cachorro bravo

A agressividade pode ser decorrência do medo ou até dor – David Merrigan/Creative Commons

Na última semana atendi diversos casos de cães que morderam alguém ou mesmo seus tutores. Esse comportamento acaba sendo associado a um cachorro mau ou malcriado. É comum rotular cães como agressivos, mas fazer isso só afasta a situação da resolução.

Na verdade, não existe cachorro agressivo. Agressividade não é uma qualidade, como bonito, robusto ou alegre. Ninguém fala que tal pessoa é agressiva. Mas que em uma dada situação apresentou comportamento agressivo. Da mesma forma é o cachorro. Nenhum é agressivo em 100% do tempo. Se ele dorme, brinca, come, está tendo comportamentos não agressivos, por exemplo. Taxar um cachorro de agressivo, coloca-o em um patamar de caso perdido. E tudo o que ele não deve ser é estigmatizado.

Por que os cães se tornam agressivos?

Existe uma escala de respostas possíveis de um cachorro. Normalmente essa resposta é a um estímulo aversivo ou que causa desconforto. Existe uma escala de agressividade, desde o comportamento mais brando até o mais intenso, como a mordida. Nunca a questão vai direto para o avançar.

O cachorro começa comunicando corporalmente. Ele lambe o focinho, boceja, pisca os olhos. Se não funcionar, ele vai evoluindo na escala: vira a cabeça, desvia o olhar, tira o corpo, tenta se afastar da situação, orelhas para trás, levanta a pata dianteira. Mas se mesmo assim, “falando” com delicadeza, ele não é “ouvido”, ele parte para comunicações mais efetivas. Fica com corpo tenso, olhar fixo, mostrando claramente que o outro ser (humano ou canino) deve se afastar. Se não for atendido, aí sim ele vai para uma abordagem mais agressiva, latindo, rosnando, abocanhando (aquele “presta atenção” que não arranca pedaço) e mordendo.

Qual é a grande questão dos cães que reagem com agressividade? Eles deixam de “falar” com delicadeza, quando percebem que esse tipo de comunicação não funciona. Então, já partem para as vias de fato, de forma mais intensa. E é aí que mora o perigo. Pois o tutor fala: “ele me morde do nada”. Com certeza ele teve um motivo para avançar, mas não foi observado.

Normalmente, um cachorro que reage com agressividade teve como base comportamental o medo. Há duas respostas principais ao medo: fugir ou lutar. Se não há a opção de fuga, a outra é lutar, começando por aquela comunicação branda e, se não for atendido, pode chegar até a mais agressiva.

Todavia, há um outro fator que é ainda mais preponderante para que o cão tenha reações agressivas, a dor. Alguns estudos mostraram que em mais de 70% dos casos de cães reativos com agressividade tem como motivação a dor não diagnosticada ou não tratada.

O que fazer com o cachorro agressivo?

O primeiro passo é entender o motivo da reação por agressividade. Leve ao médico veterinário para fazer avaliação de possíveis dores ou desconfortos. Se estiver tudo bem, observe a que o animal tem medo ou desconforto. Entenda como ele reage à aproximação de pessoas estranhas, barulhos ou mesmo carinhos intensos.

Se o cachorro já estiver em uma situação em que ele rosna e avança em quase tudo, ainda há esperança e solução. Mas só quem poderá resolver é um profissional do comportamento com ajuda de um médico veterinário especialista em etologia clínica. Talvez seja necessário trabalhar o comportamento juntamente com uma medicação.

Não deixe de buscar por um profissional do comportamento para lhe ajudar. Mas um alerta de extrema importância: ele deve utilizar metodologia positiva, sem utilização de nenhum tipo de aversivo. Nada de borrifador, latinha, cutucão, enforcador e afins. A utilização de punição poderá aumentar ainda mais a reação exacerbada do cão e deixa-lo ainda mais em desconforto.

Cachorro bravo não se trata com bronca ou brutalidade, mas com respeito, atenção e cuidado com suas necessidades. O bem-estar dos animais é de nossa responsabilidade!