O percentual de brasileiros obesos sobe a cada ano. De acordo com o Ministério da Saúde, em 10 anos, a prevalência de obesidade passou de 11,8% em 2006 para 18,9% em 2016, quase um em cada cinco brasileiros. No mesmo período, a de diabetes passou de 5,5% em 2006 para 8,9% em 2016 e a de hipertensão, de 22,5% em 2006 para 25,7%. Já se sabe que a amamentação pode colaborar com a prevenção destas doenças crônicas não transmissíveis. A novidade é que esta prevenção pode começar ainda na gestação.

 

Estudos científicos recentes comprovam que a deficiência de micronutrientes, como vitaminas e minerais, na gestante, durante o terceiro trimestre da gravidez, pode predispor o filho à doenças metabólicas, como resistência à insulina, obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, alteração de colesterol e de triglicérides. E nas fases de amamentação e introdução de alimentos, até o primeiro ano da criança, acontece a formação de um grande número de células gordurosas, principalmente se não houver adequação da alimentação da mãe durante a amamentação e uma introdução correta de alimentos para o bebê. Além do cuidado com a alimentação da mãe e do bebê no começo da sua vida, também é importante ficar atento para a sua individualidade. Não devemos submetê-los à rigidez dos padrões, como os dos gráficos da curva do crescimento, por exemplo.

 

Em entrevista exclusiva à Revista Crescer, o pediatra indiano Atual Singhal, chefe do Centro de Pesquisa em Nutrição na Infância do Instituto de Saúde da Criança, em Londres, na Inglaterra, falou sobre a confusão que se faz com o peso dos pequenos. “Em nossos estudos, produzimos quadros de crescimento baseados em um grupo de bebês alimentados com fórmula e outro que mamava no peito. Comparando ambos os gráficos, concluímos que aqueles alimentados com mamadeira cresciam mais rapidamente do que os outros. O ideal é que o crescimento seja distribuído, formando uma linha ao longo do quadro. Os que ficam acima dessa linha estão crescendo muito rápido e os que ficam abaixo, muito lentamente. Os médicos e as enfermeiras já estão acostumados a cuidar dos bebês que estão abaixo da linha do crescimento esperado, geralmente porque eles não estão recebendo leite suficiente, por exemplo. Mas a novidade é que, agora, os médicos também terão que se certificar se o bebê não está engordando rápido demais”.

 

Esta diferença de peso relatada pelo pediatra entre os bebês que eram amamentados e os que consumiam leite de vaca pode ter várias explicações. Os bebês ainda não possuem um sistema imunológico preparado para tolerar proteínas de difícil digestão, como algumas dos leites de vaca e de soja. Essas proteínas podem causar processos inflamatórios, a própria obesidade é hoje considerada uma doença inflamatória. Além disso, podem deixar as crianças mais inchadas e predispostas à várias doenças inflamatórias crônicas. A resistência à insulina causada por essa inflamação pode levar ao aumento de gordura corporal. O leite de vaca também tem altas quantidades de hormônios do crescimento, que podem contribuir para um aumento de peso. Ainda hoje as crianças mais gordinhas são consideradas mais saudáveis do que as demais, mas isso não procede. Pelo contrário, quando o excesso de peso se instala na primeira infância, é um sinal de que a criança tem predisposição aos distúrbios relacionados ao sistema metabólico e, caso não seja revertido nos anos seguintes, ela poderá desenvolver doenças como a obesidade e a diabetes tipo 2, entre outras.

 

Também deve-se tomar cuidado com os bebês considerados ‘abaixo do peso’. Ao primeiro sinal de que a criança não está seguindo a curva padrão, ela já costuma receber uma fórmula industrializada para complementar a amamentação, em muitos casos, essa complementação é desnecessária. Nesses casos, o ideal é corrigir a alimentação e até a suplementação da mãe. O pediatra do Instituto de Saúde da Criança de Londres afirmou que o crescimento da criança deve ser distribuído e a linha de crescimento que ele cita se baseia nos números da própria criança. Por aqui é muito comum que os pais, e até alguns profissionais de saúde, comparem os números de uma criança com os de outras, sem respeitar suas individualidades. Deve-se levar em conta suas características genéticas e até o tamanho dos pais, por exemplo.
Para finalizar, o excesso de peso pode ser o indicativo mais claro de que há algo de errado com a saúde de uma criança, mas certamente não é o único. Uma alimentação desequilibrada da mãe durante a gestação, a falta do leite materno e um desequilíbrio na alimentação do pequeno certamente lhe trarão prejuízos à saúde. Se a criança não tiver predisposição para engordar, estes prejuízos irão se manifestar de outras formas, como inflamações recorrentes de garganta, ouvido ou do sistema respiratório e alterações de humor e concentração, por exemplo. Estes sintomas crescem tanto quanto a obesidade ou mais, a diferença é que não há pesquisas regulares sobre eles. Na dúvida o ideal é cuidar sempre da alimentação, priorizando a comida de verdade e eliminando da lista de compras os ultraprocessados.