Crédito: Reprodução / filme Toc Toc

Na sala de espera de um médico atrasado, pacientes com TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) precisam lidar com as manias de cada um. É a partir dessa situação que se desenrola a trama espanhola Toc Toc, disponível no Netflix.

Entre os pacientes, uma tem compulsão por limpeza e lava as mãos após tocar qualquer coisa ou pessoa. Outra tem mania de checar inúmeras vezes se fechou o gás, se pegou a chave, se apagou a luz – comportamento repetitivo que dificulta sua saída de casa.

Tem ainda o personagem viciado em contabilizar tudo, o que não pisa em listras e a que repete todas as frases por duas vezes. A menos conhecida Síndrome Tourette se manifesta na pele de um senhor com incontroláveis tiques físicos e verbais.

A película trata de forma cômica o drama real da vida de 8 milhões de pessoas acometidas pela doença no Brasil, de acordo com dados da Associação Brasileira de Psiquiatria. Entre crianças e adolescentes, a dificuldade de enfrentar o transtorno pode ser ainda maior.

Muitas vezes, se não tratado, o TOC interfere diretamente na vida escolar, impondo limites sociais e acadêmicos. Os mais novos também têm mais dificuldade de expressar exatamente o que estão sentindo e dependem do adulto para buscar ajuda médica.

Conversei com o psiquiatra infantil Francisco Assumpção Junior a respeito do tema. Confira trechos da entrevista:

O que é o TOC (transtorno obsessivo-compulsivo)?

O TOC se caracteriza por pensamentos recorrentes, que causam desconforto. São ideias ou imagens que se intrometem no pensamento, contra a vontade da criança, levando ao sofrimento e à ansiedade.

Há também as compulsões e obsessões. As compulsões são comportamentos repetitivos, feitos para diminuir a ansiedade. Embora a pessoa saiba que não precisa daquilo, ela não consegue se controlar. Esses rituais normalmente se associam a pensamentos, como uma forma de diminui-los.

Quais são os tipos de TOC e a partir de quantos anos se manifesta?

Há o medo de contaminação, pensamentos agressivos, religiosos, ideais sexuais e de danos a si mesmo, além da necessidade de contar, organizar coisas e simetria. O TOC pode ser identificado logo cedo, na pré-escola. Quando relacionado ao pensamento, é possível identificar em crianças a partir de 7 anos.  Normalmente é mais presente em meninos do que em meninas, em uma proporção de 3 para 2.

A Síndrome de Tourette tem alguma relação com o TOC?

Alguns autores fazem essa associação, até porque a presença de ansiedade em ambos é muito grande. A Síndrome de Tourette é um quadro descrito no final do século XIX, por Gilles de La Tourette.

Também mais frequente em meninos, é uma síndrome de tiques motores e vocais intensos e frequentes. Há também uma tendência compulsiva a falar palavrões e fazer gestos obscenos. A síndrome é um quadro grave, pois atrapalha muito a vida do sujeito.

Vale ressaltar a diferença entre a doença e os tiques. Tique é um movimento involuntário, normalmente de grupos musculares simples, como a piscada, que piora quando a pessoa está ansiosa.

Como os adultos podem identificar as doenças em crianças e adolescentes?

É preciso observar as atitudes, considerando que quando falamos em doença psiquiátrica, falamos de sofrimento e inadaptação. A doença mental é uma restrição de liberdade. Muitas vezes, por exemplo, a criança sequer consegue terminar uma brincadeira.

Quando o TOC é de pensamento, é mais difícil de identificar, mas geralmente a criança fala ao adulto, porque ela sofre. Quando é muito pequena, não vai saber expressar exatamente, mas pode dizer que uma voz fica na cabeça dela. O mais velho já diz que vem um pensamento ruim, que ele não consegue tirar da mente.

Como ajudar nesses casos?

Na maioria das vezes, a criança, quando é pequena, não sabe se expressar e tem dificuldade de mostrar que está sofrendo. Diferente do adulto, ela só vai ao psiquiatra quando é levada. Não é ela quem define.

O maior problema é que a sociedade ainda pensa que a criança não sofre e não tem motivos para estar infeliz, pois só vai à escola e brinca. Quando entendemos que a infância é uma maravilha, perdemos a dimensão da doença.

Em função disso, normalmente a criança só chega ao consultório quando o rendimento na escola cai, quando começa a incomodar muito ou quando a doença é visível, como a Síndrome de Tourette. Por isso é preciso ter atenção, não subestimar a criança e procurar ajuda de um especialista.

Se não tratada, quais são as consequências da doença na qualidade de vida?

A criança está no processo de construir sua autoimagem. Deixando de lado o politicamente correto, sabemos que muitas escolas enfrentam os problemas do bullying. Imagine o sofrimento de uma criança ou de um adolescente com esse padrão de tique. Se não falarem nada, a autoimagem já costuma ser baixa.

Entre os casos de TOC, um terço melhora, um terço se mantém e um terço piora. Nessa piora, se não tomamos cuidado, há associação inclusive com o suicídio. A queda no desempenho escolar e no trabalho, no caso dos adultos, é outra consequência. Há crianças, por exemplo, que não conseguem terminar a tarefa de casa, por apaga-la muitas vezes.

Qual é o tratamento?

O tratamento é medicamentoso e também por terapias cognitivas e comportamentais. As medicações são principalmente antidepressivos e neurolépticos. Em indivíduos muito resistentes ao tratamento, com prejuízo muito grande, pode ser indicada uma neurocirurgia.

A cirurgia é legal e passou pelo Comitê de Ética. Atualmente é computadorizada e feita a laser em regiões específicas do cérebro.

O tratamento cognitivo comportamental é praticamente por meio de terapia, com objetivos específicos, como treinamento cognitivo, exposição aos fatores desencadeantes e prevenção de recaídas.

Quando falamos da Síndrome de Tourette, não é muito diferente. Trata-se também com medicamentos e terapias. Em ambos os casos, após os primeiros passos, é possível combinar técnicas de relaxamento, como meditação, que reduzem a ansiedade.

Qual é a diferença entre manias e TOC?

As diferenças são bem importantes. Quando você é metódico e sistemático, você pode incomodar os outros, mas não a si mesmo. Você rende, consegue se controlar, as coisas funcionam e a sua meticulosidade te faz feliz.

No caso do TOC, a doença gera sofrimento e paralisa a pessoa. Imagine um adolescente que tem de jogar a escova de dente fora, porque o irmão esbarrou quando foi pegar a própria escova. Por mais que a pessoa saiba que o incômodo não faz sentido, não consegue mudar.

Como a família pode ajudar?

É preciso participar e entender a doença, dando apoio e sem pressionar, pois a cobrança aumenta ainda mais a ansiedade. Uma doença psiquiátrica habitualmente é um fator de desorganização familiar.

Se todos conseguem se reorganizar e enfrentar o problema, perfeito. Mas como algumas famílias se desestruturam completamente, vale a pena que todos procurem ajuda terapêutica até se reorganizar.

Se você tem sugestão de tema para um próximo post escreva para brunassrs@gmail.com