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“É inútil forçar os ritmos da vida. A arte de viver consiste em aprender a dar o devido tempo às coisas”, a frase é de Carlo Petrini, criador do Movimento Slow Food. Ele se refere à necessidade de dedicarmos mais tempo à nossa alimentação, desde o preparo até o seu consumo. O Movimento fundado na Itália em 1989, hoje já está presente em 150 países, entre eles, o Brasil e possui mais de cem mil membros. Como o nome já denuncia, nasceu como uma contrapartida à padronização do Fast Food, mas vai muito além disto. Confesso que mesmo falando a mesma língua que eles, eu mal os conhecia e acredito que ainda não seja um movimento muito divulgado por aqui.

O seu principal objetivo é valorizar o prazer da alimentação, não aquele rápido, vazio, momentâneo e cheio de consequências nocivas à saúde como o do consumo dos ultraprocessados ou dos fast foods, mas o prazer de escolher os alimentos que se vai consumir, sabendo de onde eles veem, preparando-os sem pressa e, de preferência, entre amigos ou familiares e enfim o de fazer uma bela refeição, com calma, apreciando o que se está consumindo e com foco no que se está fazendo. É claro que a maioria de nós não consegue fazer isto todos os dias, mas por que não tentar retomar esta deliciosa tradição, aos finais de semana?

O fato de conhecer a origem do que se está comprando é algo muito valioso para o Movimento, que considera os consumidores como co-produtores dos alimentos, pois são eles que financiam a produção deles. Este novo papel nos convida a ficarmos mais atentos ao que estamos financiando. Com o slogan “Alimento bom, limpo e justo para todos”, os seus representantes, consideram que uma refeição de qualidade tem como base alimentos nativos, que não prejudiquem o meio ambiente no seu cultivo, que remunerem dignamente os seus produtores e que não nos tragam substâncias prejudiciais. Portanto eles sempre optam pelos produtos orgânicos. Os membros do Slow Food trabalham para que os co-produtores tenham informações para fazer escolhas de qualidade. Além de palestras de conscientização sobre os seus benefícios, esta Associação Internacional Sem Fins Lucrativos também oferece apoio financeiro a estes produtores. Os recursos vem dos membros que pagam 50 reais por ano para se filiar. E aqueles que ainda trabalham pelo Slow Food, o fazem de forma voluntária. Eles também promovem feiras, eventos e outros meios para unir os produtores de orgânicos aos seus co-produtores. As ações são feitas em parceria com governos locais e com organizações como a FAO, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação. No município de São Paulo, há um trabalho junto à prefeitura para aumentar o número de feiras orgânicas, por exemplo.

É bom esclarecer que apesar de ter consciência sobre a influência nociva da agropecuária ao meio ambiente, a Organização não promove o vegetarianismo, nem o veganismo, ela apenas propõe que se diminua um pouco o consumo das proteínas de origem animal em prol da preservação da natureza. Eu poderia citar aqui diversas vertentes abordadas por este Movimento, mas como ele é muito amplo, selecionei as que mais me identifico para não me estender demais. Eles também defendem a preservação da biodiversidade dos países, em um momento em que há quase uma padronização mundial do que se come. A culinária e os ingredientes típicos e sazonais dos países compõem a sua identidade, além de promoverem uma oferta muita mais variada de nutrientes às populações locais. Por outro lado, o excesso de importação de alguns tipos de produtos pode prejudicar tanto a natureza, quanto a qualidade deste produtos e, consequentemente, a saúde dos que os consomem. Vou dar um exemplo, o salmão que é tão consumido entre os brasileiros nem existe em águas tupiniquins, o que temos aqui são trutas criadas em cativeiro, com um baixo valor nutricional, o ideal seria substituí-lo por peixes nacionais, como a sardinha, por exemplo, que tem muitos nutrientes, mas é pouco valorizada. A maioria das espécies que encontramos congeladas nos supermercados são importadas. No site do Slow Food há uma lista do Greenpeace com uma série de espécies que deveriam ser evitadas pois o seu consumo excessivo está destruindo suas cadeias alimentares, uma delas é o atum, muito encontrado nas casas do nosso País.

Como eles dizem, sua outra importante missão é “promover a educação do gosto”. Para isso realizam um trabalho voltado para as crianças com oficinas sensoriais lúdicas em escolas ou eventos para apresentar a elas os alimentos naturais, um mundo que infelizmente parece cada vez mais distante da realidade dos pequenos. Há também atividades para resgatar o hábito de cozinhar em casa, como o Projeto Chef na Feira, realizado em parceria com a prefeitura da capital paulista e com outras organizações de apoio aos orgânicos. São workshops gratuitos realizados nas feiras de orgânicos para ensinar receitas fáceis, acessíveis, que respeitem a sazonalidade dos alimentos e que os utilize de forma integral. A ideia é fazer com que o ato de cozinhar torne a rotina das pessoas mais prazerosa e a sua saúde melhor.

É mais uma Organização, com milhares de pessoas espalhadas pelo mundo que defendem o mesmo que eu. Vamos voltar a nos alimentar de forma natural, consciente, responsável e prazerosa.