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Se você acompanhou a transmissão dos Jogos Olímpicos pela televisão, pelos canais abertos ou fechados, certamente assistiu a dezenas de comerciais do fast food que se dizia o “restaurante oficial do evento”. O nosso refrigerante mais famoso passou várias mensagens de superação em suas peças publicitárias e associou o consumo da bebida aos ‘vencedores’. Já o achocolatado mais consumido do País oferecia “Energia para crescer com o esporte”. Antes do evento descobri também por uma propaganda de tv, que a melhor forma de dar carinho para o meu filho era oferecendo pra ele bolinhos prontos recheados e outros produtos cheios de gordura trans, açúcar, sódio e aditivos químicos. Agora, uma grande campanha transforma produtos ultraprocessados em desenhos animados, com uma ótima trilha sonora e cumpre bem o seu papel de atrair a atenção dos pequenos.

Já falei aqui sobre os abusos do mercado publicitário de alimentos infantis. Mas o assunto voltou a tona pois até o início deste mês vários eventos, reais e virtuais, trataram do tema da Alimentação Infantil. Esta sensação de que os anúncios são um dos responsáveis pelos maus hábitos das nossas crianças não é só minha. Conversei sobre isso com o pediatra, Flávio Melo, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria e autor do blog Pediatra do Futuro, segundo ele, “no consultório temos tido uma grande dificuldade de convencer as mães a evitarem a exposição precoce dos filhos aos alimentos ‘obesogênicos’ (ultraprocessados e industrializados em geral)”. Embora os pais pareçam ter mais acesso às informações, por conta da internet, os hábitos alimentares são muito arraigados nas famílias. Hoje as pessoas têm dificuldade de diferenciar os alimentos naturais e valorizá-los, enquanto são envolvidos por uma indústria que passa 24 horas por dia divulgando ‘informações’ sobre os seus alimentos ultraprocessados, como: ‘fonte de fibras’, ‘enriquecido com vitamina’, ‘enriquecido com ômega 3’, isso confunde as pessoas. A influência da indústria é muito grande. Eu sou favorável a um controle maior da publicidade de alimentos para as crianças, ela é muito forte e sutil também, é muito subliminar e essa associação entre alimentos com a qualidade nutricional questionável e os símbolos infantis acaba influenciando a escolha das crianças. Isso já foi mostrado por diversos estudos. Países como a Holanda que já baniram este tipo de publicidade, tiveram resultados positivos. Então temos que começar a discutir isso no País”.

Até alguns planos de saúde já entenderam que o ideal é que se invista na prevenção da obesidade desde a infância. É claro que a finalidade é que se gaste menos dinheiro com estes futuros pacientes, mas neste caso, o meio é mais importante que o fim, o dr Flávio concorda com a ideia de prevenção, “A gente sabe que hoje existe algo que está além da nossa carga genética, que é a ‘epigenética’, que regula continuamente os genes herdados, portanto se você tem uma alimentação deficiente, principalmente no início da gestação, até o segundo ano de vida da criança, haverá uma influência a curto, médio e longo prazos na saúde. Nos últimos 50 anos estamos passando por uma epidemia de obesidade, de diabetes, de hipertensão, de doenças cardíacas, porque mudamos radicalmente o nosso jeito de nos alimentar e a única forma de reverter isso é entender que a intervenção tem de ser feita na família toda, pra que os futuros pais gerem filhos saudáveis”.

Ainda de acordo com o dr. Melo “os médicos do País sabem muito pouco sobre nutrição, o currículo das Universidades é muito deficiente nesta área, por isso é preciso que trabalhem em conjunto com as nutricionistas, é uma parceria essencial. Eu acho que cada escola deveria ter a sua própria nutricionista, não só para cuidar das merendas, mas para tratar da educação nutricional das crianças e também dos pais”. Como eu já disse em outro post, a cada dia novos projetos de educação alimentar tem aparecido para enriquecer os cardápios oferecidos nas escolas do País, o que é muito positivo, mas se em casa não for dada a devida importância ao poder de uma alimentação consciente e aos efeitos nocivos do contrário, o trabalho estará incompleto.

Vou dar um exemplo simples. O meu filho não tem nem 3 anos, come de tudo e também nos vê comendo de tudo em casa, mesmo assim, acha bonito falar que odeia salada, que não quer brócolis, couve nem espinafre, ele não sabe nem diferenciar esses alimentos. Ele nunca escuta nada desse tipo em casa, mas de alguma forma já incorporou essa “cultura”. Parece que de tanto ouvirmos por aí, já está no nosso inconsciente coletivo que crianças adoram doces e odeiam “verde”.  Se eu fosse dar ouvidos a ele, pararia de oferecer estes alimentos que são essenciais para o seu crescimento. Mas como hoje eu sou a responsável pelas suas escolhas e pela sua saúde, ele continua comendo e gostando de tudo.