Foi só dezembro se aproximar que o meu email ficou lotado de textos com títulos como: “Ainda dá tempo de perder peso para o verão”; “Dicas para fazer uma ceia de Natal “low carb“; “10 exercício para ter um abdômen trincado”; “Como resistir às tentações das festas de final do ano”; algumas mais parecem piadas: “Lipoaspiração na axila, conheça o novo procedimento”. Se por um lado, há um movimento crescente de mulheres promovendo o autoamor e questionando a busca desenfreada por uma dita “perfeição”, por outro, os cirurgiões plásticos e as clínicas estéticas têm cada vez mais clientes.

 

Pra mostrar que é possível reverter este quadro e aumentar a sua autoestima, vou falar sobre o que aconteceu comigo. Faço exercícios três vezes por semana, porque me ajudam a manter a saúde mental, me alimento bem e de forma equilibrada, não como de forma compulsiva, nem passo fome, gosto de comer alimentos naturais e fico longe dos ultraprocessados porque sei que não fazem bem para a minha saúde. Estou dentro do peso que seria considerado ”ideal” para a minha altura, mas a minha barriga não é chapada, negativa ou com gominhos definidos, como preferir chamar. Todos os dias quando me olhava no espelho, pensava: “preciso deixar essa barriga definida”. 

 

Para que a minha barriga fique mais definida vou precisar intensificar os exercícios ou aumentar a frequência deles, que resultaria em dores articulares ou nas costas por conta da sobrecarga, sei disso porque já fiz esta tentativa. E também perderia algumas horas que podem ser preenchidas com um hobbie, como ler e escrever, com a companhia do meu filho, com mais tempo na cozinha, ou até com mais horas de sono ou de descanso, por que não? 

 

A outra opção seria comer menos e sentir fome, ficar 15, 20, 24 horas sem comer, me sentindo mal, no caso do jejum intermitente ou fazer alguma dieta restritiva, como cortar os carboidratos, que vai detonar o meu sistema imunológico e o meu sistema nervoso, podendo me causar enxaqueca, ansiedade, irritação, apatia ou piorar estes sintomas já tão frequentes em meio a uma pandemia. Também poderia me submeter a algum procedimento estético, que normalmente vem associado a riscos e a dores, gastando muito dinheiro.

 

Eu poderia fazer tudo isso ou optar por alguma dessas alternativas, como fazem milhões de mulheres e homens em todo mundo, mas preferi o caminho mais difícil, o da autoaceitação. Entendi finalmente, e isso faz poucas semanas, que este é o meu corpo ideal, é o corpo que eu tenho quando estou fazendo atividade física com frequência e me alimentando bem. Não foi fácil chegar a esta conclusão e ainda tenho umas recaídas. Como todo mundo, tenho dias bons e ruins, às vezes ainda me olho torto, é normal, mas estes momentos têm sido menos frequentes.  

 

As redes sociais me ajudaram a me olhar com mais carinho. Fiz uma faxina e deixei de seguir todas as pessoas cujas fotos estavam sempre cheias de filtros e efeitos, cujas vidas eram sempre perfeitas e os corpos definidos exaltados. No lugar delas encontrei outras tantas que são a personificação da aceitação e do autoamor, que dividem comigo seus momentos bons e os ruins também, que são humanas como eu. Graças a elas, passei a me olhar com mais carinho, a me julgar menos, a encontrar a minha beleza, depois de quase 37 anos, a ter vontade de me arrumar, de experimentar roupas ou combinações diferentes, de sair de cabelo molhado, sem ter que passar pela escova e me sentir bonita com o seu volume natural. 

 

Tenho ouvido muitos podcasts com mulheres reais mostrando o que já deveria ser óbvio, que todas as pessoas são inseguras de alguma forma, estão descontentes com algum aspecto das suas vidas, têm os seus pontos fracos e precisam lidar com determinados problemas, de maiores ou menores proporções. Acredite, pessoas com os tais corpos  “perfeitos”, narizes arrebitados, sem rugas, com os rostos “harmonizados”, com os cabelos tingidos e hidratados não são plenamente felizes, não são necessariamente bem-sucedidas nos relacionamentos amorosos, nem sequer estão satisfeitas com a sua aparência. 

 

Então, para o próximo ano, desejo que você corra atrás da sua aceitação. Deixe de ver o que te coloca pra baixo, procure seguir, ler, ouvir quem te representa, que divide as mesmas angústias que você. Procure se conhecer profundamente, encare de frente seus pontos positivos e negativos, mas principalmente os positivos, lembre-se deles diariamente. Pare de se comparar com atrizes super maquiadas, com influencers, até mesmo com amigas e conhecidas. Acima de tudo, pare de se julgar, de se culpar, de se condenar, de sentir fome, de machucar o seu corpo com o excesso de exercícios, pare de gastar dinheiro, de sentir dor e de correr riscos com cirurgias e procedimentos estéticos. Espero que você se olhe mais no espelho, encontre seus traços mais bonitos e os valorize, todo mundo tem algo de bonito. Com tudo isso, certamente estará mais próxima/o de ter um feliz 2021.