Trazer ao mundo uma nova vida é uma tarefa para super-heroínas, e é exatamente assim que nos sentimos depois de dar à luz, capazes de tudo. As dores, o cansaço, o suor, até as vozes e barulhos externos somem como num passe de mágica, quando encaramos pela primeira vez aquele ser que vai mudar a nossa vida para sempre. Quando nos vemos como a fonte de alimento e conforto de uma criaturinha tão frágil, podemos ficar igualmente orgulhosas e emocionadas. Mas não se engane, este já seria o final feliz de uma batalha que costuma ser dura e solitária. 

 

A Ludmila Santiago Almeida é médica e mãe da Kiara de 9 meses, hoje ela já consegue descrever o lado bom da amamentação: “Ver os olhinhos olhando pra você, aquela mãozinha pegando o seu cabelo, a sua orelha, é uma fase maravilhosa mesmo, vale muito a pena”. Pra chegar neste momento, boa parte das mães precisa atravessar um caminho intenso, com dores, tristeza, cansaço e insegurança. Quanto mais ajuda receberem nesse momento, mais chances terão de superar estes obstáculos.  

 

A Campanha Agosto Dourado, promovida pela Aliança Mundial para Ação de Aleitamento Materno (WABA, na sigla em inglês) entendeu que a mulher precisa de apoio para enfrentar as dificuldades que a amamentação traz e para conseguir cumprir com esta função super importante por um longo período de tempo. O tema deste ano é “Proteja a amamentação: uma responsabilidade compartilhada”. A ajuda pode vir do parceiro/a, dos familiares, dos amigos, dos vizinhos, mas o assunto também deve ser encarado como função do estado e das empresas, que precisam dar condições para as mães que voltam ao trabalho depois da licença-maternidade, repensar o seu tempo de duração e ampliar o tempo que o pai, ou outra mãe, poderá ficar em casa, após o nascimento do bebê. 

 

Trabalho e amamentação 

 

Ludmila pode contar com a ajuda do marido, que ficou 45 dias em casa, somando férias e uma licença de 20 dias que conseguiu no trabalho, uma empresa cidadã. O casal também fez uma consulta preventiva com a consultora de amamentação, Carolina Villas Boas, segundo ela, a nossa legislação trabalhista, que permite que a licença-maternidade dure quatro meses, não bate com a recomendação da Organização Mundial da Saúde, sobre a necessidade de amamentação exclusiva até o sexto mês de vida do bebê. Ao voltar pro trabalho, dificilmente a mãe consegue manter o filho alimentado apenas com o próprio leite. 

 

Um estudo do Ministério da Saúde avaliou 14.505 crianças menores de cinco anos, entre fevereiro de 2019 e março de 2020 e descobriu que 54,3% deles não foram amamentados de forma exclusiva até os seis meses. 40% dos bebês também passaram a receber algum outro tipo de alimento, antes do quarto mês de vida. E 45,7% pararam de ser amamentados antes de completar 1 ano. 

 

A Carolina dá dicas para as mães que voltaram ao trabalho, mas querem seguir amamentando: “Tudo vai depender da jornada de trabalho da mulher. Se não der para alcançar a demanda do dia, ela vai poder treinar o bebê a receber o leite artificial de uma forma segura para que esse bebê não faça ‘confusão de bico’, ‘confusão de fluxo’ com uma mamadeira e saia do peito. Ela pode à noite amamentar muitas vezes, fazer uma cama compartilhada, pra oferecer o máximo do seu peito e manter essa produção. Também vai precisar estimulá-la no trabalho, é uma conversa que envolve até a empresa, existe lei. Eu dou pra ela todos esses documentos para conseguir conversar, para conseguir fazer valer o direito dela de ter o horário de manter aquela produção, ela vai poder tirar no trabalho e guardar. Treinamos também a rede de apoio que vai oferecer esse leite pro bebê.”

 

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Desafios de uma mãe de primeira viagem 

 

Há catorze anos, quando teve o seu primeiro filho, a Carolina, que também é enfermeira, passou por muitas dificuldades na amamentação: “Eu trabalhava na área de pediatria há alguns anos e tive dificuldades fisiológicas de amamentação. Hoje com o conhecimento que eu tenho, eu sei que não era patológico. Só que a falta de conhecimento acabou me arrastando pro desmame precoce. Eu errava a pega, me machuquei dentro do hospital. Já cheguei em casa com dores, tinha um bebê que chorava muito forte, chorava muito. Minha mãe sugeriu a mamadeira, introduzimos o leite no quarto dia e eu não conseguia acompanhar a demanda dele. Eu não conseguia fazer todos os cuidados, eu tinha muita dor no corte da cesárea, mas achava que tinha que fazer todos os cuidados, me lembro que falei pra minha mãe: ‘ele não vai saber que eu sou a mãe dele’. Essas crises emocionais acabam impactando também na descida do leite e é tudo que a gente não pode ter nesse momento”.

 

As dificuldades que enfrentou e a frustração por não ter amamentado, fizeram com que a Carolina buscasse uma pós-graduação em aleitamento materno. Hoje ela ajuda outras mulheres, como a Ludmila, que abriu este post, ela recebeu uma consultoria antes mesmo da filha nascer, de forma preventiva: “Ela me ensinou o jeito de posicionar o bico, de fazer a pega. Ela disse pra colocar a boquinha da bebê no meu peito e contar até dez, se depois disso continuar doendo está errado, daí coloco o meu dedo de ladinho, pra não me machucar, tiro ela e tento de novo. Fez muita diferença”. 

 

Como a família pode ajudar? 

 

Mesmo com todo conhecimento que a Carol adquiriu em 11 anos, a chegada do segundo filho, o Valentim, também foi muito difícil, mas agora ela tinha todo apoio do atual marido, o Breno Bernardis, que é condutor socorrista. Somando as suas férias com algumas licenças, ele passou 45 dias em casa após o nascimento do filho: “Eu acho que é obrigação do pai cuidar da casa, da família, da esposa”. Ficou com o Breno também a função de cuidar do filho mais velho da Carol e seu enteado, o Léo, que na época tinha 10 anos: “Eu assumi total, lavava a roupa, colocava no varal, fazia comida, lavava o banheiro, cuidava do Léo. Eu falava para ela ficar se resguardando porque não é fácil”. 

 

Pra que a mãe consiga se dedicar à amamentação, é preciso que a dinâmica da casa seja adaptada. Segundo a consultora: “A gente vai ter que colocar os nossos pequenos descansos como prioridade, é essencial até para ajudar na parte emocional, para você conseguir executar as técnicas que aprender. Você precisa fazer os descansos picados. A gente sabe que não vai dormir e a privação de sono é um fator principal até pra desencadear uma depressão pós parto. A casa vai ficar sujinha, a gente vai limpar só no final de semana, a gente vai fazer marmita congelada. Não vai ter comidinhas fresca.” 

 

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Prevenir é sempre a melhor opção

 

De acordo com a Carol, e eu concordo com ela, “O primeiro mês é mais uma prova de resistência do que de amor e está tudo bem, no segundo mês você vai curtir um pouco mais, vai ver o bebê ficando mais gordinho, no terceiro você vai lavar o cabelo direito, comer comida quentinha. É por isso que é tão importante a gente se preparar, eu preciso saber que está tudo bem em relação ao meu sentimento porque, da parte fisiológica, vai acontecer a sensação de tristeza, os ajustes hormonais vão acontecer. A gente ainda vê muitas mulheres serem medicadas para depressão nesse momento. E não precisa, é fisiológico, vai passar e quando as mulheres tiverem essas informações, tudo fica mais simples. Eu falo pra elas ‘depois você vai se orgulhar tanto de ter passado por isso e vai comemorar’”.

 

No acompanhamento prévio que fez com a Carol, A Ludmila já sabia ao quê deveria ficar atenta após o nascimento da filha. A médica quando bebê tinha o ‘freio lingual curto’, que impede que o bebê mame corretamente e causa muita dor à sua mãe. Hoje em dia já se entende que isso é bastante comum e de fácil resolução, mas quanto antes for identificado, melhor. Como tem um forte componente genético, ambas ficaram atentas quando a Kiara nasceu. A Carol tinha razão, a pequena também tinha o freio encurtado, passou uma cirurgia simples e pode mamar à vontade. Hoje a Ludmila comemora, principalmente porque entende os benefícios do leite materno pra saúde da filha: “Ela não ficou doente em nenhum momento, tá super ativa, acho que isso tem tudo a ver com a imunidade que a gente passa pra ela. Eu pensava assim: esse momento difícil vai passar. Realmente ele passava e depois eu esquecia. E tudo valeu a pena mesmo pra saúde dela, por esse vínculo que a gente criou”.

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