Quando a quarentena começou, o cenário dentro das casas de quem precisou conciliar trabalho, cuidados com as crianças e tarefas domésticas diárias ficou caótico, e não era pra menos. Para dar conta de tudo, e ainda manter a sanidade mental, muita gente precisou abrir mão de alguma coisa. Passar roupa? Nunca mais. Organizar os brinquedos? Deixa pra lá. Controlar o tempo que os pequenos passam nas telas? Impossível. Cuidar da alimentação deles? Sem chance. 

 

A ideia de que o confinamento duraria apenas algumas semanas e o excesso de tarefas fizeram com que muitos pais relaxassem os cuidados que tinham com a alimentação dos pequenos. Refrigerante, pizza, pipoca, doces, bolachas, sorvetes, que costumam ser liberados aos finais de semana, entraram de vez na rotina diária. Em outras casas, onde estes produtos já tinham passe livre diariamente, era a escola quem reforçava a alimentação quando oferecia comida de verdade na merenda, por exemplo.

 

Investir na qualidade do que oferecemos aos nossos filhos pode ser mesmo bastante trabalhoso e estressante, principalmente entre aqueles que têm mais resistência na hora de variar os alimentos. É compreensível que muitas pessoas procurem evitar mais uma fonte de estresse diário, em um momento tão delicado. Procurar opções de lanches mais saudáveis para os intervalos das refeições também exige mais atenção do que lançar mão dos ultraprocessados convencionais (bolacha recheada, biscoitos, bolinhos, salgadinho, doces, refrigerantes e salsicha, entre tantos outros). 

 

A grande oferta de preparações prontas e congeladas nos supermercados e de comida entregue em casa também afastam da cozinha aqueles com pouco tempo livre, que não estavam acostumados com as panelas ou que não gostam de cozinhar. Desta forma, diminui muito o consumo de alimentos naturais e aumenta a ingestão de opções mais gordurosas, menos nutritivas e feitas com mais caldos e temperos prontos, ricos em aditivos químicos, que são maléficos à saúde.       

 

O aumento do tempo que as crianças passam diante das telas também faz com que elas fiquem mais expostas a uma infinidade de propagandas de alimentos ultraprocessados e de fast food, peças elaboradas minuciosamente por especialistas para fazer com que elas queiram consumi-los. Hoje, oito meses depois do início da quarentena, os hábitos alimentares dos pequenos continuam negligenciados e logo as consequências irão aparecer. É preciso ter muita informação para se motivar a cozinhar com mais frequência, dizer mais “nãos”, negociar, insistir, orientar. Seguem então alguns argumentos para te convencer a encarar mais esta batalha. 

 

Uma criança que come poucas frutas, verduras, legumes, cereais integrais e leguminosas (como o arroz com feijão) e muitos ultraprocessados:

 

-Terá o sistema imunológico bastante prejudicado e além de pegar gripes e resfriados com mais frequência, também levará mais tempo para sair dos quadros, que podem até se agravar. Poderão ser mais frequentes também as crises inflamatórias, como: rinite, bronquite, sinusite, otite e amigdalite, entre outras.   

 

-Ficará com o paladar cada vez mais viciado pelo açúcar, pelo sal e pelos aditivos químicos utilizados pela indústria alimentícia para realçar o sabor de seus produtos e, consequentemente, irá se tornar cada vez mais seletiva e com mais dificuldade para aceitar os alimentos naturais. Uma aversão que poderá acompanhá-la por toda a vida.

 

-Poderá ficar mais ansiosa, agitada, irritada, chorona, briguenta… estes sintomas são provocados pelo consumo diário de açúcar, que atua diretamente no cérebro, agitando as células nervosas. Um quadro que, em tempos de pandemia, ainda é agravado pelo distanciamento social. O açúcar também rouba energia do sistema nervoso central e, dependendo da predisposição genética, pode, por outro lado, causar prostração, letargia, cansaço, apatia, enxaqueca e dificuldade de concentração e de aprendizagem.   

 

-Aquelas que têm tendência para engordar podem ganhar peso com mais velocidade, porque estão também mais sedentárias e ansiosas, devido ao isolamento. O excesso de peso é um problema entre os pequenos, mas não pela questão estética, porque demonstra que o organismo está inflamado e em desequilíbrio. Ele é apenas um dos sintomas deste quadro, que também pode causar diabetes tipo 2, aumento do mau colesterol e hipertensão. Quando não tratados na infância, a obesidade e o excesso de peso podem se agravar na vida adulta com sérias consequências para a saúde.  

 

Se estiver convencido de que vale a pena dedicar mais energia para fazer com que o seu filho coma melhor, mesmo durante a pandemia, vou te dar algumas dicas.

 

-Se não tiver tempo de cozinhar durante a semana, reserve umas horinhas no final de semana para comprar alimentos naturais frescos e higienizá-los, principalmente as verduras. Isso economiza bastante tempo na hora de preparar uma salada, que assim levará poucos minutos. 

 

-Também no final de semana é possível adiantar algumas preparações que podem ser congeladas, como o feijão, em pequenas porções e sem tempero, que pode ser temperado na hora de servir com o alho comprado já picadinho. A porção que será utilizada pode ir do freezer para a geladeira na noite anterior e o processo de temperá-lo também levará poucos minutos.

 

-Os legumes normalmente têm um tempo curto de preparação, mas também podem ser feitos com antecedência e congelados. 

 

-O arroz precisa de dez minutos de cozimento, mas você pode fazer em quantidades maiores e consumir por até dois dias.  

 

-Alguns produtos industrializados são práticos e saudáveis, como o tomate pelado, que vira um molho em cinco minutos, a sardinha enlatada e o grão de bico já cozido, por exemplo.

 

-A carne, o frango e o peixe podem ser comprados congelados, mas sem tempero, os que já vem temperados são ricos em aditivos químicos. Você pode temperá-los na hora do preparo com sal, azeite, pimenta, alho e ervas e especiarias, como: alecrim, louro, páprica e curry ou deixá-los marinando da noite para o dia na geladeira com os ingredientes que preferir. Quando grelhados, ficam prontos em poucos minutos. 

 

-Na hora do lanche, as frutas serão suas grandes aliadas, são práticas, nutritivas e saborosas, vale a insistência entre aqueles que não aceitam bem, variando o tipo que será ofertado. Temos no Brasil centenas delas, com sabores e texturas bastante variados. Os biscoitos, bolinhos e pães ultraprocessados podem ser substituídos por tapioca, batata doce cozida, milho cozido, frutas com aveia em flocos e bolos caseiros. 

 

-O ovo é uma ótima opção para compor o lanche ou o café da manhã das crianças e pode ser usado nas refeições principais. Só tome cuidado para não consumi-lo todos os dias, é importante variar os alimentos.

 

-É importante ser firme e deixar os doces e o refrigerante, se for inevitável, apenas para dias específicos, como uma festinha. Para conseguir esta firmeza, lembre-se de todos os efeitos nocivos que eles podem provocar na saúde dos pequenos. Este blog tem inúmeros textos que detalham os efeitos nocivos provocados pelo excesso de açúcar e de aditivos químicos. Basta procurar pelas palavras-chave.