Desde que comecei a acompanhar o tema do trabalho infantil e do trabalho escravo mais de perto, sempre ouvi de especialistas que havia uma forte relação entre a exploração da mão de obra de crianças e adolescentes e a indústria têxtil.

Isso acontece porque a forma de produzir roupas mudou a partir dos anos 90. As fábricas antes reuniam a produção no mesmo local, mas depois passaram a terceirizar a costura. A mudança da indústria e do padrão de produção teria a ver com a mudança no padrão de consumo, com a demanda por roupas mais diversificadas, ligadas a tendências de moda.

Com isso, os funcionários deixaram de ser assalariados e passaram a realizar o mesmo trabalho dentro de casa, aumentando a informalidade. Quem me explicou sobre esse ecossistema foi o sociólogo e pesquisador Carlos Freire da Silva, que estudou as oficinas de costura e redes de subcontratação, nos bairros do Brás e do Bom Retiro.

Ele me contou que a terceirização diminuiu o custo de locação e CLT para as empresas. Além disso, como as vendas das confecções variam de acordo com a época do ano, as empresas repassaram os riscos do setor às oficinas de costura, se protegendo dos gastos nos meses em que se vende menos.

O problema não é exclusivo do Brasil. Pelo mundo, a exploração também acontece em países como China, Índia e Paquistão, onde a mão de obra é barata. Em São Paulo, é muito comum encontrar imigrantes nessas condições. Muitos deles, inclusive, já chegam ao Brasil com indicação de trabalho.

Segundo o pesquisador Carlos, entre a população economicamente ativa da cidade, 64,3% dos bolivianos e 41,7% dos paraguaios trabalham como operadores de máquina de costura. Para chegar ao número, ele cruzou os dados coletados em campo com informações do Censo 2010.

Recentemente eu vi as estatísticas se concretizarem à minha frente quando acompanhei uma inspeção do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Polícia Rodoviária Federal a uma oficina de costuras na Vila Invernada, bairro da Zona Leste de São Paulo, entre Mooca e Vila Prudente.

Por lá, um casal de bolivianos, de 16 e 19 anos, com uma filha de 2 anos, trabalhava em condições totalmente precárias, costurando fantasias que eram vendidas na Rua 25 de Março, no centro da cidade. A empresa que contratava o serviço foi responsabilizada e a família retornou à Bolívia com todos os gastos pagos pela contratante.

Escrevi sobre a inspeção na plataforma Rede Peteca – Chega de Trabalho Infantil. Para ler a reportagem completa, clique aqui.

O fato deu luz à necessidade das marcas se preocuparem e se responsabilizarem pelo monitoramento de sua cadeia produtiva – e se não for por boa vontade, que seja para cumprir a lei. O debate já ganhou maior espaço entre as grandes marcas, mas ainda não tocou o mercado totalmente.

Muitas das confecções localizadas no Brás e no Bom Retiro, que revendem para lojistas da cidade toda, exploram pessoas. A discussão precisa chegar também a esses médios produtores e aos próprios consumidores. Muitas vezes, quando compramos algo baratinho, sequer pensamos o que está por trás das peças.