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Quem nunca deu um grito com seu cachorro que jogue a primeira pedra. Naquele momento do calor da emoção, que você chegou super cansado em casa e viu o lixo revirado, é quase impossível não proferir palavras duras, com um dedo apontado para o cão ou gato. Mas brigar, gritar, dizer não, espirrar água no focinho, puxar pela coleira, colocar de castigo e qualquer outro tipo de repreensão não ensinará o animal como você deseja que ele se comporte.

Depois do post “10 coisas que os cães odeiam“, recebi muitas mensagens e comentários sobre a discordância de muitos com o tópico “castigos e broncas não resolvem”. A maioria pontuava o quão uma boa bronca e até um tapa paravam qualquer comportamento inadequado. Assim, percebi que muitos animais ainda são educados como muitos de nós fomos criados: a base da coerção.

Não só tutores (donos de cães e gatos) educam assim, mas muitos adestradores e profissionais do comportamento. Foi isso que mais me chocou! Por isso, busquei fontes científicas e histórias de diversos profissionais que admiro, para mostrar, de uma vez por todas, quão a punição é maléfica para o desenvolvimento emocional e cognitivo do animal.

O exemplo pode vir de fora

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A consultora comportamental e estudante de medicina veterinária, Ana Luísa Lopes Fagundes, através do programa Ciência sem Fronteira, foi para a Universidade de Lincoln, na Inglaterra, estudar sobre comportamento e bem-estar animal. Seu orientador foi Daniel Mills, um dos maiores nomes do comportamento animal atual. Sua linha de pesquisa se chama método positivo. Isso porque trabalham apenas com reforço positivo, recompensando os comportamentos desejados apresentados pelos animais. E não apenas cães e gatos, mas animais de produção, zoológico e santuário.

Vinda do interior de Minas Gerais, Ana Luísa levou um choque ao entrar em contato com essa nova forma de entender os animais. “Todas as pessoas da sala de aula lá se preocupavam com o bem-estar animal. Bem diferente do Brasil, onde se preocupam com produção. Lá, se pensava como o estresse influencia no leite e carne do gado. Muito distante da realidade do Brasil” relembra.

Ainda em choque, não conseguia imaginar como faria diferente ao voltar para o Brasil. “Será que esse método funcionaria com os cães brasileiros?” se perguntava. Mas Ana Luisa teve oportunidade de ir a congressos e palestra e ouviu o mesmo discurso vindo de vários profissionais do mundo todo. “Chegou um momento que me tornei aquilo. Eu comecei a compartilhar os mesmos discursos que eles compartilhavam lá, mesmo quando voltei para o Brasil” afirma.

Ao chegar aqui, quis compartilhar o conhecimento adquirido com todos. Mas era vista com maus olhos,  descrença, deboche, com julgamento. “Diziam que eu falava aquilo só para me achar. Só porque eu tinha ido para a Inglaterra. Faltava humildade das pessoas para me ouvir” sente Ana Luisa. Mas nada disso a calou. Continuou em busca de profissionais que buscassem conhecimento e a melhor técnica, visando o bem-estar dos animais. Foi então que começou a trabalhar na equipe da Leal Pet BH.

Hoje, Ana Luisa ainda está disposta a compartilhar tudo o que aprendeu. Ensina a todos que quiserem ouvir e ler. Suas redes socais se tornaram fonte para tutores e profissionais em busca da melhor qualidade de vida e de aprendizado para seus pets. “Percebo que há dois anos a mentalidade está mudando. As pessoas estão percebendo que punir o animal só o tornará mais inseguro e a comunicação mais frágil” alegra-se.

Ensinamentos da psicologia

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Carolina Jardim é psicóloga e trabalhou por muitos anos com crianças e adolescentes. Coordenou uma ONG e trabalhou cinco anos no Instituto Ayrton Senna. Aprendeu que não importa a origem ou a condição sócio-cultural da pessoa. Perceber o foco de interesse e suas habilidade é o mais importante para desenvolve-la como uma cidadã melhor. “Eu mostrava o lado positivo do adolescente que vive na favela. Ele tinha necessidades físicas, sofria muito maus tratos, apanhava em casa, mas tinha muito potencial. O ponto é ver esse potencial e aflorar, incentivando, sem brigar ou punir. Ao perceber que era bom em algo, ser elogiado, esse jovem deslanchava” pontua.

Mas foi uma cachorrinha surda que mudou sua área de atuação. Com os mesmos princípios aprendidos e ensinados anteriormente, a psicóloga buscou uma metodologia para trabalhar e se comunicar melhor com seu peluda. Após trabalhar anos com educação positiva, encontrou o método positivo para animais.

Segundo Carolina, o grande problema do reforço negativo, quando pune o animal, batendo ou colocando de castigo, é se tornar um reforço para a pessoa. “É uma forma do tutor se livrar do comportamento indesejado do cão” alerta. “Isso faz com que ele, o tutor, continue gritando ou batendo para não ter que lidar com aquele comportamento ‘ruim’. Isso é, momentaneamente, gratificante para a pessoa. Porém, é uma falsa resolução. Junto com isso vem o medo, a falta de confiança, uma comunicação dúbia. Até chegar a decisão de doar ou levar para o sítio. Ou porque esse cachorro vai morder alguém ou porque desenvolverá um problema comportamental”.

O mesmo acontece com o adestrador híbrido ou “salada mista”, como a psicóloga chama. “Ele coloca a guia unificada e o colar de obediência, enforca o cachorro para ele emitir o comportamento desejado, enforca para diminuir o indesejado, mas dá petisco para agradar o animal. Isso gera um problema muito sério no cão. Ele fica confuso. Não sabe se espera um borrifador, um enforcador ou um petisco. A postura dúbia, muitas vezes, é vista pelo tutor como algo legal, como se o cão fosse feliz por ver aquele profissional” explica.

Se não bastasse toda essa confusão, esse tipo de profissional acaba resolvendo o problema do tutor momentaneamente, mas não do cachorro, por não pensar no bem-estar do animal. E, muitas vezes, o tutor não percebe a mudança maléfica no comportamento do animal.

É preciso um tutor muito atento e observador para notar que o cão não está feliz ou se realmente gosta de treinar com aquele profissional. Só é percebido rapidamente quando a técnica é extrema e o animal é medroso. Ele muda demais o comportamento.

Foi o que aconteceu com um caso atendido pela psicóloga. O cão passou de medroso a agressivo. Tentava morder todos que tinham o biotipo do ex-treinador, que dava cutucão para corrigir o comportamento inadequado. Demorou para consertar e voltar o animal para um equilíbrio emocional.

De onde vem as técnicas aversivas?

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Luiz Henrique Venâncio da Silva cresceu vendo seu pai, Ademar, treinar cães. Vindo do interior do Ceará, Seu Ademar, trabalhou com cães no exército. Lá aprendeu diversas técnicas. Com poucos profissionais na época, Seu Ademar viu um ótimo nicho de atividade. Começou a ser adestrador de cães.

Ao se inspirar em Seu Ademar, Luiz Henrique seguiu seus passos. Aos 14 anos começou a trabalhar com o pai. Enforcador, broncas e cutucões eram usados para garantir a obediência do animal. A técnica, passada de pai para filho, era também vista na TV, nas ruas e discutida na roda dos amigos, também adestradores. Aos poucos, houve a introdução do reforço positivo, utilizando petiscos para aumentar o acerto do cão.

Luiz Henrique cresceu muito. Levava jeito. Treinou cães para comerciais e filmes. Tinha muitos clientes. Sua agenda não tinha horário vago. “Eu sempre amei os cães. Tratava com o maior carinho. Mas usava enforcador. Era o que eu sabia” confessa.

Mas um dia o conhecimento chegou. Em uma conversa com a terapeuta comportamental Alida Gerger, ouviu coisas sobre a possibilidade de educar sem punição. Luiz se sentiu tocado. Levou o assunto para a roda de amigos adestradores e virou chacota.

Sem desanimar, Luiz correu atrás de mais informações. “Quando eu vi dados, pesquisas, resultados sem uso de aversivo, me encontrei. Houve uma fonte de conhecimento, sem ser a informação passada de uma pessoa a outra” afirma.

Foram diversos cursos, estudos e imersão na nova técnica. Ainda assim, correu para contar sobre novidade para outros adestradores. Mais uma vez, ninguém acreditou que fosse possível educar um animal sem coerção.

Foi preciso persistência e paciência, tanto do Luiz, dos tutores, como dos cães. Mas após seis meses, finalmente ele teve êxito utilizando somente a técnica positiva, sem utilizar nenhum tipo de aversivo.

Luiz conta sobre essa fase: “Eu tive que começar do zero. Mexeu com auto-estima e ego. Tem que ter muita força de vontade para tentar e não conseguir. E continuar tentando até conseguir. É muito difícil um profissional depois de anos de trabalho, estar bem estabelecido no mercado, entender que está errado e começar tudo de novo. Mexe muito com a vaidade. Mas a mudança é importante para trabalhar de uma forma ética, visando o melhor para o animal”.

Você pode estar se perguntando se Luiz conseguiu mudar algum daqueles amigos adestradores. Uns sim, outros não. Mas sua maior conquista: após 41 anos de uso de aversivos, Luiz conseguiu mudar o jeito do pai trabalhar. Hoje, Seu Ademar segue os passos do filho. Deixou de lado o enforcador e tudo o que havia aprendido do exército. Mesmo após tantos anos de profissão, no auge dos seus 62 anos, frequenta cursos e aplica somente a técnica positiva com seus clientes.

“A mudança é como um todo e passa até pela educação das pessoas. Antes eu fazia aula duas vezes por semana com cachorro, sozinho. Ele era suprimido. Hoje eu só trabalho com a família junto. Uma aula de 60 min. A família tem um peso muito maior na vida do cão. Eu treino os tutores a serem independentes do adestramento. Cada dia mais os cães surpreendem. Agora o treino é divertido” alegra-se.

O que significa positivo e negativo?

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O Adestrador Filipe Reclitski, da Elevedog, resume: “O treino de reforço positivo é baseada em estudos científicos do século XX, onde os termos POSITIVO x NEGATIVO, tem uma conotação matemática e não moral, como a maioria imagina”. O positivo significa adicional algo após o comportamento apresentado (um petisco, por exemplo). Já o negativo, subtrai algo após o comportamento apresentado (não jogar vídeo-game após ir mal na prova).

Mas é possível ADICIONAR algo RUIM ou RETIRAR algo BOM. Isso quer dizer que, não necessariamente o fato de adicionar algo é bom e o de retirar algo é ruim.

Na linha de treino positivo, adicionamos algo bom, quando o comportamento é desejado, e retiramos algo bom, quando o comportamento é indesejado.

Como assim?

Exemplo: se seu cachorro ficou tranquilo na hora de receber visitas, você adiciona algo que ele goste muito. Pode recompensá-lo com um petisco ou carinho. Mas se o seu cachorro, ao estar no seu colo, avança no seu filho, retiramos algo que ele goste muito, o colo (colocamos o animal no chão).

Adicionar algo ruim (bronca, castigo, tapa, choque, enforcador, etc), quando um cão faz algo errado é valido? Não!

Por exemplo: Um cão que pula na mesa de jantar e recebe uma bronca ou grito

Se formos analisar isso do ponto de vista técnico estamos fazendo totalmente errado, pois, inconscientemente, estamos recompensando o cão. Exatamente! Mesmo algo que aparentemente cause um desconforto, pode ser interpretado como uma recompensa.

Vamos às explicações: primeiro imagine que o cachorro está pulando para ganhar algum tipo de atenção, no momento que ele pula, você recompensa falando com ele. Logo você deu a ele a atenção que ele queria. Parece confuso, não é? Mas preste atenção nesses detalhes:

1 – Lembre-se que, mesmo que seja uma raça especifica, cada cão é um indivíduo, logo não podemos afirmar que a bronca vai realmente causar um incomodo no cão. Ele pode simplesmente não ligar para caras feias e gritos.

2 – Agora, se considerarmos que sim, o cachorro realmente não goste de levar bronca, isso ainda não solucionaria o problema. Primeiramente porque o cão só deixaria de pular se você estivesse próximo, ou no mínimo se você, como a pessoa que causa o desconforto, estivesse no ambiente. Na sua ausência, as chances dele voltar a pular são muito grandes. “A punição não funciona pois o indivíduo só irá se comportar ‘corretamente’ na presença do agente punidor”, como afirmou Skinner, um dos maiores nomes da ciência comportamental dos últimos tempos.

3 – Novamente, considerando que o cachorro não goste de levar bronca, pode ocorrer o que chamamos de dessensibilização. O que no inicio causava um desconforto já não causa mais, logo o cão ira voltar a pular. Para voltar a resolver, terá que dar broncas mais intensas. O que poderá dessensibilizar, levando a broncas mais intensas e assim por diante.

4 – Ainda considerando que o cão não goste de bronca, a punição pode ser mais ou menos estimulante que o pulo. Se menos estimulante, ao receber a bronca, o animal ignora e continua pulando na mesa. Pode ter algo muito mais legal ali em cima. Se mais estimulante, o animal pode ficar com medo do agende agressor e evitar o contato com a pessoa e se tornar um animal desconfiado e até agressivo.

Segundo Leonardo Ogata, fundador da Tudo de Cão, utilizar punição positiva pode funcionar. Porém, ela deve ser forte, traumática, deve estar associada somente ao comportamento, não à pessoa e sempre deve estar presente enquanto existir o comportamento inadequado. “Mas qual a viabilidade de atingir esses critérios? Há diversas alternativas, com menor chance de erro, para resolver o comportamento! É humanamente impossível colocar a punição positiva em prática, sem que haja nenhum tipo de consequência ruim para o animal, como medo, ansiedade, agressividade” ensina.

Um dos estudos apontados por Ogata foi o “Dog training methods: Their use, effectiveness and interaction with behaviour and welfare“, o qual mostra que cães treinados por proprietários através de métodos punitivos não foram considerados mais obedientes e houve um aumento no número de problemas de comportamento.

O segundo estudo “


(Canis familiaris) and on the dogeowner relationship”, ainda mais claro, demonstra que os cães treinados por reforço negativo mostraram muito mais sinais de estresse, do que os cães treinados com reforço positivo. Conclui-se que treinos baseados em reforço positivo são menos estressantes e potencialmente melhores para o bem estar.

Estudos não faltam! Basta ter um tempinho para pesquisar e comprovar o que todos esses profissionais reforçam.

Como ter certeza que o adestrador é positivo?

Thais e William são do interior do Paraná. Ela bióloga e ele médico veterinário, buscaram, em 2008, um curso para começar a trabalhar com comportamento de cães. Sem conhecimento sobre técnicas, encontraram um curso em São Paulo. “Foram 17 dias aprendendo na prática. Tivemos ZERO teoria sobre qualquer assunto relacionado a cachorro. E que o profissional em questão ainda dizia que petisco só ‘comprava’ o cachorro, mas não ensinava” relembra Thais.

Eles aprenderam a manusear uma guia, um enforcador, e como ensinar os comandos básicos: senta, deita, fica e vem. “Saímos do curso com aquela sensação de ‘parece que está faltando algo’. Era muito pouco pra ser chamado de curso de formação” conta.

Ainda assim, pesquisaram mais coisas sobre o assunto na internet, leram os livros do César Millan (Encantador de Cães) e começaram a atender. Porém, perceberam logo, com os primeiros atendimentos, que os “comportamentos” que incomodavam os clientes, não seriam resolvidos somente ensinando os comandos básicos ao cão.

Encontraram o curso do Dante Camacho. Segundo Thais, foi aí que tudo passou a fazer sentido! A teoria, as técnicas… e foi onde eles tiveram contato com o adestramento positivo pela primeira vez. Desde então, passaram a trocar figurinhas com outros profissionais, ver vídeos, ler livros e blogs de profissionais já referência na área. Em dois anos, participarem de 15 cursos. Sempre conversando e discutindo casos com outros profissionais.

Segundo Thais, quando abriram a Cão Leal Adestramento em Londrina, não havia nenhum profissional que trabalhasse somente com adestramento. “Conhecíamos alguns que adestravam, mas era um bombeiro, um policial, um guarda… Adestravam como bico. Todos com a metodologia de pegar o cão e sair na rua, sem o tutor” recorda. Outra opção eram as escolas/canil, onde os cães ficam em regime de internato por 3 meses. A família só pode visitar com hora marcada de final de semana.

Para garantir a forma como o profissional trabalha, acompanhe as aulas/adestramento. Pergunte sobre sua formação, sobre suas influências, sobre as técnicas utilizadas. É a vida do seu pequeno que está em jogo. Se desconfiar, procure outro profissional. Não é pelo fato da sua amiga ter gostado, que você deve achar o mesmo.

Mais um exemplo!

Luis Olívio é médico veterinário comportamentalista. Apaixonado pelos programas do Cesar Millan, buscou cursos para se especializar na área. Aprendeu diversas técnicas de punição positiva e negativa, e essas técnicas não trouxeram bons resultados. “Na época, utilizei a metodologia aprendida no cachorro do meu cunhado, que estava sob meus cuidados, uma labradora conhecida pelo nome de Jade, e alcancei os resultados esperados. Porém, esses resultados trouxeram também comportamentos indesejáveis e inesperados. Como: reatividade e medo, que poderiam ter evoluído e resultado em um aumento da agressividade do animal. Fato esse que não ocorreu graças a minha rápida mudança de postura e metodologia” conta.

Segundo Luis, todas as vezes que utilizava as técnicas punitivas e aversivas, aprendida no curso, era visível o incomodo que causava na labradora. O animal, que era dócil, começou a ficar mais agressivo e chegou até a ameaçar morder Luis, quando tentava corrigir algum comportamento indesejável. “Fui percebendo que essa forma de treinar deixou a cadela mais triste e com mais medo e isso me desmotivou como treinador, pois eu perdi o prazer de treinar, usando essas técnicas. Continuei meus estudos buscando me aperfeiçoar e me aprofundar nesse universo atrás de novas técnicas e novas metodologias” lembra.

Com o intuito de começar a divulgar seu trabalho e conhecer outras pessoas do ramo de adestramento, Luis criou um grupo no whatsapp, chamado Cinofilia. “O treinamento positivo não causa reatividade e nem desconforto para o animal. Além de ser o que apresenta a extinção mais rápida do comportamento indesejado e é até utilizado em crianças” aponta.

O primeiro estudioso a estudar foi o Ivan Pavlov. Ele desenvolveu o condicionamento clássico. Resumidamente, é predispor um estímulo incondicionado (carne) que gera uma resposta incondicionada (salivar). Com isso, ele descobriu que poderia gerar um estímulo condicionado com uma resposta condicionada. Ou seja, a base da ideia era tocar o sino e dar o pedaço de carne, sendo assim, após o cão associar o sino com a comida era possível faze-lo salivar apenas tocando o sino.

O segundo Behaviorista a ter contato foi o BF Skinner, conhecido por desenvolver o condicionamento operante, que teve como objetivo reforços e punições. Foi feito um experimento de reforço de comportamento e perceberam que todo comportamento reforçado tinha mais chances de ser aumentado e todo comportamento punido tinha mais chances de ser diminuído. Porém, os comportamentos punidos tinham consequências indesejáveis, pois eles não eram esquecidos, e sim suprimidos. Podendo causar aumento da agressividade, criando medo que pode se tornar generalizado e não resultar no comportamento desejado.

Segundo Olívio, a partir desses estudos foram criadas diversas vertentes de formas de aplicação e aprimoramento da educação canina. Assim, ele começou a compreender melhor a forma mais adequada de abordagem dos seus pacientes, tanto animais, quanto seres humanos.

Alerta!

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A médica veterinária portuguesa e mestre e comportamento animal, Inês Duarte Alves da Costa faz da sua experiência, um alerta a todos os profissionais e tutores:

Inês cresceu cercada de muitos animais, principalmente cães. Esta proximidade a ajudou a entender a linguagem corporal e as necessidades deles. Mas foi somente em cursos, artigos, através dos livros e das palestras, que conseguiu realmente compreender o comportamento animal. “Todos os dias são publicadas pesquisas recentes e novos questionamentos. Os avanços nas últimas décadas têm sido impressionantes” pontua.

Segundo a veterinária, já temos conhecimentos genéticos, fisiológicos e comportamentais suficientes para determinar que a questão hierárquica, em cachorros, é bem diferente da que se havia proposto há alguns anos atrás. “Também já se chegou a um consenso sobre quais os métodos mais adequados para modificar, criar e extinguir comportamentos” afirma.

A internet facilita o acesso. Há quantidade e facilidade para chegar a qualquer informação. “É exatamente por isso que é inconcebível que na atualidade ainda existam cachorros sendo treinados com base em métodos punitivos” coloca.

Infligir dor e medo em outros seres, além de estar eticamente errado, não é a forma mais eficaz de conseguir o resultado esperado. Aliás, as consequências a médio-longo prazo incluem uma piora no quadro geral do animal e uma deterioração no relacionamento com o tutor.

É dever dos profissionais da área se atualizarem, para prestarem o melhor atendimento possível. E é dever dos tutores se responsabilizarem pela integridade física e emocional dos seus animais. Questionem quando os métodos não parecerem indicados ou não se sentirem à vontade com os exercícios propostos. Usar este tipo de abordagem seria o equivalente a estarmos doentes, ir ao médico e ele não nos receitar o medicamento correto: não iria resolver nada e provavelmente iria causar outro problema.

Para exemplificar, Inês conta sobre o caso de um Shih Tzu. Bastante ansioso, o animal latia por tudo:

“O primeiro adestrador contratado pela tutora, a ensinou a brigar com o cachorro. O segundo, a assustá-lo. Em momento algum, eles tentaram perceber o que estava causando essa ansiedade, muito menos como poderiam resolver. Simplesmente se limitavam a reprimir o sinal exibido. O resultado foi que o cachorro não só não parou de latir como começou a lamber as patas. Pelo estresse que passava, não deixaram usar a única válvula de escape que tinha à ansiedade que sentia”.

Já na primeira consulta, Inês identificou o porquê dessa ansiedade. Hoje trabalha não só para que ele se sinta melhor, como para que tenha outras formas de se comunicar. “O resultado é maravilhoso, eficiente e duradouro, porque somente assim conseguimos realmente resolver o problema e dar mais bem-estar ao animal” finaliza.

Cachorros são os melhores amigos do ser humano. Mas nem sempre o ser humano é o melhor amigo do cachorro. Com o tempo esta realidade está modificando e cabe a todos nós, profissionais da área, tutores e amantes dos animais divulgar informações de qualidade para vivermos todos em harmonia.

Mas eu dou bronca e funciona!

Há uma questão pela qual acabamos sempre optando pela bronca: “gritar alivia o nosso estresse” como afirma Leonardo Ogata, fundador da Tudo de Cão.

Depois de um dia intenso, com diversas reuniões, chefe brigando, cliente reclamando, briga de trânsito, queremos chegar em casa e relaxar ao lado do nosso peludinho. Porém, ao abrir a porta, nos deparamos com uma chuva de espuma. O sofá explodiu! Cadê o cachorro? Está escondido. Sabe que fez coisa errada.

Vou até ele, e fico horas dando bronca, gritando, mostrando o que ele fez, o quão errado é aquilo. Como pode um cão tão bem cuidado, que tem tudo, fazer algo assim?! Vai de castigo pra cozinha.

Pronto, você se livrou da última coisa que causava estresse. Já que você não pode fazer isso com o chefe ou com o cliente, o cão é que toma toda a culpa.

Parece resolver, mas só porque tirou o problema da frente. Ele não foi resolvido. Devemos entender o que motiva os cães a apresentarem certos comportamentos. Será que ele não estava sem atividade adequada? Será que ele não precisa de mais exercício e estímulo diário? Ou será que ele já desenvolveu algum problema comportamental e precisa de ajuda profissional?

Melhor do que resolver o problema inadequado é promover e reforçar a possibilidade do comportamento certo. Cães precisam roer, então dê coisas que ele possa roer e elogie o certo.

Ficou em dúvida?

Há diversos livros e artigos para indicar. Mas vamos começar por um de fácil leitura. Chama-se “O choque de culturas: Um ponto de vista novo e revolucionário que ajuda a compreender o relacionamento entre os humanos e o cão” da autora Jean Donaldson.

Boa leitura!