No post da semana passada falei sobre a acordo entre o Ministério da Saúde e a indústria alimentícia para reduzir os índices de açúcar dos ultraprocessados. A conclusão do texto foi de que ele é ineficiente para reduzir os problemas de saúde relacionados ao consumo excessivo destes produtos. Uma das ações que estão sendo discutidas para melhorar o hábito alimentar dos brasileiros é a nova rotulagem nutricional, que ainda este ano será discutida em uma consulta pública aberta pela Agência de Vigilância Sanitária. No momento, as novas normas de rotulagem estão passando por uma revisão na Anvisa.

 

A Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, rede de organizações e de especialistas, defende a adoção de uma rotulagem nutricional frontal de advertência, baseado no exemplo bem sucedido do Chile. A Aliança encabeça a Campanha  “Você tem o direito de saber o que come”, que convoca o público a cobrar a Anvisa a necessidade de aprovação das regras. Desde 2016, no Chile, os produtos processados e ultraprocessados disponíveis nas prateleiras dos supermercados passaram a exibir alertas na forma de um octógono preto na parte da frente das embalagens que sinalizam quantidades excessivas de nutrientes prejudiciais para a saúde, como sódio, açúcar e gordura.

 

Um estudo divulgado pela Universidade do Chile, elaborado em parceria com a Universidade Diego Portales (Chile) e com a Universidade da Carolina no Norte (Estados Unidos), concluiu que após a adoção das advertências houve uma melhora nos hábitos alimentares da população chilena, pois os consumidores passaram a entender melhor a qualidade nutricional dos alimentos ultraprocessados. O levantamento ouviu mães de crianças pequenas e adolescentes, e mais de 90% deles disseram valorizar a presença dos selos nos alimentos e entendem o significado da advertência. Cerca de 50% das mães e 40% dos adolescentes disseram fazer uso dessa informação quando querem saber se um alimento é ou não é saudável.

 

Também foi notada uma grande diminuição na compra de produtos considerados ‘altos em açúcar’, como o caso de bebidas adoçadas e cereais matinais. A compra das bebidas caiu 25% e a dos cereais, 14%. Como os alimentos que exibem a advertência em seus rótulos frontais têm restringida a sua publicidade direcionada ao público infanto-juvenil, os pesquisadores identificaram que a exposição a propagandas televisivas de alimentos altos em nutrientes críticos diminuiu consideravelmente entre as crianças (-46%) e os adolescentes (-62%). Por fim, foi detectada uma diminuição na média de sódio e açúcar dos alimentos ultraprocessados. Com base na comparação da informação nutricional declarada nas embalagens de mais 10 mil produtos disponíveis nos supermercados, antes e depois da implementação da lei, foi possível observar uma queda de 20% a 35% na quantidade de açúcar de bebidas adoçadas, lácteos e cereais matinais de maior consumo entre os chilenos. Entre os queijos e embutidos, a queda ficou entre 5% e 10% tanto de açúcar como de sódio.

 

A Abia, Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação, reagiu às possíveis mudanças com um estudo que prevê uma retração de 10% no consumo interno brasileiro porque os brasileiros não ficariam satisfeitos com as mudanças implementadas nos rótulos. Porém um parecer técnico do Idec aponta falhas na conclusão. Segundo o Instituto, o impacto econômico estimado está baseado em uma pesquisa Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião e Estatística), realizada em 2017, que não é representativa da população brasileira. Uma análise cuidadosa evidencia que a proporção de indivíduos nas distintas faixas etárias, nos níveis de escolaridade e na condição de municípios estão diferentes quando a pesquisa Ibope é comparada com dados da Pnad (Pesquisa Nacional realizada pelo IBGE).

 

Ainda de acordo com o Idec, o que a indústria também parece ignorar é que o modelo de advertências estimula a reformulação de produtos não saudáveis para que deixem de exibir o selo de alerta para a presença em excesso de sódio, açúcar e gorduras. Esse também é um movimento que tem sido observado no Chile. Se levada em conta a possibilidade de reformulação, o impacto no consumo e, consequentemente, na produção da indústria de alimentos seria bem menor. Segundo a nutricionista da entidade, Ana Paula Bortoletto: “A experiência de outros países indica que o mercado consegue se adaptar de forma fácil com medidas mais restritivas do que a que estamos propondo no Brasil”. Por fim, alertam os economistas, impactos positivos potenciais devem ser considerados. Reduzir o consumo de nutrientes críticos, por exemplo, traz ganhos sobretudo para a saúde e o bem-estar geral da população. Obesidade, diabetes, problemas do coração e câncer estão entre as doenças mais comuns ligadas ao consumo excessivo de produtos ultraprocessados.


Para mais informações, acesse o site da campanha Direito de Saber.