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A internet está cheia de extremos, a moda do momento é optar por apenas um lado e passar a defendê-lo com unhas e dentes, doa a quem doer. Vale para política, religião, futebol e alimentação. A discussão mais recente em torno do meu assunto preferido polariza a ideia de ter os alimentos como fonte de prazer ou de tê-los como inimigos, processo que tem sido chamado de ‘medicalização’ dos alimentos. Parece que só há dois extremos, ou você vive só de ultraprocessados, que certamente lhe darão uma sensação de prazer, ou passa a consumir apenas substâncias que possam lhe trazer algum benefício, ainda que sejam bem intragáveis, como ovo cru, por exemplo. Ambas são igualmente extremas.

 

Aprendi com a minha família que uma comida de verdade, caseira, bem temperada e preparada com dedicação e afeto certamente será prazerosa. Mas não é isso que tem se falado sobre comer com prazer. Nas últimas décadas, a indústria alimentícia tem se dedicado com afinco a relacionar o prazer aos alimentos ultraprocessados, como fast food, bolachas recheadas, salgadinhos, refrigerantes e doces, entre tantos outros. Essa dedicação norteia desde às suas fórmulas cheias de aditivos químicos, que provocam boas sensações e nos causam uma certa dependência, até a publicidade. As propagandas dos produtos já não tratam mais do que eles são, falam apenas das emoções que eles podem proporcionar: “abrimos a felicidade”, “é tão bom quanto o amor de mãe” ou “uma aventura radical”.

 

É bom lembrar que uma alimentação baseada em ultraprocessados, como tem acontecido com cada vez mais frequência, principalmente entre os pequenos, trará sérias consequências de saúde a curto, médio e longo prazo. Então, que felicidade é esta que estamos oferecendo aos nossos filhos quando eles nos pedem um refrigerante, um iogurte colorido ou um biscoito que promete a eles “uma aventura radical”’? Será que quando negamos esses produtos os deixamos infelizes? Não podemos lhes oferecer uma aventura radical real com uma brincadeira ao ar livre? Em uma escala de felicidade, o fato de termos filhos saudáveis não se sobrepõe a um choro ou a uma birra por ter tal produto ou “prazer” negado?

 

Parece que atualmente a comida tem sido vista como a única fonte de prazer de milhares de pessoas. Por que não transferir este papel para outras atividades como brincadeiras, leitura, dança ou encontros com amigos?  Além disso, o nível de prazer proporcionado não deve ser o único critério na escolha por um alimento. Assim como o álcool, o cigarro, o consumo, o jogo  e as drogas ilícitas podem proporcionar um prazer inicial, que vêm acompanhados de consequências nocivas, o mesmo pode acontecer com uma alimentação desequilibrada.

 

Quem discorda disso é taxado como ‘radical’, ‘chato’, ‘natureba’, ‘neurótico’ e agora tem sido apontado por ‘medicalizar a alimentação’, como se o nosso café da manhã fosse composto apenas por duas claras de ovo com óleo de coco e canela. Desse jeito fica fácil criar extremos. Para as acaloradas discussões e principalmente para a indústria alimentícia não é interessante que haja uma gradação, apenas dois pólos bem distantes. A comida como remédio ou como fonte de prazer. Assim somos levados a escolher um lado. Se optarmos pelo prazer, não faltará produtos que nos ofereçam emoções em todas as refeições. Se preferirmos a ‘medicalização’ teremos inúmero ‘shakes’, e alimentos vendidos como ‘funcionais’. Na minha opinião, ao optarmos por um dos extremos estaremos servindo a um ou outro segmento industrial que encomenda artigos científicos para justificar a oferta de seus produtos. Essa é uma discussão longa e profunda que não cabe em um post, muito menos nos rasos 140 caracteres do Twitter, mas que deve ser feita.

 

Vou dar um exemplo do que seria a ‘coluna do meio’. Substituo frequentemente a farinha de trigo pela fécula de batata na hora de fazer um bolo, muitas vezes usamos sim o óleo de coco para agregar mais valor nutricional ao que vamos comer. Eu coloco até flocos de amaranto nos pães e bolos que faço em casa. São alimentos gostosos, muito nutritivos e feitos com carinho. Tenho muito prazer em comer, não como nada que me desagrade pensando nos possíveis benefícios que receberei. Tenho a sorte de ter muito conhecimento à minha disposição para aliar saúde, sobretudo a prevenção de doenças, ao prazer, à afetividade, à tradição familiar, à reunião de pessoas e à tudo que a boa comida proporciona. Definitivamente não estamos medicalizando a nossa alimentação e não somos dignos de pena, nem eu, as milhões de pessoas em todo mundo que já perceberam a influência dos alimentos na nossa qualidade de vida. Apenas estamos utilizando a comida a nosso favor e deixando de consumir aquilo que nos adoece. Nos preocupamos com o que vamos ou não comer porque sabemos que a comida é a única matéria prima do nosso organismo e é determinante para prevenir ou gerar doenças.

 

Devemos estar atentos para resgatar ou mesmo descobrir valores intrínsecos de bom senso que norteava a alimentação dos nossos avós e bisavós, que utilizavam produtos naturais, da estação, para preparar pratos gostosos, mas que não eram vistos como a sua única fonte de prazer. O prazer verdadeiro estava em volta da mesa, no carinho que tiveram para preparar aquele prato com ingredientes que também sejam fontes de saúde. Comida de verdade não é remédio, mas evita o uso de remédios de verdade.