cachorro pug na coleira com lingua para fora

Humanos têm usado de violência para educar cães e gatos – drburtoni/Creative Commons

Adeus ano velho. Feliz ano novo. Novo? O que há de novo? Eu só me deparo com pensamentos arcaicos, atitudes velhas e conceitos de quarenta anos atrás. É, caro tutor, vamos fechar o ano desse blog com uma reflexão um tanto amarga.

Uma angústia tem assolado meu coração: tutores nervosos com o comportamento dos seus pets e buscando soluções desesperadas. Mas a grande questão é: qual tipo de comportamento do seu pet lhe desagrada? Provavelmente é um comportamento absolutamente natural ao cão ou ao gato, mas que dentro da sua casa, na sua rotina ideal, do cão/gato calminho, obediente e perfeito, não caiba.

Como consequência desse “comportamento errado” muito tutores caem em desespero, sem saber como resolver e utilizam os métodos com os quais foram educados: coerção. Sim, violência. Mesmo que você não bata no seu cachorro, um simples grito já pode ser bastante violento para ele.

Se fosse um grito isolado, por perda de controle emocional pontual, tudo bem. Mas o que tenho visto são tutores desgastados, cansados, sem estrutura emocional para lidar consigo. Mas mesmo assim precisando entender e educar o cachorro ou gato. Então, vai do jeito que dá.

Caso Teka

Uma linda salsichinha, no auge dos seus oito anos, chegou até mim. As principais queixas eram latir para a porta e avançar em cães e pessoas no passeio. Como os tutores irão mudar de país (e vão levar a Teka junto), precisam se livrar desses comportamentos o mais rápido possível. Do contrário podem ser multados e até expulsos da nova moradia. Caso ela morda uma pessoa ou outro animal, pode ser até condenada à eutanásia.

Nesse clima leve começou a consulta comportamental. Ao longo da conversa, identifiquei diversos medos da Teka. A sua reação exagerada de latidos e mordidas eram atitudes desesperadas de afugentar o que lhe afligia. No meio desse “ataque de pânico”, ela perdia a noção do ambiente e mordia qualquer pessoa que se aproximasse dela, incluindo os tutores.

Sem compreender o motivo de tal comportamento, eles brigavam, gritavam, davam tranco no enforcador e até chegaram a bater na cachorra. Mas nada disso funcionou. Muito pelo contrário. A cachorra estava piorando cada dia mais.

É um caso perdido? Jamais! Apenas uma cachorra mal compreendida. Ela apresenta comportamentos absolutamente naturais para um cão. Mas indesejados para o ser humano. O fato do comportamento ser natural não significa que deva ser aceito pelos humanos. Mesmo porque, demonstrava o sofrimento por parte da cachorrinha.

O tratamento começou essa semana. Mas o resultado pode demorar para ser visto, já que ela deve voltar a ganhar a confiança dos tutores. Eles irão se aproximar através de atitudes previsíveis e agradável para ambos. Punições, gritos e afins estão terminantemente proibidos. Até a mudança, tem chão…

Caso virtual

Por um comentário no meu canal do YouTube, fui procurada por um tutor. Seu cachorro o havia mordido pela primeira vez. Apesar de tratar com carinho e agrados, ao tentar tirar algo da boca do cão, este avançou. O questionamento do tutor era se ele deveria, então, começar a usar força e comandos veementes para dominar o cachorro e mostrar quem realmente manda. Ele chegou ao ponto de dizer que falhou na educação do seu cão e isso poderia acarretar na mordida de um dos seus filhos.

Nem sempre eu consigo responder todas as mensagens, mas essas eu fiz questão de me aprofundar. Um pai de família, com medo do cão ferir seus filhos, começa a cogitar usar violência com o animal, mesmo sendo contra isso. Pelo simples fato do cachorro ter agido de uma forma não desejada pelo humano. Obviamente que ninguém deseja ser mordido. Mas é um risco que corremos, já que a mordida faz parte da comunicação de um cão. Uma comunicação que pode ser evitada, mas que pode acontecer. Não é pelo fato do cachorro executar comportamentos indesejados por nós, que devemos impor o que queremos goela abaixo.

Qual o final dessa história, provavelmente não saberei. Mas fiz minha parte: acolhi e orientei o quanto pude.

Tudo isso me mostra o quanto o julgamento está a solta por toda parte, em todos. E claro, chegou aos animais. Se um gato unhou a tutora é porque ele é mau. Se o cachorro mordeu o tutor é porque ele é ruim e mal-agradecido. Se o cachorro late para a porta é porque não tem educação ou quer chamar a atenção.

Não!

Não tente justificar o comportamento do cachorro. Isso vai obrigatoriamente levar ao amargor desse post: a um local de sofrimento. Sofrimento para todos. Olha só a Teka! Ela estava com medo das pessoas se aproximarem dela. Como defesa, ela mordia. Ao invés de ser acolhida por estar com medo e ensinada a ter outra reação, como fugir, ela era agredida. Tudo isso porque ela foi julgada por diversos humanos (inclusive profissionais).

Não julgue o comportamento do cachorro. Muito menos sob olhar humano. O cachorro não faz birra, não “apronta”, não faz de propósito, não se vinga. Não, ele não sabia que estava fazendo errado. Ele apenas estava com a orelha para trás, corpo baixo e se escondendo por medo da sua reação.

Até quando? Até quando vamos dar continuidade a educação do medo? Até quando vamos querer ser obedecidos através da coerção? Até onde vamos medir nosso poder de dominância com seres que são puro amor (cães, gatos, crianças)?

Humanos e cães são amigos há mais de 25 mil anos. Que não percamos essa amizade por medo, por ignorância, por ego ou por vaidade.

Que no novo ano que já já chega, possa também chegar tamanha onda de brigas, de violência, de insultos, de impaciência. Que o raiar do novo dia venha acompanhado de compaixão, de tolerância, de empatia, de acolhimento, de amor. Esse não é apenas um deseja de ano novo, é um sonho, quiçá uma missão de vida.

Até ano que vem!