O governo federal anunciou recentemente que irá distribuir soluções nutricionais à base de soja; de proteína extensamente hidrolisada de leite de vaca com ou sem lactose; e de aminoácidos para cerca de 38,5 mil crianças com até 2 anos, que tenham APLV, ou seja alergia imediata ao leite de vaca. O pedido foi feito pelo Ministério da Saúde, que recomenda a fórmula derivada da soja, como primeira opção para crianças de 6 a 24 meses com a doença. O que pouca gente sabe é que a alergia à proteína do leite de soja é tão comum quanto a alergia à proteína do leite de vaca, embora seja menos divulgada.

 

A Sociedade Brasileira de Pediatria e a Sociedade Brasileira de Imunologia recomendam que nos seis primeiros meses de vida das crianças, elas não entrem em contato com o leite de vaca, nem com o leite de soja. De acordo com a nutricionista Denise Madi, autora do livro ‘Alimentação: Problema e Solução para Doenças Crônicas’: “O ideal é que a restrição do consumo frequente destas substâncias seja permanente, pois elas são estranhas à todos nós e o seu consumo regular pode nos causar processos inflamatórios crônicos em todos as fases da vida. A diferença é que durante a primeira infância estamos mais vulneráveis a eles”.

 

Segundo a nutricionista, a causa da APLV é a mesma da alergia à proteína da soja: a fragilidade do intestino nos primeiros anos de vida “os bebês ainda não têm os processos de digestão e absorção preparados para lidar com proteínas heterólogas, ou seja, não naturais ao organismo. A nossa principal defesa é a integridade da parede intestinal, que seleciona o que pode ou não ser absorvido, mas nos primeiros seis anos de vida, esse “filtro” não funciona da mesma forma pois a permeabilidade do intestino é maior, para que o bebê absorva integralmente as macromoléculas proteicas vindas do leite materno, como as células imunológicas (de defesa) e os fatores de crescimento, necessários para completar a sua formação fisiológica e funcional. O contato dos pequenos com as proteínas alergênicas pode ser pelo consumo direto ou por meio da amamentação, quando eles fazem parte da rotina alimentar da mãe, e nos dois casos, as proteínas mal digeridas são absorvidas diretamente e irão acionar mecanismos de defesa do organismo, podendo causar tanto as alergias imediatas, que é o caso da APLV, quanto as hipersensibilidades tardias, que são as mais comuns. Seus sintomas são bastante variados, como problemas respiratórios, digestivos, dermatológicos e neurocomportamentais, entre tantos outros, por isso o diagnóstico é mais confuso.

 

Outro fator importante associado ao consumo excessivo da soja  é a presença de fitohormonios femininos na sua composição. De acordo com a nutricionista: “Se considerarmos um bebê de seis meses que irá se alimentar apenas do leite de soja, o volume ingerido será muito grande, com uma média de seis ou sete mamadeiras por dia. A alta carga de hormônios presente no grão, aliada a um consumo diário alto pode levar  a sérios desequilíbrios, pode interferir no desenvolvimento das crianças, por exemplo, antecipando a menarca, – a primeira menstruação das meninas – ou diminuindo os índices de testosterona dos meninos”, alerta. A soja também contém substâncias que podem inibir a recaptação de iodo pela tireóide, o que poderá ser prejudicial para o órgão a longo prazo. Se houver predisposição genética para hipotiroidismo, o consumo rotineiro do alimento poderá provocar a doença. Nos países orientais, há sim um alto consumo de soja, mas há também um grande consumo de algas, que são ricas em iodo e portanto protegem contra este efeito.

 

Quando a soja é consumida na sua forma coagulada (tofu) ou fermentada (missô, natô, shoyu), passa a ter os fatores chamados de ‘antinutricionais’ bastante reduzidos. Eles estão presentes em alta quantidade no grão, mas durante o processo de fabricação destes derivados é feita uma ‘digestão parcial’ das proteínas, diminuindo o potencial alergênico do alimento. O que não acontece durante a fabricação do leite, do suco ou da carne de soja. O consumo rotineiro desses alimentos, portanto, ainda pode gerar distúrbios digestivos, como: formação de gases, sensação de estufamento, alterações intestinais e processos inflamatórios no intestino ou ainda desencadear inflamações em outros órgãos, dependendo da predisposição genética de quem a estiver consumindo. Assim como o leite de vaca, a hipersensibilidade à soja pode estar por trás de sintomas muito comuns como sinusite, rinite, otite, dermatite. E esta relação dificilmente será identificada, muito menos tratada. O mais comum é controlar um sintoma de cada vez. Resolvido um problema, logo aparecerá outro, porque a causa permanecerá inalterada.

 

As crianças diagnosticadas com APLV costumam ter o leite de vaca retirado completamente da rotina alimentar. Nesses casos o ideal é procurar um nutricionista para receber a orientação correta de como substituí-lo. Passado o período necessário de afastamento, após análise médica individual, a maioria das famílias reintroduz o leite aos poucos até que ele volte a fazer parte da alimentação da criança. Porém, ao voltar a ter contato com as suas proteínas, os pequenos organismos logo poderão apresentar sintomas de hipersensibilidade tardia, que dificilmente serão corretamente associados ao seu verdadeiro agente causador. O ideal é aproveitar que o pequeno já está sem ele para introduzir outros alimentos. Ele pode ser substituído, por exemplo,  por leites vegetais como os de: arroz, inhame, coco, aveia, quinoa, ou oleaginosas como a amêndoa. Além disso,uma alimentação completa e variada, com carnes, verduras, legumes, frutas, leguminosas e cereais integrais, por exemplo, oferece todos os nutrientes que o organismo necessita, inclusive o cálcio, e as condições para que todos eles sejam bem absorvidos e utilizados. Não há, portanto, necessidade nenhuma de voltar a consumir o leite de vaca frequentemente.