Tom Rayner/Creative Commons

Tom Rayner/Creative Commons

Entre os dias 18 e 21/10, pesquisadores, estudantes e autoridades científicas de todo o mundo se reuniram em Chicago (EUA), para o maior evento global focado em nutrição animal, o WINSS – Simpósio Internacional de Ciências da Nutrição de WALTHAM. Neste ano, o evento teve como tema “Desenvolvendo a Ciência de Nutrição para Pets”. Mas será que a alimentação dos cães e gatos tem para onde evoluir? Como será a comida para os pets do futuro?

Muitos antes de pensarmos no futuro, há muito o que se corrigir no presente. Muitos cães e gatos ainda chegam ao consultório veterinário com doenças que são consequência de uma má alimentação. Alguns por falta de nutrientes ou alimentação desbalanceada e muitos (mais de 30% dos cães e gatos brasileiros) com obesidade.

Foto: Mars

Foto: Mars

Durante os quatro dias de evento, cientistas e pesquisadores internacionalmente renomados, discutiram diversos temas. Apesar da nutrição de cães e gatos ser uma ciência nova, cresce e ganha relevância em vários países, como no Brasil. Um dos brasileiros a apresentar os resultados de suas pesquisas na área de nutrição de cães e gatos foi o professor Aulus Carciofi, da Universidade Estadual Paulista de Jaboticabal.

Ao voltar do simpósio, consegui marcar uma entrevista com o Dr Aulus. Na verdade, eu achava que seria uma entrevista. Mas foi uma aula muito didática sobre mitos e verdades da nutrição animal. A minha ideia era fazer perguntas sobre o futuro da ração/comida dos cães e gatos. Ele me explicou que a alimentação dos pets ainda tem muito para evoluir, mas antes, precisamos rever o que damos hoje para os nossos peludos.

Sassenach1/Creative Commons

Sassenach1/Creative Commons

A primeira pergunta que fiz, foi sobre a utilização do selênio na ração industrializada. Em estudos, o grupo de pesquisa do Dr Aulus demonstrou que sem uma quantidade adequada deste composto, o sistema imune não funciona. Para uma pergunta simples, uma aula de imunologia e nutrição.

Dr Aulus começou me explicando que são necessários 45 nutrientes, entre proteínas, minerais, vitaminas e carboidratos que devem ser consumidos todos os dias, para que o sistema imunológico funcione perfeitamente. “O selênio é um desses composto importantes, mas na falta de qualquer um deles, há uma deficiência na resposta imunológica do animal, podendo facilitar o aparecimento de doenças” ensina.

Muito em moda para os humanos, o selênio pode ser encontrado em diversos alimentos, como castanhas. Mas e para cães e gatos? “Na alimentação de cães e gatos, o selênio pode vir das carnes. Porém, muitas vezes, precisa ser enriquecida com nutrientes minerais (sintéticos) ou orgânicos. Os alimentos que são enriquecidos com todos os nutrientes necessários para cães e gatos são chamados de completos e balanceados” completa a professor.

A alimentação completa é aquela que contém os 45 nutrientes necessários (para ter certeza, basta olhar no rótulo). Balanceada, quer dizer que esses nutrientes estão em uma proporção e quantidade, que vão garantir a saúde e bem estar para o animal. “Por isso, a importância de buscar profissionais competentes, que possam prescrever uma dieta adequada, com todos os nutrientes necessários ao bem estar e longevidade dos animais” alerta Dr Aulus.

For the Love of Paws/Creative Commons

For the Love of Paws/Creative Commons

Após essa primeira parte da aula, quase perdi a fala. Mas precisava continuar com as minhas perguntas. Então questionei sobre a diferença do uso de suplementação orgânica e sintética. O professor prontamente respondeu: “Nos meus estudos, observei uma diferença da resposta imune quando utilizados selênio sintético ou orgânico. Não era melhor ou pior, apenas a resposta era diferente. Cada um melhorou um tipo de resposta imunológica”. De repente, ele estava me explicando sobre as diferentes respostas do sistema imune e, por um milagre, eu estava entendendo. Diferentemente do que aconteceu há muitos anos atrás, nas aulas de imunologia.

Continuando…

Com a minha (segunda) pergunta, o professor Aulus aproveitou para sanar um mito muito comum: “Quando falamos em alimentação industrializada para humanos, sabemos o mal que ela faz. A base desses alimentos é corante, acidulante, conservante, açúcar, sódio, farinha de trigo, etc. São o que chamamos de calorias vazias, pois não nutrem, apenas dão energia. Quando falamos em alimentação industrializada para cães e gatos o processo é completamente diferente”.

O professor mostrou que não é pelo fato da ração ser industrializada que ela é ruim. Muito pelo contrário. O que dá origem aquele grãozinho de ração são carnes de verdade, legumes, verduras e fibras. “A ervilha, por exemplo, que normalmente é utilizada como fonte de fibras, é cozida de uma forma que aumenta o potencial nutritivo do alimento. Tudo isso para que não haja perda de nutrientes e aumente a palatabilidade para o animal” complementa.

Estudos mostram que a ração aumenta a longevidade do animal, por ser um alimento completo e balanceado, diminuindo o risco de doenças. A crença de que ração causa câncer também foi um dos mitos comentados pelo Dr Aulus: “Algumas pessoas ainda colocam na alimentação industrializada a culpa do câncer em cães e gatos. Porém, com a idade, as nossas células ficam mais propícias ao erro. Os cães e gatos estão vivendo mais e tendo mais doenças senís. Um dos motivos de estarem vivendo mais, é a utilização da alimentação correta”.

Câncer de mama: o outubro rosa pet

athriftymrs.com/Creative Commons

athriftymrs.com/Creative Commons

Foram quase cinquenta minutos de aula ininterrupta, na qual eu quase perdi o ar. Mas se você acha que parou por aí, está enganado. A terceira pergunta que eu consegui fazer foi sobre os erros que cometemos na hora de alimentar nossos animais.

Muito empolgado com a minha pergunta, Dr Aulus explica que um dos maiores problemas nutricionais ainda vistos na clínica veterinária é a obesidade. Um dos motivos disso acontecer é o fato dos proprietários deixarem alimentação à vontade para cães e gatos. “Os cães são como crianças sem freio. Eles não sabem decidir qual a quantidade certa de comida devem ingerir por dia. Na natureza, os cães devem comer tudo o que encontram pela frente, pois não sabem se haverá comida no dia seguinte. Se acharmos que os cães pedem comida por estarem com fome, cairemos num dos piores problemas atuais, a obesidade de cães e gatos” enfatiza.

Cães e gatos obesos vivem menos, estão propícios a mais doenças e tem a sua qualidade de vida reduzida. Especificamente sobre esse assunto, conversei com o maior especialista do mundo em obesidade de cães e gatos, o Dr. Alex German. Confira a entrevista abaixo, dividida em duas partes.

E a alimentação do futuro?

Para finalizar a entrevista/aula com o Dr Aulus, perguntei como os cães e gatos se alimentarão no futuro.

O professor apontou que a ração, em todos os seus processos, tem uma evolução constante. Tanto em palatabilidade, quanto na busca de nutrientes mais saudáveis, que induzam no organismo respostas mais sustentáveis de saúde e bem estar. “Um dos exemplos é o próprio selênio. Normalmente ele é utilizado de forma sintética. Mas aqui no Brasil, há uma tecnologia para extrair o selênio orgânico de uma levedura. Tem muitos estudos com antioxidantes e funcionamento do cérebro, na alimentação para animais idosos. No congresso, por exemplo, foram apresentados diversos estudos sobre o uso de vitamina D. Os cães e gatos, não sintetizam a vitamina D tomando sol, como a gente. Então, há diversos estudos de como apresentar esse tipo de nutriente para que os animais consigam absorver, sem comprometer o fígado” pontua.

Brenda. =]/Creative Commons

Brenda. =]/Creative Commons

Pode parecer que a ração que está na prateleira do pet shop é sempre igual, mas há muito crescimento no setor de alimentação. O que acontece muitas vezes é que essas informações não chegam aos proprietários. Para nós, tutores de cães e gatos, chegam as modas, como alimentos “gran free”, com aumento no percentual de proteína ou até diferentes sabores. Por isso, ficou em dúvida sobre qual alimento dar para seu animal, busque um médico veterinário e leia os rótulos dos alimentos.