leite

É cada vez mais comum nos depararmos com leites e produtos lácteos ‘sem lactose’ nos supermercados e nos anúncios de televisão do País. Agora apareceram também os remédios para intolerância à lactose, o açúcar do leite de vaca, nas farmácias e claro, nos anúncios de televisão. Existe até uma linha inteira de produtos deste tipo destinada às crianças, que inclui, entre outros ítens, leite condensado, doce de leite e achocolatado. A impressão que temos é que a lactose é a grande causadora dos malefícios atribuídos aos seus produtos de origem. Também dá a entender que, portanto, apenas aquela pequena parcela de pessoas que, de fato, têm uma intolerância severa à lactose é que deveriam se preocupar em retirar os laticínios da rotina alimentar. Mas não é bem assim. Infelizmente, essa ideia errônea, fruto de um marketing muito bem trabalhado, já chegou também aos consultórios de pediatras e nutricionistas.

 

Quando me refiro a uma intolerância severa, é a de um grupo de pessoas que chegam a ter diarreia quando consomem o leite. O que praticamente todo o restante dos adultos brasileiros têm é uma drástica redução de uma enzina chamada lactase,  que é responsável por fazer a digestão da lactose. Esta redução acontece porque a natureza entende que os mamíferos só precisam do leite na fase da amamentação e depois dos três anos este consumo não seria mais necessário, portanto, também não precisaríamos produzir substâncias para digeri-lo. Mesmo assim, conseguimos tolerar uma quantidade pequena de lactose, se consumida esporadicamente. O problema é que os brasileiros têm consumido com frequência e em excesso todo tipo de leite e seus derivados. A fermentação da lactose não digerida no intestino gera desconforto, gases, cólica e a diarreia nos casos mais graves, como eu já disse. Esta fermentação também produz substâncias que podem irritar as paredes do intestino, isso diminui a capacidade deste órgão tão importante de eliminar o que deve ser eliminado, como metais tóxicos, toxinas ou possíveis alergenos.  

 

Então basta consumir os produtos isentos de lactose para acabar com os efeitos nocivos do leite no nosso organismo? De jeito nenhum. Apenas o desconforto abdominal pode diminuir, mas isso faz com que os intolerantes voltem a consumir os produtos que geraram os sintomas ou passem a consumir ainda mais e então todos os outros efeitos negativos causados pelo leite só tendem a piorar. A principal fonte de alergias vindas do leite não é a lactose, é a uma de suas proteínas, a betalactoglobulina. Esta substância é a que mais diferencia os leites das diferentes espécies. A lactose do leite de vaca, por exemplo, é igual a produzida pelo materno, já esta proteína é inexistente no leite da nossa espécie, é por isso que não temos uma enzima equivalente para digeri-la. Eu falei sobre ela em um post há muitos meses, então vou retomar algumas informações. Esta proteína não digerida costuma gerar um processo inflamatório no organismo, que dependendo da predisposição genética das pessoas, pode resultar em sintomas em diferentes órgãos, como: rinite, sinusite, amidalite, otite, problemas de pele, resistência à insulina e aumento de peso, ansiedade e até depressão, entre tantos outros, que quase nunca são associados ao leite de vaca, porque são reações tardias, diferentemente das alergias, os seus efeitos não aparecem logo após o consumo do ítem que provocou a reação.

 

Se você for fazer um exame laboratorial para saber se tem intolerância à lactose provavelmente ele dará positivo. Isto acontece porque durante os exames, os pacientes recebem altas doses de lactose e nenhum de nós tem como digeri-las corretamente. Para os consumidores dos produtos ditos ‘sem lactose’ vale alertar que embora estes termos apareçam destacados nos rótulos dos alimentos, a substância não é retirada deles, o que se faz é introduzir neles a enzima responsável pela sua quebra, a lactase. Pode até ser que o resultado seja o mesmo, mas os dizeres são falsos. Parece que é a falta de conhecimento que faz com que a indústria alimentícia apresente os produtos isentos de lactose como a solução para os sintomas causados pelo leite, mas não é. Prova disto é que no início da década de 80 a maior empresa de leite do País já havia lançado a versão ‘hipoalergênica’ de seu leite em pó. Nesta versão a betalactoglobulina é retirada. Ou seja, mesmo sabendo deste potencial alergênico, a empresa segue com uma linha interminável de fórmulas para bebês e produtos para crianças e adultos que, quase sempre, giram em torno do leite. Se o consumo frequente e excessivo do leite de vaca é prejudicial para os adultos, seus efeitos são ainda piores quando se trata dos bebês e das crianças. E atualmente os produtos infantis são os que têm mais variedade de opções ‘sem lactose’.

 

Mais uma vez vou falar sobre a importância de se ter hábitos alimentares balanceados com alto consumo de frutas, verduras, legumes e cereais integrais e baixo consumo de produtos ultraprocessados. Isso vai fazer com que a sua microbiota intestinal fique saudável, dessa forma o seu intestino vai ser um produtor natural de lactase, assim como produz outras enzimas importantes. O que não tem mesmo solução é a nossa incompatibilidade com as proteínas do leite. A quantidade de lactase disponível no organismo também pode variar em função do ambiente onde as pessoa vivem e dos alimentos disponíveis para esta população. Segundo um artigo publicado pelo site francês de saúde e nutrição, Jolivi, assinado pelo pesquisador Eric Müller, os povos nórdicos, que têm pouco acesso às proteínas de origem animal, permanecem com uma taxa mais elevada de lactase. Por isso, conseguem consumir mais leite de vaca. Ao mesmo tempo, estas pessoas são mais afetadas pela osteoporose e pelo diabetes tipo 1, uma doença auto-imune, que tem entre as causas o alto consumo do alimento – na semana que vem voltarei a falar sobre a hipersensibilidade ao leite e vou explicar a relação dela com a osteoporose e com a diabetes. Já entre os povos da África, que têm mais acesso às proteínas animais e da Ásia, que consomem muitos peixes e  derivados da soja, até 80% da população é intolerante à lactose, pois não precisam variar as fontes proteicas. Estes povos manifestam taxas muito mais baixas de problemas inflamatórios ou de doenças crônicas não-transmissíveis do que nós, que mantemos uma rotina alimentar mais parecida com a dos norte-americanos.