É muito difícil falar sobre os malefícios do leite de vaca em uma sociedade como a nossa. Há muitos pontos a serem discutidos e não dá pra esgotar o tema em um único post. Por aqui, este alimento é talvez o mais arraigado na nossa cultura. Muitas pessoas têm resistência em ouvir um ponto de vista diferente do tradicional, mas essa resistência é compreensível, afinal, é difícil imaginar uma dieta sem o leite e seus derivados. Assim como o glúten, o papel dos laticínios na rotina dos brasileiros também mudou muito nas últimas décadas. Hoje eles aparecem entre os ingredientes das preparações ou como coadjuvantes de praticamente todas as refeições feitas no País. Pode reparar, desde cedo estão nas mesas das casas ou nos balcões das padarias compondo as duplas com o café ou o presunto, no almoço dão a base para os molhos que acompanham as saladas ou as massas, o gratinado de batatas ou legumes, as carnes à parmegiana e por aí vai. No lanche da tarde, aparecem em forma de iogurte ou recheio de sanduíches e de noite lotam as coberturas das pizzas ou engrossam sopas ou risotos. A desculpa para este consumo excessivo está nos supostos benefício à saúde, em como o leite é uma ótima fonte de cálcio para o organismo. Este post vai mostrar de diversas formas como essa fama é equivocada.

Para explicar um assunto tão polêmico vou até recorrer à química. O ph do nosso sangue deve ser levemente alcalino, ou seja, básico. O leite de vaca possui três vezes mais proteína do que o leite materno, mas esse excesso de proteína faz com que o sangue fique mais ácido do que deveria. Para que ele volte a ficar equilibrado, um dos recursos que o nosso organismo utiliza é retirar o cálcio de dentro dos nossos ossos, que é onde ele deveria ficar, e o devolver à corrente sanguínea. Isso porque ao lado do magnésio, este mineral ajuda a alcalinizar o sangue.  Quem também tem esta função alcalinizadora e que, portanto, ajuda a manter o cálcio no seu devido lugar são as frutas, verduras e legumes.

Estudos da Organização Mundial da Saúde verificaram que os índices de fratura óssea e de osteoporose são menores em países onde há um menor consumo de cálcio vindo de fontes animais, como o leite de vaca. Isso porque nestes lugares há um grande consumo de outras fontes de cálcio, como legumes, verduras escuras e leguminosas, como feijão, ervilha, lentilha ou grão de bico, que são cada vez menos consumidos por aqui. Esses alimentos têm menos cálcio do que o leite, é verdade, porém, eles são ricos em todos os nutrientes, que trabalham em conjunto com esse importante mineral para que ele seja melhor absorvido e utilizado pelo nosso organismo. Por outro lado, em países como os Estados Unidos, onde há um baixo consumo de frutas, verduras e legumes e onde a média de consumo diário de leite é de cinco copos, a frequência destes tipos de deficiência óssea é a maior do mundo. Infelizmente, o Brasil está indo por este mesmo caminho. De acordo com o IBGE, o nosso consumo atual de vegetais e frutas corresponde a menos de um terço do mínimo recomendado pela OMS, de 400 gramas por dia.

Mais uma vez, é importante pensarmos em garantir uma alimentação equilibrada. Não é preciso banir o leite de nossas vidas, mas com certeza é preciso reduzir o número de vezes em que ele aparece em nossos cardápios. Segundo o Guia Alimentar da Universidade de Harvard, o My Plate, o leite e seus derivados devem ser consumidos, no máximo, duas vezes por semana e em pequenas quantidades. Quando se pensa no cálcio, também é necessário diminuir a ingestão de outras substâncias que aumentam a sua eliminação por meio da urina, como o excesso de sódio, de açúcar, de cafeína, de ácido fosfórico (utilizado para gaseificar as bebidas), de gordura e de proteína de origem animal.  Não me canso de sugerir. Vamos voltar a cultuar a comida de verdade? Vamos observar o que estamos comendo? Vamos repensar os nossos hábitos? Por que não?