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Plantas pouco conhecidas por aqui podem auxiliar no combate à fome, no barateamento dos alimentos e na promoção da saúde.

Você já comeu uma ora pro nobis? Conhece a azedinha? Já ouviu falar na taioba? Elas são chamadas de PANCs, Plantas Comestíveis Não Convencionais, e veem sendo alvo de muitos estudos científicos. São altamente nutritivas, baratas e disponíveis. Combinam com as discussões sobre o preço dos produtos naturais, sobre a oferta de alimentos no futuro, sobre os benefícios dos orgânicos, o combate a fome e até sobre a utilização dos alimentos como promotores de saúde, mas, infelizmente ainda passam despercebidas pelos brasileiros. Para saber mais sobre elas, conversei com a diretora da VP Consultoria em Nutrição Funcional, Valéria Paschoal, que participa de um grupo de estudos sobre estes alimentos.

-O que são Plantas Comestíveis Não Convencionais?

Valéria Paschoal: São plantas silvestres, selvagens, que nascem espontaneamente em todo o planeta e não precisam de cuidados, por isso garantem uma biodiversidade muito grande em todas as regiões. Essas plantas guardam propriedades nutricionais importantes, mas elas são mais conhecidas como ervas daninhas, como o mato que “atrapalham” as grandes plantações. Nós temos no mundo todo por volta de 25 mil espécies de plantas comestíveis, o Brasil tem de 15 a 20% dessa biodiversidade, o que representa de 8 a 10 mil espécies. Mas, pelo hábito alimentar globalizado, nem 300 espécies estão sendo consumidas. Há algumas décadas elas eram muito mais utilizadas pelos brasileiros, como os índios, por exemplo, que são os que mais as utilizam até hoje. Como a agricultura convencional é voltada para aqueles alimentos que têm mais procura, elas são deixadas de lado.

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Flor de ora pro nobis

-Elas são comercializadas?

Valéria Paschoal: Muito pouco, talvez você encontre algumas delas em feiras orgânicas. Nós precisamos fazer um trabalho para apresentá-las aos comerciantes da área, aos feirantes e aos profissionais que decidem o que será vendido nos hortifrutis e nos supermercados, para que eles disponibilizem estes alimentos de baixíssimo custo para o grande público. Como as pessoas não as conhecem também não as compram, então o comércio também não trabalha com elas. É necessário também apresentá-las aos consumidores. Já foi feita uma catalogação das PANCs de todo País e elas estão separadas por região. Eu moro em Bauru, lá temos as plantas do Cerrado, tem muito pequi, caruru e ora pro nobis, que também é muito presente em Minas Gerais. No ano passado teve um Festival Gastronômico de ora pro nobis por lá. Há várias receitas que podem ser preparadas com elas, como sopas, tortas, refogados e o seu custo é muito baixo ou até nenhum. Nas técnicas de agricultura orgânica e biodinâmica estas plantas são consideradas ervas daninhas e são mantidas aonde estão com o intuito de proteger as plantações das hortaliças convencionais, porque atraem os possíveis predadores para elas.

-Como tem sido feito o trabalho de pesquisa sobre elas?

Valéria Paschoal: As pesquisas ainda estão na fase inicial, mas hoje nós já concluímos os estudos científicos de cerca de 50 PANCs. Eu faço parte da ONG CSA, Agricultura Sustentada pela Comunidade, que foi fundada no Japão e hoje já está presente no mundo inteiro, veio para o Brasil há uns cinco anos. Nós fazemos um trabalho de resgate dos bons hábitos alimentares no Jardim Europa, um conglomerado de cinco comunidades carentes que fica em Bauru, interior de São Paulo. Há cerca de quatro anos fomos fazer uma plantação de orgânicos por lá, tiramos todo o lixo e começamos a plantar alface, rúcula, as hortaliças convencionais, até que eu me deparei com as PANCs e passei a conhecê-las. Há cerca de um ano, formamos um grupo de pesquisa com representantes da VP Consultoria, da área de biologia da Unesp e das áreas de nutrição, de biologia e de gastronomia da UFSC de Bauru.  Deste então, estamos resgatando estas plantas para estudá-las e reconhecer o seu valor nutricional, este é o papel da equipe da nutrição. Já a de biologia cuida da parte de identificação das plantas, isto é muito importante porque elas podem ser facilmente confundidas com espécies que não são comestíveis. A taioba é uma delas, ela tem um formato muito específico, é uma folha verde clara, grande, no formato de um coração, mas existem mais de 100 espécies de plantas com esse formato e algumas são altamente tóxicas. Por isso é preciso ter certeza do que se irá consumir, não se pode andar no mato, olhar uma folha, imaginar que seja a taioba e consumir, é melhor conversar com a população local que está habituada com elas ou comprá-las de produtores. No Rio de Janeiro a taioba é muito consumida e facilmente encontrada em feiras orgânicas. Agora nós queremos acompanhar os hábitos alimentares da população do Jardim Europa, que já as consome há muitas décadas e verificar como está o seu estado de saúde. Hoje os moradores de lá já têm as suas plantações, trocam os excedentes ou até os comercializam, eles vendem taioba, pequi e ora pro nobis para o próprio CSA.

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Folha de azedinha

-Quais são os principais valores nutricionais das PANCs?

Valéria Paschoal: O fato destas plantas serem utilizadas como “protetoras” das plantações fez com que elas adquirissem uma grande resistência aos predadores e, com isso, elas ganham um teor proteico maior e um teor de fitoquímicos maior do que as hortaliças mais protegidas, de forma natural ou artificial. Os fitoquímicos têm a importante missão de combater os processos inflamatórios do nosso organismo. A ora pro nobis tem o teor proteico maior do que o do feijão, é muito rica em ferro e vitamina A e pode ser plantada em qualquer lugar. Se eu te der uma muda e você deixá-la no quintal da sua casa ou na sua varanda, logo ela florescerá e irá formar uma cerca viva, as pessoas acham lindo, mas nem imaginam que é comestível. É uma boa forma de substituir a carne, para quem não tem condições de pagar por ela, com a alta nos preços, por exemplo. 100 gramas de folha de vinagreira correspondem a 60% da nossa necessidade diária de ferro e ela também cresce com muita facilidade. A flor de ibisco, que é muto consumida em forma de chá, tem inúmeras propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes. As sementes do caruru podem ser adicionadas à preparações doces ou salgadas e são muito ricas em fitoquímicos, que ajudam até a regular a pressão arterial. O camu camu, muito presente no Norte e no Nordeste do País, é muito rico em fitoquímicos, em Vitamina C e ainda ajuda no combate ao aumento da pressão arterial. É muito importante ressaltar que as PANCs não podem ser consumidas cruas, têm que passar no mínimo por uma água fervente. Recentemente fizemos uma oficina no Jardim Europa e levamos um chef de cozinha que nos ensinou a fazer charutos de repolho com a taioba no lugar do repolho e ficaram ótimos. No recheio foi preparado um arroz com caruru, que parece uma couve, também ficou muito bom.

-Como poderia ser feito um trabalho de divulgação destas plantas em outras regiões do País?

Valéria Paschoal: O ideal seria que se distribuísse mudas para serem plantadas nas praças e terrenos baldios das cidades. Estas plantas são muito boas também para as áreas urbanas, principalmente porque não precisam de cuidados. Hoje já há um projeto sendo realizado em escolas públicas do Sul com a criação de hortas feitas de PANCs. Mesmo após as férias escolares, quando as escolas ficam fechadas por dois meses ou mais, é possível encontrar uma grande quantidade de hortaliças em boas condições de consumo. O trabalho de divulgação destas plantas nas escolas é ideal para que as crianças levem esse conhecimento para os pais e para que sejam consumidores conscientes no futuro, por isso seria muito bom ampliá-lo para outras cidades. Acredito que as PANCs têm um grande potencial para protagonizarem uma nova forma de produção e consumo de alimentos naturais, que podem colaborar com o combate à fome e com a promoção da saúde.