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Uma análise mais criteriosa mostra que, proporcionalmente, os produtos naturais são os mais baratos e mesmo assim é possível reduzir ainda mais este custo.

No meu último post falei sobre a possibilidade de substituirmos as farmácias pelas quitandas, ou seja tentarmos nos alimentar melhor e assim prevenir as doenças ao invés de tratá-las. Muitos dos comentários escritos na página do Jornal no facebook  falaram sobre o alto preço dos produtos naturais, principalmente em comparação com os ultraprocessados e que esta diferença seria determinante na hora de optar por um ou por outro. Quero fazer então algumas considerações sobre a questão dos preços e dos valores dos alimentos.

De fato os alimentos naturais, principalmente as hortaliças, têm tido os seus preços mais atingidos pela inflação, pelo aumento do custo dos transportes, por exemplo e por condições climáticas adversas. Este aumento tem também impulsionado os índices gerais de inflação do País. Enquanto isso gasta-se o mesmo ou quase nada a mais para comprar os produtos considerados ultraprocessados. Mas vamos analisar alguns exemplos simples, 1kg de batata inglesa custa em média 4 reais, enquanto isso, um pacote com 100gm de chips de batata custa 4,89. O que alimenta mais, um quilo de batata in natura ou um pacote de 100gm de chips? A resposta está subentendida. Em um hipermercado nacional, 2kg de banana nanica saem por cerca de 5,38 reais e um pacote de 140gm de bolacha recheada por 1,69. O valor da bolacha é mais baixo mas, proporcionalmente, vemos que as bananas são mais baratas. No caso do macarrão instantâneo com pouco mais de 1 real você pode fazer o almoço para uma pessoa ou pode comprar uma dúzia de ovos por 4,75 e  complementar as refeições de toda a família por uma semana.  Aparentemente os valores dos produtos prontos são mais baixos, mas é só analisarmos as quantidades de comida para notarmos que isso não é verdade. Os preços dos ultraprocessados são apenas mais estáveis pois eles sofrem menos com as questões climáticas, por exemplo. E a diferença entre eles não para por aí.

Em entrevista concedida à Agência Fapesp, o Coordenador Técnico do Guia Alimentar para a População Brasileira, Carlos Augusto Monteiro, declara que o ultraprocessamento permite fazer produtos de muito baixo custo e de grande aceitabilidade, durabilidade e conveniência. Isso é conseguido por meio de processos tecnológicos muito sofisticados e uso de ingredientes relativamente baratos, como açúcar, gorduras, sal e aditivos. Além de ter um perfil nutricional intrinsecamente desequilibrado (muito sódio, muito açúcar, muita gordura não saudável), os processos e os ingredientes utilizados levam a produtos que confundem o controle natural da fome e da saciedade e que, nesta medida, promovem a obesidade. Primeiro, porque são produtos que contêm grande quantidade de calorias por volume. Segundo porque sendo praticamente pré-digeridos e contendo pouca ou nenhuma fibra alimentar, são absorvidos muito rapidamente. Terceiro porque são hiperpalatáveis, ou seja de fato são manufaturados para que sejam “irresistíveis”…. Por conta do crescimento exponencial das vendas de alimentos ultraprocessados, há centenas de novos aditivos entrando no mercado todos os anos. Mesmo que apenas uma proporção ínfima desses aditivos seja prejudicial à saúde, as consequências para a saúde pública podem ser muito graves. É urgente que haja uma regulação mais criteriosa dos aditivos alimentares.

Com base nesta declaração, trago aqui uma proposta polêmica. Em países como o México e a Inglaterra, os governos aumentaram os impostos sobre os refrigerantes, por exemplo, que comprovadamente são prejudiciais à saúde. No nosso País, 30% dos jovens consomem o produto todos os dias. Certamente este hábito lhes causará consequências no futuro ou até a curto prazo. Aumentar os impostos sobre este tipo de produto é uma forma do governo demonstrar que eles não devem ser consumidos em excesso e com tanta frequência e seria também uma forma de economizar as despesas com o SUS nos próximos anos. Mais uma vez a prevenção das doenças aparece como a melhor saída para o nosso sistema público de saúde e para o nosso bem estar, nem que seja pelo viés financeiro.

De qualquer forma, o ideal é que o preço dos alimentos naturais fique mais baixo. Uma das saídas para isso é reduzir o desperdício. Atualmente mais de 1/3 de tudo que é produzido no mundo vai parar no lixo antes mesmo de chegar às mesas, em alguns países esse índice é maior pois existe uma falsa ideia de fartura, como acontece por aqui, e em outros já se sabe o valor do consumo consciente, pois essa oferta é mais escassa. Em média são desperdiçados 1,3 bilhão de toneladas de alimentos por ano, o que corresponde a 750 bilhões de dólares.

No Brasil 10% de tudo que é desperdiçado parte das nossas casas. Segundo levantamento feito pelo Instituto Akatu, se reduzirmos em 20% o desperdício dos alimentos naturais, ao final do mês, teremos economizado 90 reais. Ainda de acordo com o Akatu, cada brasileiro gera em torno de um quilo de lixo por dia. Cerca de 58% desse total é composto por restos orgânicos, como cascas ou alimentos estragados. Com algumas dicas simples é possível reduzir este percentual. Você já comeu as folhas da cenoura, da beterraba, do brócolis ou da couve flor, por exemplo? Elas são muito nutritivas e saborosas e podem ser refogadas com alho e cebola como qualquer outra verdura. Nas feiras livres normalmente são jogadas fora e se o cliente pedir para levar, nem precisará pagar por elas. Você sabia que legumes como a abobrinha e a berinjela podem ser consumidos com a casca? É outra forma de utilizar o alimento de forma integral e ainda adicionar mais variedade de nutrientes à sua rotina alimentar. Programar as refeições que serão feitas durante a semana e as quantidades de cada alimento que será servido também ajuda a diminuir aquilo que irá sobrar. E se você notar que os alimentos estão amadurecendo muito rápido e não terá tempo de consumi-los pode aferventá-los ou já prepará-los como serão consumidos e congelar em seguida. Você irá economizar na próxima compra pois os alimentos estarão lá, esperando para serem utilizados e com as mesmas características nutricionais de antes do processo de congelamento. Até a banana pode ser congelada, isso eu faço sempre. Se a penca for muito grande e ela começar a amadurecer demais pode deixá-la no freezer com casca e tudo, depois é só bater no liquidificador com um pouco de água, mel e alguma outra fruta e está feito um creme gelado, ideal para os dias de calor.

Ao reduzirmos o desperdício também estaremos colaborando com o meio ambiente, pois haverá menos necessidade de espaço e insumos como a água, necessários para a produção deles. E ainda de acordo com o pesquisador da Universidade de São Paulo, Carlos Monteiro, o ultraprocessamento de alimentos é muito ruim para o ambiente também, pois gera uma grande quantidade de resíduos sólidos e requer maior consumo de água e de energia em comparação aos alimentos minimamente processados. Também representa risco à diversidade de espécies. Como a lógica da indústria é reduzir custos, compram apenas um tipo de laranja, um tipo de milho ou de soja. Quando consumimos diretamente os alimentos, percebemos a diferença entre, por exemplo, variedades de laranjas, de feijões ou de batatas. A cultura culinária garante a perpetuação dessa variedade….Dentre os alimentos minimamente processados, o impacto ambiental não é homogêneo e, neste sentido, o guia recomenda que a alimentação esteja baseada em uma variedade de alimentos de origem vegetal, que são os de menor impacto ambiental, e que as carnes vermelhas, em particular, sejam consumidas em pequenas quantidades.