Meagan/Creative Commons

Acontece em Ouro Preto o 36º Encontro Anual de Etologia. A palavra grega se refere ao estudo do comportamento. Fundada por Konrad Lorenz e Nikolaas Tinbergen, a área ganhou notoriedade em 1973, com o prêmio Nobel de Medicina.

Desde então, muitos nomes ganharam notoriedade por trabalhos na área do comportamento animal. A grande diferença do congresso deste ano, foi a presença de referências nacionais e internacionais.

Sabe aquele ator, escritor, cantor, que você super admira?! Imagina encontrar uns quatro deles num mesmo evento, explicando tudinho sobre sua carreira, a poucos metros de você! Meu coração bateu muito forte. Babei em todas as palestras.

Porém, algo chamou mais minha atenção. Uma pergunta. O biólogo, pesquisador do comportamento de vespas, Lucas Rocha Milani, confessou sua descrença nos zoológicos. Questionou os palestrantes sobre como explicar aos seus amigos e colegas de profissão, que sua visão havia mudado após as palestras sobre o Enriquecimento Ambiental em Zoológicos.

Não pude deixar passar. David Shepherdson, Cristiane Pizzutto, Robert Young, Paloma Bosso e Cynthia Cipreste demonstraram como os zoológicos e aquários podem auxiliar na preservação dos animais silvestres. E não só isso, mas no entendimento do comportamento da espécie e também na diminuição do impacto causado ao meio ambiente pela ação do homem.

Pardee Ave./Creative Commons

Zoológico é coisa boa?

Ainda são muitas as pessoas contra os zoológicos. Para entender melhor o motivo, conversei com o médico veterinário, especialista em bem-estar de animais e pesquisador no zoológico de Oregon, David Shepherdson. “Infelizmente, muitos zoológicos não seguem as recomendações preconizadas pelos pesquisadores em bem-estar animal de cativeiro” explica Shepherdson. E complementa: “Mas há muitos zoológicos que são referência em cuidado de animais e auxiliam na preservação de diversas espécies, bem como trabalham com educação ambiental”.

A grande questão, segundo Dr Shepherdson, é a falta de conhecimento das pessoas sobre esses “zoológicos do bem”. “Muitas das atividades para aumento da qualidade de vida são feitos longe do público ou sem a explicação adequada para compreensão” aponta.

Um desses manejos é o enriquecimento ambiental. Sabe aquelas cordas no recinto dos macacos ou o sorvete de fruta dos ursos polares?! São formas de facilitar a expressão dos comportamentos naturais das espécies. Mas são poucos os zoológicos que explicam isso para o público em geral. Por isso, ainda há aquele ranço do zoológico antigo, onde o animal ficava num recinto de cimento, sem nada para fazer.

Héctor de Pereda/Creative Commons

Parque das Aves

Em Foz do Iguaçú, está localizado um zoológico diferente. Especializado em aves, o parque foca suas atividades na interação dos animais com o público. Apesar de muitos não considerarem um zoológico, a atração se preocupa e muito com o bem-estar e preservação dos animais.

Conversei com a médica veterinária responsável técnica do Parque, Paloma Bosso. Ela me contou que em uma pesquisa feita com os visitantes do parque, foi constatado que as informações oferecidas durante a visita minimizam a vontade de ter um animais silvestre em casa. “Nós mostramos o quanto é preciso se dedicar para um animal silvestre. Não basta ter na gaiola. É preciso oferecer um ambiente enriquecido para que ele possa expressar seu comportamento natural” afirma.

Uma das formas de fazer essa educação ambiental é através da confecção de brinquedos para os animais. Além de melhorar a vida em cativeiro e facilitar a interação com os visitantes, o enriquecimento ambiental contribui para a preservação da espécie e diminuição do tráfico.

Koen Schepers/Creative Commons

Extinção e zoológicos

A médica veterinária, especialista em enriquecimento ambiental de animais silvestres, Cristiane Pizzuto, deu uma aula sobre como a ação humana obrigou a criação e manutenção dos zoológicos. “As espécies entram em extinção naturalmente. Porém, decorrente da ação do homem, está havendo uma antecipação desta extinção. Assim sendo, muitos animais necessitam ir para cativeiro para que possam ser preservados e devolvidos ao seu habitat natural em maior número” elucida.

Parece ridículo. Mas de tanto destruirmos a natureza, foi preciso criar um local, para levar os animais, para salvá-los da ação do próprio homem.

Um dos exemplos é o mico leão dourado. Com apenas 200 exemplares na natureza, devido a diminuição do seu habitat natural, a mata atlântica, eles foram levados para um zoológico. Lá, foram reproduzidos, chegando a 3 mil animais. Assim, puderam ser reintroduzidos na natureza, no Rio de Janeiro, com menor risco de extinção.

A pesquisadora também expôs o fato da reprodução em cativeiro estar fortemente relacionado ao ambiente menos estressante. “Zoológicos que conseguem reproduzir animais silvestres de forma natural em cativeiro possuem um indício de que esses animais estão sob estresse controlado” enfatiza.

Quer mais um exemplo?! O último exemplar de rinoceronte branco em vida livre morreu na África. Com isso, a espécie foi considerada oficialmente extinta, devido a caça do animal para aquisição do seu chifre. O zoológico de San Diego conseguiu fazer inseminação artificial de uma fêmea em cativeiro, com sêmen congelado. Considerada um sucesso, a fêmea está prenha. O bebê de rinoceronte branco deve nascer no início de 2019.  Talvez ele seja o início do retorno dos rinocerontes brancos à natureza. Mas isso só terá êxito, se não houver mais caça da espécie.

Pardee Ave./Creative Commons

Não há zoológico perfeito

Não estou levantando a bandeira de que zoológico é bom ou a solução para todos os problemas. Mas enquanto jogarmos lixo nas ruas, desmatarmos para construção de edificações ou modificarmos de alguma forma o ambiente natural dos animais, seremos obrigados a manter os zoológicos.

Após toda essa explicação, o etólogo Lucas compreendeu que, tanto ele com sua pesquisa de campo, quanto David Shepherdson, no zoológico de Oregon, tem o mesmo objetivo: a preservação e melhora da vida dos animais. Cada um segurando uma ponta da mesa de pés bambos, para que não haja um colapso do ambiente, devido a ação antropocêntrica.

Segundo Shepherdson, o zoológico ideal seria aquele que os animais tivessem a possibilidade de viver exatamente como em vida livre, caçando, se relacionando com outros animais, sem intervenção humana direta, expressando todos os seus comportamentos naturais. Esse zoológico deveria se chamar Mãe Natureza. Mas por enquanto, ainda é utopia. Não porque os administradores de zoológicos são maus ou ruins, mas porque o ser humano insiste em não respeitar o meio ambiente e seus moradores.