Fruta

Elas sempre estiveram e ainda estão tão presentes no meu dia a dia que eu realmente me surpreendi com uma pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde que revelou que as frutas não estão na lista dos dez alimentos mais consumidos pelos brasileiros. Só apareceram na vigésima posição e entre um pequeno grupo, os meninos de 12 e 13 anos, ainda assim para apenas 18% deles. Não preciso nem comentar que entre os top 20 estão diversos produtos industrializados e ultraprocessados cheios de sódio, açúcar e aditivos químicos, não é? O Brasil é um dos Países mais ricos do mundo no que se refere à diversidade de frutas. Em todas as épocas do ano temos dezenas delas à nossa disposição. São saborosas, bonitas, coloridas, estão cheias de vitaminas, fibras e minerais e muitas já veem prontas pra comer, basta lavar, como a maçã, a pêra, a goiaba e tantas outras, ou seja, também são práticas para se carregar e para serem consumidas ao longo do dia. E tem para todos os gostos, desde as mais azedinhas até as muito doces. Não consigo entender por que perderam tanto espaço na rotina das pessoas com o passar dos anos.

O Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes foi realizado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com o Ministério da Saúde e reuniu dados de cerca de 75 mil estudantes de 12 a 17 anos. Outro estudo apontou que o consumo de frutas dos adultos também é baixo. De acordo com a Pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas apenas 37,6% da população adulta costuma se alimentar do produto cinco ou mais dias da semana. Se o exemplo não partir dos adultos, dificilmente os pequenos irão incorporar este hábito tão positivo à rotina. Segundo o pediatra do Instituto da Criança da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina,  Rubens Feferbaum, o consumo ineficiente destes alimentos está relacionado ao ganho de peso, o que ajuda a explicar por que mais da metade dos adultos do País está obeso e 15% da população com menos de seis anos de idade já mostra prevalência de excesso de peso. A média de consumo de frutas por crianças e adolescentes está entre 30% e 40% do recomendado, com redução de ingestão conforme aumento de idade. A banana é a única fruta incluída na lista de 20 alimentos mais consumidos entre adolescentes, mas apenas 12% fazem isto diariamente.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que o consumo diário de frutas, legumes e verduras deve ser de no mínimo 400gr para prevenir o aparecimento das doenças crônicas não-transmissíveis, o que equivale a 5 porções de frutas. Mas segundo um artigo que será publicado na revista científica Journal of Human Growth and Development, 90% dos brasileiros de todas as faixas etárias e regiões do País consomem muito menos do que isto e sequer conhecem as quantidades recomendadas. As frutas são ótimas fontes de vitaminas, minerais, fitoquímicos – substâncias que têm ação antioxidante, anti-inflamatória e desintoxicante, entre outras. Contêm enzimas digestivas, principalmente o abacaxi e o mamão, também são ricas em fibras, que alimentam as boas bactérias do intestino. Ainda são uma maneira gostosa de matar a sede e atingir a nossa cota diária de água, porque, em média, 80% de sua composição é formada por ela. E se não bastasse, ajudam a reduzir o índice glicêmico da refeição em que for consumida, no café da manhã e nos lanches intermediários, principalmente. Isto porque, nestes momentos ela normalmente é acompanhada de um carboidrato, que pode ter um alto índice glicêmico, mas as fibras presentes nelas serão fermentadas pelas boas bactérias do nosso intestino e isso faz com que a absorção tanto do açúcar presente nelas, a frutose, quanto o dos carboidratos sejam mais lentas. O que é bom para o organismo.

O que tem ocorrido recentemente em muitos consultórios médicos é uma certa confusão entre a frutose presente nas frutas e a sua versão industrializada. Há muitos profissionais receitando que os pacientes deixem de comer frutas por conta deste açúcar natural. Porém, o organismo absorve a frutose de formas diferentes quando ela é consumida no meio da fruta ou isoladamente. No primeiro caso, além da dose ser menor, ela também vem acompanhada das fibras e isto não acontece quando a frutose é industrializada e utilizada para adoçar as preparações, neste caso é absorvida mais rapidamente. Também é importante ressaltar que há um tipo de frutose disponível no mercado, que é extraída do milho, mais conhecida como xarope de milho,  que é muito utilizada nos processos industriais por ser mais doce, líquida e mais barata que o açúcar comum. Além de estar presente em grande quantidade nos produtos, a sua absorção é muito rápida e pode aumentar a liberação de insulina, o que pode provocar entre outros fatores nocivos, o aumento de gordura no fígado. Portanto, esta sim, deve ser evitada.

Vou terminar o post com alguns dados positivos. Se por um lado o consumo in natura tem diminuído, por outro há empresas jovens, com um crescimento muito rápido no mercado que investiram nas frutas como base para produtos industrializados “do bem”. São opções fáceis de serem armazenadas, transportadas ao longo do dia e que servem até para a introdução alimentar dos pequenos. Segundo o presidente da Pic-Me, Thiago Burgers, “imagine que você amassou na sua casa uma maçã e uma banana e as colocou em uma embalagem que conserva estes alimentos sem a necessidade de conservantes, este é o produto. O lançamento foi em novembro de 2015, de lá até agora a gente está em 3 mil pontos de vendas em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Ceará, em 2016 temos a expectativa de atingir 9 milhões de vendas”. Outra novidade são os sorvetes feitos apenas com frutas e água de coco, de acordo com o co-fundador da Sorvete Naked, Rafael Cipolla,  “do ano passado pra cá a gente cresceu 140%, em dezembro nós tínhamos três pontos de venda, hoje nós temos 40, esse crescimento aconteceu em cinco meses, em um ano de crise econômica”. Um dos objetivos da marca é apresentar as frutas de uma forma diferente às pessoas que não estejam acostumadas com elas, mas que gostam muito de sorvetes, por exemplo, eles também ajudam a retirar da rotina outros doces com mais gordura e açúcar, “é uma boa forma de substituir o chocolate da tarde, que as pessoas comem no trabalho”.

O ideal é que os novos produtos não passem a substituir as frutas in natura, mas que façam com que os brasileiros voltem a se interessar por elas e que as tragam de volta para suas rotinas. Os benefícios desta trégua logo aparecerão. Duvida? Faça o teste.