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Durante a semana uma notícia agitou as editorias de saúde, alimentação e maternidade. A partir de agosto, a Coca-Cola Brasil, a Ambev e a PepsiCo Brasil vão ajustar o portfólio de bebidas vendidas diretamente às cantinas de escolas no País. A principal mudança é que as empresas venderão às escolas para crianças de até 12 anos apenas água mineral, suco com 100% de fruta, água de coco e bebidas lácteas que atendam a critérios nutricionais específicos. O novo portfólio tem como referência diretrizes de associações internacionais de bebidas. É uma boa notícia? Claro que sim. Mas, para mim, é só o começo.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, 53% dos alunos de escolas particulares e 20% dos de escolas públicas, costumam comprar refrigerantes nestes ambientes. Os dados de 2013 do IBGE mostravam que 26% dos brasileiros tomavam esse tipo de bebida pelo menos cinco vezes por semana. Em 2015 o órgão divulgou ainda que praticamente um terço das crianças com menos de 2 anos já tomava refrigerante ou sucos industrializados. Isto demonstra que este hábito começa antes mesmo deles frequentarem as escolas. É importante que o consumo dentro delas seja reduzido. Mas é fundamental que também seja abolido das casas e aí não há nenhuma interferência externa, nem dos governos, nem da indústria, nem de nenhum profissional de saúde. A decisão de oferecer ou não refrigerantes, sucos industrializados ou achocolatados cheios de açúcar é somente dos pais e muitas vezes, eles dão o exemplo. Os pequenos estão muito acostumados a vê-los bebendo tudo isso de forma rotineira, então por que não iriam tomar também?

Os representantes da indústria já entenderam que não adianta substituir as bebidas gaseificadas pelos sucos ou achocolatados adoçados, que têm quase a mesma quantidade de açúcar. Mais uma vez, falta que esta informação chegue até as casas das crianças. De acordo com o Idec, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, o Brasil já é o 4º maior consumidor de açúcar (sacarose) no mundo, atrás de países muito populosos, como a China (3º), a União Europeia (2º) e a Índia (1º).  O Idec divulgou recentemente o “Especial Açúcar que você não vê“, segundo a responsável pelo estudo, Ana Paula Bortoletto, “Os brasileiros têm consumido mais de 50% acima do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde, de até 10% das calorias da dieta diária”. As principais fontes são refrigerantes, doces, balas, biscoitos e chocolates. Uma lata de refrigerante de cola, por exemplo, contém 7,4 colheres de açúcar. A nutricionista sugere que o consumidor opte pelos alimentos in natura ou minimamente processados, de acordo com as recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira. “Não troque comida feita na hora e fique com as sobremesas caseiras, dispense as industrializadas”, diz Bortoletto. Isto vale principalmente para os sucos. Sempre que possível opte por fazer o suco em casa com a própria fruta, as poupas congeladas também são boas opções, mas nada melhor do que consumir as frutas inteiras. Além de reduzir totalmente qualquer conservante e aditivo químico, elas também oferecem muito mais fibras e vitaminas para o nosso organismo.

A iniciativa das empresas de bebidas baseou-se nos altos índices de obesidade infantil registrados no Brasil e que aumentam a cada ano. Porém, não só os que estão acima do peso ou aqueles que têm tendência para engordar que devem se preocupar com o excesso de açúcar. Ele é prejudicial para todas as pessoas e para todas as crianças em especial. Ele pode provocar diversos processos inflamatórios, hipoglicemia e inibir a absorção de vitaminas e minerais, entre muitos outros efeitos indesejáveis. Além disso, o consumo rotineiro de refrigerantes não é nocivo somente pelo excesso de açúcar, se fosse, bastaria substituir as versões tradicionais pelas “zero açúcar”. O excesso de sódio, de corantes, de cafeína e de aditivos químicos e a falta de nutrientes também são grandes inimigos da saúde dos pequenos. Eles podem destruir as células de defesa do intestino prejudicando o sistema imunológico como um todo. Assim como o excesso de açúcar, o excesso destas substâncias também é relacionado cientificamente com casos de hiperatividade, distúrbios de comportamento e déficit de atenção. Além disso, na infância precisamos de muitos nutrientes e ingerirmos porções pequenas de alimentos por refeição. Quando são consumidos produtos ricos em açúcar, por exemplo, eles podem inibir a fome e dar uma falsa sensação de saciedade fazendo com que os pequenos comam menos comida de verdade. Isto também prejudica a sua nutrição e o seu desenvolvimento.

 

Voltando às escolas e à novidade da semana, tenho apenas mais uma ressalva a fazer. De acordo com um levantamento divulgado este ano pelo Ministério da Saúde, 30% dos jovens brasileiros tomam refrigerante todos os dias. Não acho que meninos e meninas com mais de 12 anos já consigam controlar essa vontade, construída cuidadosamente pela própria indústria de bebidas, e consigam tomar suas decisões baseados nas melhores opções para a saúde. Nem os adultos conseguem. Portanto, o próximo passo seria restringir a venda para os maiores também. Isso sem falar no ideal de se repensar as propagandas voltadas para as crianças e adolescentes. Ainda há uma longa jornada a ser percorrida, mas tenho esperança de um dia chegarmos lá.