No mês em que se comemora o Dia das Crianças e o Dia Mundial da Alimentação é necessário refletir sobre o que as nossas crianças estão comendo. O UNICEF divulgou recentemente um relatório mundial com dados alarmantes: uma em cada três crianças, com menos de 5 anos, está desnutrida ou com sobrepeso no mundo, ao todo são cerca de 250 milhões. No Brasil, o aumento do sobrepeso chama a atenção: Uma em cada três crianças de 5 a 9 anos está acima do peso, entre os adolescentes, 17,1% estão com sobrepeso e 8,4% são obesos.

 

O relatório Situação Mundial da Infância 2019: Crianças, Alimentação e Nutrição,  (The State of the World’s Children 2019: Children, Food and Nutrition), aponta que: quase duas em cada três crianças entre 6 meses e 2 anos de idade não recebem alimentos capazes de sustentar o crescimento rápido de seu corpo e de seu cérebro, o que coloca em risco o desenvolvimento cerebral delas e as deixa sujeitas a dificuldades de aprendizagem, baixa imunidade, aumento de infecções e, em muitos casos, até a morte. 

 

O relatório alerta que as práticas alimentares de baixa qualidade podem começar desde os primeiros dias de vida. A recomendação da OMS de que as mães devem alimentar seus bebês até o sexto mês de vida exclusivamente com o leite materno, é seguida por apenas 42% delas, por exemplo. E um número crescente de bebês  recebe fórmula infantil, as vendas do produto à base de leite de vaca cresceram 72% entre 2008 e 2013 em países de renda média-alta, como Brasil, China e Turquia. A introdução alimentar, que deve ser feita a partir dos 6 meses, também tem sido inadequada. Em todo o mundo, quase 45% das crianças entre 6 meses e 2 anos de idade não são alimentadas com frutas ou vegetais, essenciais para o seu desenvolvimento.

 

O documento também aponta que, à medida que as crianças crescem, sua exposição a alimentos não saudáveis, como salgadinhos, bolacha recheada, refrigerante, doces e fast food, se torna frequente, excessiva e preocupante.De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância, essa alta exposição, assim com o aumento do consumo das fórmulas infantis, é impulsionada pelo marketing e pela publicidade inadequados, pela oferta abundante de alimentos ultraprocessados nas cidades e nas áreas remotas, pelo aumento do acesso a fast-food e bebidas altamente açucaradas e por políticas e programas fracos para proteger, promover e apoiar a amamentação e a alimentação saudável na infância. De acordo com a representante do UNICEF no Brasil, Florence Bauer: “No Brasil, como na maioria dos países da América Latina e do Caribe, crianças e adolescentes estão comendo muito pouca comida saudável, por causa disso, hoje há uma tripla carga de doenças, em que desnutrição, anemia e falta de vitamina A coexistem com o sobrepeso e a obesidade, associados a doenças crônicas não transmissíveis”

 

No mundo todo 40 milhões de crianças estão acima do peso ou obesas e, apesar da Política Nacional de Alimentação Escolar, a escola ainda é considerada um ambiente obesogênico, com lanches de baixo teor de nutrientes e alto teor de açúcar, gordura e sódio. O relatório mostra, por exemplo, que 42% dos adolescentes em idade escolar em países de baixa e média renda consomem refrigerantes com açúcar pelo menos uma vez por dia e 46% comem fast-food pelo menos uma vez por semana. Essas taxas sobem para 62% e 49%, respectivamente, para adolescentes em países de renda alta. Como resultado, os níveis de sobrepeso e obesidade na infância e adolescência estão aumentando em todo o mundo. De 2000 a 2016, a proporção de crianças e adolescentes com excesso de peso entre 5 e 19 anos praticamente dobrou, passando de um em dez para quase um em cinco. Dez vezes mais meninas e 12 vezes mais meninos nessa faixa etária sofrem de obesidade hoje quando comparados a 1975.

 

“Estamos perdendo terreno na luta pela alimentação saudável”, disse Henrietta Fore, diretora executiva do UNICEF: “Essa não é uma batalha que podemos vencer por nós mesmos. Precisamos que os governos, o setor privado e a sociedade civil priorizem a nutrição infantil e trabalhem juntos para abordar as causas de uma alimentação não saudável em todas as suas formas. Temos de capacitar crianças, adolescentes e suas famílias para que exijam alimentos saudáveis”. Para reverter esse cenário, o UNICEF apoia ações para a prevenção do sobrepeso e da obesidade, como: incentivo ao aleitamento materno; regulação do marketing para crianças; melhoria na rotulagem nutricional; promoção da alimentação saudável nas escolas; entre outras.