Pål-Kristian Hamre/Creative Commons

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Quem tem animais em casa já se pegou, em algum momento, conversando com eles. Nem que seja algo simples, como um “fica quieto” ou “muito bem!”. Mas será que estamos ficando loucos de conversar com nossos peludos? Não, estamos nos aproximando da relação mais verdadeira entre as espécies.

Durante muitos anos, acreditamos que o ser humano era uma espécie superior. Os animais e plantas eram seres inferiores, os quais deveriam “servir” ou ajudar os humanos. Com a domesticação e a humanização dos animais, pudemos ter contato mais próximo a algumas espécies.

Assim, cães e gatos deixarem de ser meros animais e passaram a ser nossos filhos peludos. Mas será que eu realmente vejo o meu peludo como membro da família? Se você conversa com seu animal e se coloca no lugar dele, em qualquer que seja a situação, você entende que ele é seu irmão/filho/sobrinho/neto.

A médica veterinária, especialista em comunicação intuitiva com os animais, Sheila Waligora, explica que, para ter uma boa relação com seu peludo, é preciso haver uma ligação, uma boa comunicação. E não é algo de outro mundo, algo mágico. Todos nós somos capazes de nos comunicarmos com nossos bichinhos e ouvirmos o que eles têm a nos dizer.

Você já deve ter ouvido “meu cachorro é tão esperto! Só falta falar”. Segundo Sheila, os animais, na verdade, já estão falando. “Eles estão loucos para que a gente se comunique com eles”.

Se engana quem crê que os animais só se comunicam por palavras ou latidos. Um olhar, um gesto um comportamento são formas deles se comunicarem. Nós é que precisamos estar atentos a eles.

Ignore

O. G./Creative Commons

O. G./Creative Commons

Muitos profissionais do comportamento animal indicam ignorar o animal quando ele faz algo ruim. Mas isso não vai contra a comunicação e a boa relação com meu peludo?

De forma alguma. Toda conversa tem um momento certo. Na hora que você descobriu que seu cãozinho comeu o seu sapato caro e novo, você não conseguirá ter uma conversa tranquila com ele. Por isso, ignore-o até que você se acalme. Após uma hora, mais ou menos, você pode, com tranquilidade, sentar e conversar com seu peludo sobre como você ficou triste dele ter se comportado mal. Não se esqueça de oferecer uma outra opção de coisas para ele roer ou destruir.

Ao sair e ao chegar em casa, a recomendação é de não conversar com o peludo. Isso para não aumentar a ansiedade dele pela sua saída ou chegada. Afinal, sempre saímos atrasados ou chegamos cansados, com a cabeça no que aconteceu. “Se comunicar sem se aquietar, sem atenção e foco no animal, não resolverá em nada a situação. Para se comunicar, o ideal é estar inteiro” aponta Sheila.

Realmente estes não são bons momentos para conversar com eles. Aguarde até que vocês dois estejam calmos, e então converse. À noite, antes de dormir, por exemplo, conte para ele o que ocorrerá no dia seguinte. Você irá sair, ficará algum tempo fora e voltará em tal horário. Sabendo tudo o que irá acontecer, ele ficará mais tranquilo.

Quando devo conversar?

Jeremy Duff/Creative Commons

Jeremy Duff/Creative Commons

Há pessoas que passam o dia todo em casa e falam sem parar com seus animais. Eles podem não entender tudo o que está sendo dito, mas poderão sentir a proximidade de seus tutores e isso trará alegria e conforto a eles.

Mas há algumas situações, que uma bela conversa pode auxiliar e muito!

  • Ida ao veterinário. Se seu peludo tem pânico de carro ou de ir ao veterinário, na noite anterior, converse com ele. Explique o que irá acontecer, que você sempre estará ao lado dele e que voltarão para casa e ele ganhará aquela comida favorita.
  • Cirurgia. Estudos apontam que quando os animais são informados sobre o que irá acontecer na cirurgia, a recuperação é muito mais rápida e tranquila. O melhor exemplo é a castração. O animal não está doente, mas é colocado numa caixinha, levado ao veterinário, recebe uma injeção e quando acorda está com curativo dolorido na barriga. Se ele for avisado sobre tudo que irá acontecer, a cirurgia será melhor, bem como o pós-operatório.
  • Tarefas do cotidiano. Ao invés de retirar o gato que estava dormindo em cima do computador, peça licença a ele e explique que precisará usar o computador. Mas que ele pode ficar dormindo no seu colo, por exemplo.
  • Banho. A hora do banho pode ser extremamente traumática. Se você explicar para o peludo o que significa o banho e por que ele deve aceita-lo, poderá minimizar o estresse.
  • Viagem. Quando for viajar, explique na noite anterior à viagem, o motivo da ausência, quantas noites ficará fora e o que acontecerá durante esse período. Isso deixará o animal mais tranquilo.

“Os animais sempre se comunicam, o tempo todo, mas a postura do humano é que dificulta a comunicação. Os animais merecem saber sobre tudo que acontecerá com eles” ensina Sheila.

Como se comunicar

Mart/Creative Commons

Mart/Creative Commons

Pedi para Sheila ensinar um passo a passo para que a comunicação aconteça de forma efetiva. Para conseguirmos falar e obter respostas.

Ela diz que não há fórmula. Cada um pode desenvolver a sua maneira. Mas ela contou qual a que ela faz e ensina em seus cursos.

  1. O primeiro passo é respirar, se aquietar e trazer a atenção para dentro de si
  2. Leve a tenção para o coração. Imagine uma portinha se abrindo e um tubo de luz saindo em direção ao coração do animal. A comunicação sempre se dá de coração a coração.
  3. Fale com o animal o mais claro possível sobre o que deseja comunicar. Se sentir que o animal não entendeu, repita.
  4. No final, sempre agradeça, recebendo resposta ou não. O agradecimento é uma parte fundamental da comunicação.

Sheila lembra que se o tutor se abrir, ele pode entender que a comunicação funcionou. Não é uma questão de intensidade, mas de conexão. “A partir do momento que o tutor entender que o cão, ou qualquer animal, não é inferior, mas diferente, ele entenderá por um olhar se o animal entendeu o que foi dito ou não” explica.

Duvido!

Rocky Mountain Feline Rescue (formerly known as Animal Rescue and Adpotion Society)/Creative Commons

Rocky Mountain Feline Rescue (formerly known as Animal Rescue and Adpotion Society)/Creative Commons

Se você, assim como eu, gosta de provas. Sugiro buscar livros e estudos científicos que comprovam o quanto esta comunicação é possível. Um dos grandes estudiosos é Rupert Sheldrake, que escreveu o famoso livro “Cães sabem quando seus donos estão chegando”.

Mas melhor que ler, é testar a técnica. É um treinamento. Quando suas expectativas e ansiedade cessarem, sem nem perceber, você já estará se comunicando com seus animais.