Em visita ao Brasil para o lançamento do seu livro “Uma verdade indigesta – como a  indústria alimentícia manipula a ciência do que comemos”, a pesquisadora e professora do Departamento de Nutrição e Estudos da Alimentação, da Universidade de Nova York, Marion Nestle, expôs as razões que a levaram a publicar este trabalho. Fruto da sua incansável luta, de mais de 50 anos, pelo direito do consumidor receber informações verdadeiras e seguras da indústria de alimentos, talvez a obra seja o ato mais desafiador de sua carreira até agora.

 

Sua pesquisa se concentrou nas “influências científicas, econômicas e sociais que atuam sobre a escolha dos alimentos – e como estas decisões agem no desenvolvimento da obesidade-, com ênfase no papel do marketing de alimentos”. Marion já escreveu livros premiados sobre política de alimentos, indústria de refrigerantes, segurança alimentar e sobre o que realmente deveríamos estar comendo. Suas numerosas publicações destacam a influência de multinacionais do ramo da alimentação, com atuação em diversos países, incluindo o Brasil, sobre a criação ou a sobre a exclusão de algumas políticas públicas das nações, conforme os seus interesses, e o impacto destas ações na saúde da população. De acordo com Marion: “a disseminação de alimentos não-saudáveis, com o aval de estudos científicos patrocinados pela indústria alimentícia tem como resultado um sistema alimentar disfuncional”.

 

O livro detalha o financiamento que muitos pesquisadores da área de nutrição recebem da indústria alimentícia, que, segundo a autora, culminam em resultados antiéticos que tornam ainda mais rara a prática dos princípios básicos de uma alimentação segura e saudável, que as pessoas deveriam adotar para ter uma vida com menos doenças e mais vitalidade. Os resultados dos estudos científicos, encomendados e financiados por uma variedade de grandes empresas de alimentos, tornam-se estratégias de marketing das marcas. Estes mecanismos fazem com que os consumidores sejam enganados e exposto desnecessariamente a doenças, que já se tornaram questões de saúde pública, como: obesidade e doenças crônicas não transmissíveis. “O objetivo ao escrever este livro foi responder a uma pergunta básica: “A indústria de alimentos, bebidas e suplementos nutricionais deve financiar pesquisas em saúde pública?”. A resposta é não.

 

Por meio de sua investigação sobre como o dinheiro flui de empresas e grupos comerciais para laboratórios de pesquisa, o livro mostra quão difundido é o problema  e porque ele está distorcendo a forma como pensamos sobre saúde. Marion Nestlé cita a indústria de ultraprocessados, como a de refrigerantes, que gasta milhões em pesquisas e ações governamentais para minimizar os efeitos adversos que seus produtos podem causar à saúde de seus consumidores, por conta do excesso de açúcar, por exemplo. Segundo a pesquisadora, estas empresas adotam algumas táticas para encobrir os danos de seus produtos, como: fundar centros de pesquisa favoráveis aos seus interesses; desviar a atenção do consumidor dos seus hábitos alimentares para a necessidade de se praticar exercícios físicos ou tentar conquistar alguns pesquisadores, que não estejam ligados a nenhum órgão, para representar seus produtos.

 

Nos últimos anos, alimentos ultraprocessados têm sido comercializados como “opções saudáveis” para a família. De acordo com o livro, a conexão entre a publicidade de alimentos não nutritivos e a obesidade infantil já foi comprovada, e é mais um indício de que o consumidor é vulnerável a desinformação na hora de fazer suas escolhas alimentares. Nos Estados Unidos a doença já se tornou um dos maiores riscos para a saúde de adultos e crianças. Vale lembrar, por exemplo que a obesidade infantil é o primeiro passo para o desenvolvimento de doenças que até então só atingiam adultos, como: diabetes, doenças cardiovasculares e até algumas formas de câncer. 

 

Apesar do cenário pessimista, parece que há luz no fim do túnel. Marion Nestlé aponta que algumas grandes empresas de alimentos começaram a  financiar estudos com diretrizes éticas e regras de integridade. Mesmo assim, de acordo com a pesquisadora, a vigilância do consumidor é necessária para evitar que ele seja enganado ao decidir o que irá comer e a sociedade tem a responsabilidade final de contestar alegações de marketing inaceitáveis. De acordo com a especialista, os consumidores devem pressionar parlamentares , agências reguladoras governamentais e universidades para que atuem na defesa de seus interesses.