O frango caipira é um dos produtos que aos poucos foram perdendo espaço na mesa dos brasileiros para dar lugar às suas versões industrializadas. A produção barata e em larga escala só é possibilitada pela utilização de uma ração pobre e aliada à anitibióticos. Além disso o abate é feito em um período de tempo muito mais curto do que o das versões caipira e orgânica. Tudo isso faz com que o gosto da carne fique prejudicado, assim como a sua qualidade. De acordo com a Associação Brasileira da Avicultura Alternativa, AVAL, os frangos caipira representam 0,5% da produção de pintos de um dia do mercado brasileiro. O equivalente a cerca de 6 milhões de pintinhos por mês, número que cresceu 15% em 2016, ano de recessão econômica. Para aumentar ainda mais esse percentual, a Associação está realizando algumas ações junto a determinados setores da economia, como apresentar pratos feitos com a carne à chefs de cozinha, que possam se interessar por ela. A expectativa é de uma alta de 25% nas vendas até o final do ano.

 

Em 2015, entraram em vigor as normas que norteiam a produção, o abate, o processamento e a identificação da ave caipira. A certificação permite ao consumidor identificar com segurança esse tipo de produto. Uma das regras mais importantes é não criar as aves em regime de confinamento total, em gaiolas ou galpões. Os frangos com selo AVAL têm que ter espaço para pastejar. Assim, podem tomar sol, banho de areia, ciscar à vontade e se alimentar durante o pastejo de folhas verdes, raízes e pequenos insetos, típicos de cada região onde as aves são criadas. Também é proibido o uso indiscriminado  de antibióticos. Estudos científicos comprovam que esta prática tem causado o surgimento de superbactérias – aquelas resistentes a determinados antibióticos. Entre as vantagens do frango caipira sobre o industrializado está ainda o fomento dos pequenos produtores, segundo o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, 80% das famílias agricultoras têm algum tipo de produção de frango e, dessas, 56% utilizam as criações também para obter renda complementar.

 

Sobre este assunto conversei com o presidente da AVAL, Reginaldo Morikawa e com o vice-presidente da AVAL, Luiz Ricardo Bianchi.

 

– Qual é a diferença entre os frangos caipira, orgânico e produzido em larga escala?

-Reginaldo Morikawa e Luiz Ricardo Bianchi

O legítimo frango caipira é criado solto, em liberdade, valorizando o bem-estar animal, e sem fazer uso de melhoradores de desempenho. Já o sistema orgânico de produção de aves é definido pela lei nº 10.831 e regulamentado principalmente pela IN nº46 de 06/10/11 do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA), nas quais se faz referência aos produtos obtidos pelo sistema orgânico, ecológico, biológico, biodinâmico, natural, sustentável, regenerativo e agroecológico.  Em ambos os casos as aves são criadas soltas, com acesso ao piquete. O frango industrial é mantido confinado em gaiolas e nele são utilizados melhoradores de desempenho. A avicultura em larga escala difere também da avicultura alternativa no tempo de abate – enquanto o frango caipira é abatido com no mínimo 70 dias, o industrial é abatido com 42 dias. E referente a qualidade, a carne caipira é mais firme, com a estrutura óssea mais definida, menor quantidade de gordura e maior quantia de colágeno, essas qualidades organolépticas são comprovadas cientificamente.

 

-De acordo com o novo modelo de certificação, o que um frango precisa ter para ser considerado caipira?

-Reginaldo Morikawa e Luiz Ricardo Bianchi

Ainda não temos um modelo de certificação, temos uma norma da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Segundo essa norma, para um frango ser considerado caipira ele precisa ser produzido com genética de crescimento lento, deve ter no mínimo 70 dias de idade e no máximo 120 dias para ser abatido. No manejo, cada galinha deve ter no mínimo 0,5 m² de área de piquete disponível e não usar quimioterápicos e antibióticos de forma preventiva como melhoradores de desempenho.

 

-Qual é o percentual de vendas dos caipiras e dos orgânicos no panorama nacional?

-Reginaldo Morikawa e Luiz Ricardo Bianchi

Hoje, os frangos caipira representam 0,5% da produção de pintos de um dia do mercado brasileiro. Os orgânicos estão com a produção destinada a um mercado muito específico, que corresponde a 0,001% da produção nacional. Entretanto, a empresa associada Korin fez a primeira exportação de frangos orgânicos do Brasil.

 

-Muita gente opta pelos frangos industriais porque eles têm um custo menor. Por que a produção dos caipiras e orgânicos costuma ser mais cara?

-Reginaldo Morikawa e Luiz Ricardo Bianchi

O custo normalmente é mais caro porque demanda um maior tempo de criação e um crescimento natural. Apesar desse custo maior, as aves caipiras e orgânicas têm um sabor diferenciado e uma qualidade superior e se baseiam no uso responsável de quimioterápicos e antibióticos.

 

-Grandes marcas de frango do País têm anunciado seus produtos como ‘de granja’. Como saber se um alimento é realmente caipira ou orgânico?

-Reginaldo Morikawa e Luiz Ricardo Bianchi

No caso do produto orgânico, existem certificações emitidas por certificadora credenciada pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA). No caso do caipira, para ter certeza que o produto está seguindo as normas da ABNT, o consumidor pode verificar se o produto possui o selo da AVAL, que é referência de qualidade de quem segue a norma, ou então deve conhecer o produtor e confiar que ele segue os padrões técnicos exigidos.

 

-Quais são os malefícios à saúde que os frangos produzidos em larga escala podem causar?

-Reginaldo Morikawa e Luiz Ricardo Bianchi

O que podemos dizer é que os que não são produzidos em larga escala, os frangos orgânicos e caipira, recebem uma alimentação natural, à base de ração balanceada, e só são medicados com quimioterápicos se realmente ficarem doentes. Tudo isso resulta no bem-estar animal, que sem estresse produz uma carne saudável, mais consistente e com melhor sabor.

 

-Qual é o potencial de crescimento deste setor? É possível produzir frangos caipira em larga escala? O que deveria acontecer para que se consiga esse feito?

-Reginaldo Morikawa e Luiz Ricardo Bianchi

O consumidor é quem dita as regras da indústria, portanto se ele adotar o consumo responsável de proteína animal, que une o bem-estar e o uso responsável de antibióticos quimioterápicos, a produção será em grande escala. Na França, por exemplo, a venda das aves alternativas à produção industrial representam mais 30% do mercado interno.

 

-A Aval oferece algum apoio aos pequenos produtores para que melhorem ou ampliem a sua produção?

-Reginaldo Morikawa e Luiz Ricardo Bianchi

Sim, a AVAL oferece apoio e orientação aos pequenos produtores, por isso nós convidamos e recomendamos a quem queira participar desse nicho de mercado se unir à Associação.