Alguma vez você já sentiu que comeu mais do que precisava? Com que frequência isso acontece? Muita gente faz isso em todas as refeições. O outro extremo também é bastante comum, pessoas que ignoram os sinais de fome,por conta de dietas e do uso de remédios para emagrecer ou que até já não os percebem mais por causa de erros alimentares, como ficar muitas horas em jejum. Conversei sobre esse assunto com a nutricionista Marcela Kotait, do Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.


-Qual é a importância de sentirmos fome e de nos sentirmos saciados?

M.K

-A importância de sentirmos fome e saciedade tem a ver com nos conectarmos com nosso próprio corpo, como respeitá-lo e valorizá-lo. E como as necessidades e sensações são bastante individuais, não há uma receita mágica que valha para todos. Ou seja, ninguém melhor que nós mesmos para decidir quando e quanto devemos comer. Ignorar essa premissa geralmente leva à negligência e interpretação errônea dos sinais do corpo, o que, por sua vez, acaba por desregulá-los. Infelizmente, hoje em dia os estímulos para que isso aconteça são muitos.


-Parece que atualmente a maioria de nós não está seguindo rigorosamente essas sensações, certo? Estamos comendo mais ou menos do que precisamos, na busca pelo prazer ou por um objetivo como o emagrecimento. É isso mesmo?

M. K

-Atualmente vivemos em uma sociedade onde dietas e restrições alimentares são muito difundidas e incentivadas, e dessa maneira somos afastados das nossas sensações corporais como a da fome e da saciedade. Quando seguimos alguma dieta com quantidades e horários pré-definidos, por exemplo, não estamos respeitando nosso sinal de saciedade e de fome. Já quando falamos em comer com prazer, precisamos entender que isso deveria envolver o respeito aos sinais do corpo, e não comer em excesso, de maneira automática ou sem planejamento e consciência. O prazer nos ajuda a comer melhor, e não necessariamente a comer mais. A sensação do prazer em comer é geralmente confundida com permissividade alimentar. Sob essa lógica, se quando em dieta “devo sentir fome”, quando “não faço dieta” devo comer de tudo e bastante, é como um efeito colateral. Proibição e permissividade alimentares acabam acontecendo como causa e consequência da negligência com os sinais do corpo.


-Qual é a diferença entre comer até ficar saciado ou até se sentir satisfeito?

M.K

-A saciedade é um sinal físico, ligado diretamente à quantidade, enquanto que a satisfação está atrelada ao prazer em comer algo. Embora sejam conceitos diferentes, podem aparecer juntos. Comer em quantidades adequadas algo que gostamos é um exemplo disso. Já quando comemos algo que não gostamos tanto, fica aquela sensação de querer algo a mais, independente da saciedade. Isso é bem comum em dietas que usam cardápios pré-definidos: a quantidade ingerida pode até ter sido adequada (muitas vezes não é), mas como a escolha do alimento não respeitou os gostos e preferências daquele indivíduo, ele não se sentirá satisfeito.


-Por que comemos mais do que necessitamos e o que isso pode causar?

M.K

-Atualmente é muito comum comermos independentemente dos nossos sinais físicos de fome e saciedade por vários motivos. A grande oferta de comida, as dietas e os modismos alimentares são bons exemplos, e até hábitos amplamente difundidos como salutares não fazem sentido para todas as pessoas. Por exemplo, comer determinado alimento só porque ele está incluído no preço da refeição, ou porque há algum tipo de reposição ou refil. Isso também faz com que a quantidade ingerida seja maior do que a necessária. Comermos mais do que necessitamos na maior parte das vezes vai resultar em ganho de peso, mas na minha opinião o foco não deve ser só esse. Comer de uma maneira mais conectada aos sinais físicos  nos leva a viver melhor, a ter uma relação de cuidado genuíno com nosso corpo.


-Acredito que sentir fome seja tão importante quanto se sentir saciado, certo? O que tem feito com que as pessoas percam esse instinto tão valoroso?

M.K

-Certo. Com a correria do dia-a-dia, com a enorme disponibilidade de alimentos, com alta palatabilidade de comidas prontas, por exemplo, acabamos comendo independentemente dos sinais físicos enviados pelo nosso corpo. E isso acontece tanto na hora de começar a comer (fome), quanto no momento de parar (saciedade). Infelizmente, o resultado dessa total desconexão com esses instintos/sinais são relações adoecidas com a comida e com o corpo.


-Quais são os riscos de perder a noção da fome?

M.K

-Sem a percepção adequada da fome, acabamos por comer de maneira automática, inconsciente e incoerente.


-As dietas restritivas e os remédios para emagrecer também podem desregular as sensações de fome e saciedade?

M.K

-Sim, e muito! A prática de dietas restritivas e o uso de remédios para emagrecer não só levam a pessoa a ignorar os sinais do próprio corpo, mas também os altera artificialmente. Ignorar a fome e antecipar a saciedade de maneira não natural acaba desregulando as sensações físicas.


-Como é possível voltar a entender os sinais do nosso organismo?

M.K

-A boa notícia é que isso é possível. Antes de mais nada, é imprescindível respeitar o próprio corpo, o que também quer dizer comer com atenção e planejamento. Quanto mais dedicação e respeito tivermos ao ato de comer, mais intuitivo ele se tornará. Procurar profissionais coerentes e com experiência no assunto também poderá facilitar esse caminho.