O isolamento social já causou diversos reflexos na rotina e na saúde mental dos brasileiros, mesmo sem o grau de adesão que merece, e não tinha como ser diferente. Medo de se infectar ou de perder alguém próximo para o novo coronavírus, preocupação financeira, ansiedade com um futuro indefinido, privação de liberdade, excesso de tarefas, saudades de pessoas queridas, problemas de convivência com quem está do lado, são só algumas das questões que têm frequentado os lares do País. Há inúmeras maneiras de buscar conforto e refúgio diante das sensações e dos sentimentos negativos e parece que a uma das mais utilizada por aqui tem sido a comida, com o aumento no consumo de itens que geram uma satisfação imediata, como doces, biscoitos e salgadinhos. Mas a presença frequente e excessiva destes produtos na rotina alimentar pode trazer problemas a curto, médio e longo prazo.    

 

O projeto “ConVid – Pesquisa de Comportamento” teve como foco as mudanças causadas pelo isolamento social na vida dos brasileiros e concluiu que, dos jovens adultos, na faixa de 18 a 29 anos, 63% estão consumindo chocolates e outros doces em dois dias ou mais por semana, um aumento de 6% em relação ao período anterior à pandemia. Da mesma forma, o consumo de embutidos (salsicha, presunto, salame, mortadela…) e hambúrgueres subiu 5% e o de congelados, 4%. O estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a UFMG e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aponta também uma queda na ingestão de alimentos saudáveis. O consumo de frutas, verduras e legumes em cinco dias ou mais por semana caiu 4% após a chegada da pandemia e só é praticado por 33% dos entrevistados. Entre os adultos jovens esse número cai para 13% e na população de baixa renda, é de 16%. 

 

A quarta edição do Kantar Thermometer, estudo de impactos socioeconômicos da pandemia no Brasil e no mundo, revela que os brasileiros têm feito mais lanches nesse período. Durante a primeira semana de confinamento, o hábito teve um aumento de 74%, que colaborou para o crescimento do consumo de itens como creme de cacau (+56%), chocolate tablete (+55%) e biscoitos doces e salgados (+40%). De acordo com o aplicativo iFood, as compras de doces e bolos aumentaram 61% entre fevereiro e março deste ano, as de sorvetes subiram 56% e os produtos vendidos em padarias, 78%. Um levantamento da empresa Horus, que reúne dados de 300 mil consumidores do Rio de Janeiro e da cidade de São Paulo  mostrou que as vendas da marca líder no mercado de creme de avelãs aumentaram 312% entre a primeira semana de março e a primeira semana de abril. No mesmo período a procura por salgadinhos subiu 14,4%, por mistura para bolo, 19,5% e por leite condensado, 55%.

 

Alguns dos efeitos nocivos destes alimentos ficam ainda mais graves em tempos de Covid-19, como o enfraquecimento do sistema imunológico e do sistema nervoso central, relacionado ao equilíbrio emocional, estes já foram detalhados em posts anteriores. O que ainda não foi falado é que estes produtos ultraprocessados costumam fazer com que seus consumidores tenham uma vontade cada vez maior de ingerí-los. Eles são feitos, em sua maioria, com farinha de trigo, que é fonte de glúten; leite de vaca; açúcar; gordura; sódio e muitos aditivos químicos. O que pouco se sabe é que o glúten e o leite de vaca contêm substâncias que funcionam como ‘opióides’ e provocam uma sensação de relaxamento logo após o seu consumo, mas que será seguida por desconfortos que farão com que o organismo volte a “pedir” os mesmos alimentos para sentir prazer novamente, gerando um círculo vicioso. 

 

O açúcar também provoca um desejo cada vez maior nos seus consumidores, ele derruba os níveis de cromo, um mineral determinante para a ação da insulina, cuja falta gera uma enorme vontade por doces. O seu consumo frequente e excessivo pode gerar aumento de gordura localizada, obesidade e diabetes tipo 2, mas seus malefícios vão muito além disso. Há milhares de pessoas que não têm tendência para engordar, mas têm uma alimentação desbalanceada e consomem muito doce. Elas podem desenvolver diversos sintomas negativos, que variam de acordo com a sua predisposição genética, e vão desde enxaqueca e síndrome do ovário policístico, até infertilidade, entre muito outros. Há também uma falsa ideia de que ‘o açúcar nos dá energia’, o que ele faz é roubar a nossa energia, por conta dos picos e quedas da glicose, provocando letargia, dificuldade de concentração, agitação cerebral, irritabilidade e ansiedade. 

 

Os carboidratos feitos com farinha de trigo podem ser substituídos por receitas caseiras feitas com farinha de arroz, de aveia, de grão de bico, de amêndoas, de mandioca, de milho, fécula de batata ou polvilho doce e azedo (feitos de mandioca), entre tantas outras. Esses ingredientes podem ser encomendados e entregues à domicílio. Na internet não faltam receitas de bolos, pães, biscoitos, tortas e panquecas feitas com eles. Quando essas preparações recebem também fontes de fibras como linhaça, chia, flocos de aveia ou farinha de banana verde, por exemplo, ficam com um baixo índice glicêmico. Também já estão disponíveis no varejo vários tipos de leites vegetais e de produtos feitos com eles, como requeijão, queijos e iogurtes, em substituição à versão animal. Há ainda as receitas caseiras para quem se arriscar a fazer sua própria preparação. Aqueles que quiserem diminuir o açúcar sem cortar os doces, podem procurar opções cujo dulçor venha de outras fontes. Em casa dá pra fazer frutas como banana, maçã, pêra ou abacaxi cozidas com mel e/ou canela, na rua dá pra levar bananadas prontas e sem açúcar, que se encontra facilmente nos mercados. Só não substitua o açúcar pelos adoçantes artificiais à base de aspartame, sacarina sódica ou sucralose, que também podem aumentar a resistência à insulina.