Aposto que você já ouviu o termo Low Carb, certo? A ideia tem sido cada vez mais usada por quem pretende emagrecer ou manter os números da balança estáveis. Assim como outras dietas restritivas, esta sugere que se retire da rotina alimentar todos os tipos de carboidratos. Pode até ser que ela cumpra com o papel de redução de peso, mas certamente não será um emagrecimento saudável, nem duradouro.

 

O nosso organismo precisa de representantes de todos os grupos alimentares para funcionar. Os carboidratos são uma fonte de energia essencial. Os defensores do Low Carb alegam que quando os excluímos, o organismo passa a usar a gordura como fonte de energia, que é o que se busca reduzir. Mas não é o que acontece. Na ausência do carboidrato, o organismo tende a reter a gordura, para servir de fonte de energia em uma situação futura de muita necessidade, e utiliza os nossos músculos, gerando perda da massa muscular. A gordura só é utilizada (e mesmo assim em proporções muito menores do que a proteína) quando passam a se formar os corpos cetônicos. Essa é a ideia da dieta cetogênica, que também desequilibra o organismo.

 

Consumir menos de 150 gramas de carboidrato por dia faz com que o organismo tenha que utilizar a proteína para dar energia para o cérebro funcionar, esse órgão não estoca energia e precisa que ela seja reposta a cada 3 horas, em média. As proteínas que servirão como fonte de energia deixarão de exercer algumas funções muito importantes como formar neurotransmissores, enzimas digestivas, hormônios, células de defesa toda a nossa parte estrutural, pele, cabelo, unhas, ossos, cartilagens. A curto prazo o organismo consegue se adaptar à falta da proteína, mas a médio e longo prazos torna-se insustentável e todas esses elementos são danificados, gerando entre outros sintomas: unhas fracas, queda de cabelo, flacidez muscular, ossos fracos, má digestão, irritabilidade, ansiedade, depressão. O mais grave é o enfraquecimento do sistema imunológico, que em casos extremos (para quem tem predisposição genética) pode causar sérias doenças autoimunes como lúpus ou até alguns tipos de câncer. O sistema nervoso central também pode ser prejudicado e causar doenças como o alzheimer.

 

É comum que as pessoas aumentem muito o consumo de proteínas enquanto estão fazendo alguma restrição de carboidratos e, novamente, estão colocando o organismo em risco. Pra começar, o excesso de proteína acidifica o ph sanguíneo, que deveria ser mais alcalinizado. O sangue acidificado está entre as causas de muitas doenças, como alguns tipos de câncer. Para se reequilibrar, o organismo retira o cálcio dos ossos, o que pode

resultar em osteoporose. Além disso, temos um limite diário da quantidade de proteínas que conseguimos digerir e absorver, quando ultrapassamos essa quantia, podemos sobrecarregar e comprometer o fígado e os rins. O que não for digerido servirá de alimento para fungos e más bactérias do intestino, que produzem toxinas, que poderão causar resistência à insulina e doenças como diabetes, obesidade, acidente vascular cerebral e até problemas cardíacos. Pra piorar, a falta dos carboidratos acaba com o muco protetor do intestino, que serve de alimento para as boas bactérias, que iriam nos proteger.

 

Precisamos consumir alguma fonte de carboidrato pelo menos nas três principais refeições do dia e, de preferência, nas intermediárias também. Isso porque são eles que dão energia para o nosso cérebro funcionar. Mas há representantes bons e ruins deste grupo. Então que tal trocar o Low Carb pelo Safe Carb (carboidrato seguro)? O segredo está em escolher melhor as suas fontes. A maior parte das que são consumidas atualmente pelos brasileiros vem dos produtos ultraprocessados (macarrão instantâneo, bolacha recheada, pães de forma, bolos) que são feitos com farinhas refinadas, como a de trigo, que tem um índice glicêmico maior do que o do açúcar, o que é ruim para a nossa saúde. Além disso, esse consumo está associado ao de substâncias como açúcar, sódio, gorduras e aditivos químicos, alguns com a função de nos dar mais vontade de comer. A digestão deste tipo de carboidrato é muita rápida, o que faz com que a gente sinta fome pouco tempo depois de consumi-lo.

 

Quando falamos em reduzir o consumo da farinha de trigo e dos alimentos feitos com ela, muita gente entende como uma postura ‘radical’. Porém, a proposta é oposta a isso, o ideal é variarmos bastante as nossas fontes de carboidrato, dando prioridade para os mais complexos, como as farinhas feitas com arroz, a fécula de batata, os polvilhos que vem da mandioca e os próprios alimentos naturais, o arroz integral, as raízes como a batata, a batata doce e a mandioca. Estas opções nos deixam mais saciados porque têm mais fibras e nutrientes, que ajudam a fazer com que eles sejam absorvidos mais lentamente e sem que causem picos de glicose no sangue, o que facilita o acúmulo de gordura.

 

Outro grande erro de quem segue o conceito Low Carb é retirar as frutas da rotina alimentar. Elas têm sim pequenos percentuais de carboidrato, de gordura, de proteína, que variam entre as centenas de espécies que temos por aqui, mas todas pertencem a um grupo alimentar chamado de reguladores. Este nome é dado porque o que elas mais têm são vitaminas, minerais, fibras, enzimas digestivas e compostos bioativos. Juntas estas substâncias têm funções importantes para o nosso organismo, pois executam naturalmente ações antioxidantes, anti-inflamatórias, desintoxicantes, anti-cancerígenas e, entre outros poderes, ainda ajudam a regular o nosso sistema imunológico. São imprescindíveis para a nossa saúde.

 

O mais importante é equilibrar o consumo de todos os grupos alimentares, para que haja uma melhor utilização de cada um deles. A quantidade de carboidrato que devemos ingerir é totalmente individualizada, pois varia de acordo com muito fatores, como: sexo, idade, prática de atividade física e composição corporal, entre outros. Mas quando a refeição tiver elementos de todos os grupos alimentares, dificilmente terá excesso de algum deles. O consumo dos carboidratos seguros também pode ser associado ao de alimentos como verduras, frutas e cereais integrais, como flocos de quinoa, de aveia ou de linhaça, por exemplo. Eles também fazem com que a absorção do que é ingerido seja mais lenta, evitando o aumento rápido da glicose no sangue, que também nos é prejudicial.

 

A conversa que serviu de base para esse texto está na íntegra no vídeo abaixo.