alguma doença.