Há mais ou menos dois anos, vi nas redes sociais um vídeo incrível, de um garoto recitando uma poesia, de um jeito muito diferente, muito teatral. Eu fiquei encantada. Nunca tinha visto nada parecido. Não me lembro de quantas vezes reproduzi aquele vídeo nos próximos dias. Foram muitas.

Aquela performance, aquele grito politizado, era um Slam. No caso, o Slam Resistência. Slam é um movimento, uma batalha de versos que se firmou há dez anos como espaço de literatura nas periferias no Brasil. Ao final de cada apresentação, os jurados apresentam suas notas, causando grande comoção na plateia.

Há mais de um mês, meu amigo Francisco César Rodrigues, o Chico, educador social desde 1989, me escreveu falando sobre uma batalha que ocorreria em agosto, na Casa das Rosas, na Avenida Paulista, em São Paulo.

Muito engajado na causa da juventude, ele acompanha pessoalmente o movimento. Era o segundo Torneio dos Slams – Estéticas da Periferia, organizado por Emerson Alcalde de Jesus, 36 anos, também idealizador do Slam da Guilhermina, na zona leste da cidade.

Slamers dos quatro cantos da cidade e de outros municípios do Estado se reuniram no sábado (25) e no domingo (26), para uma batalha que escolheu o Slam Fluxo, de Cleyton Mendes e Felipe Marinho, como vencedor. Sete grupos se apresentaram em cada um dos dois dias, de onde saíram quatro finalistas. O prêmio foi a publicação de um livro.

“Queria muito saber sua impressão sobre o Slam, uma modalidade que vem crescendo nas periferias e espaços públicos, se identificando como a voz da população juvenil periférica e minorias”, me escreveu Chico. Era a minha chance. Parti para a Casa das Rosas no sábado e logo na chegada já entendi do que se tratava.

Fui pedindo licença a uma plateia que ocupou todo o piso térreo do centro cultural e consegui uma cadeira vaga bem em frente ao palco. A juventude parecia preferir ficar em pé ou sentada no chão, vibrando, aplaudindo, cantando e gritando, principalmente quando as notas eram  anunciadas pelo apresentador.

Ao fim de cada apresentação, um DJ soltava o trecho de alguma música, quase sempre rap, acompanhada também pela plateia. Assim como as canções, os discursos dos meninos e meninas são extremamente políticos.

Textos sobre a violência, o racismo e a desigualdade social encheram alguns olhos de água, mas na verdade inspiraram uma energia de muita força e resistência. A galera é empoderada. E as meninas?

O feminismo negro tomou grande parte das apresentações delas. Se já é difícil ser mulher, as garotas trouxeram à tona todos os desafios enfrentados pela mulher negra e periférica. Falaram de ancestralidade, de escravidão, de genocídio da juventude…

Mas ao fim do primeiro dia, por acaso, porque a ordem é por sorteio, uma apresentação sobre a doce vida da juventude na quebrada encerrou o espetáculo. O texto trazia o clima de um encontro romântico entre duas meninas no boteco com roda de samba, citando passagens de pagodes conhecidos misturados à poesia.

Sobre o Slam

Conversando com o Emerson, ele me disse que a modalidade em grupo, como foi apresentada no torneio, não é muito comum no Brasil. “Esse formato acontece mais em outros países. Aqui as apresentações são mais individuais”, explicou.

O Slam surgiu em 1984 em Chicago, nos Estados Unidos, fundado por Marc Smith. O poeta recebeu o apelido de Slam Papi. “Ele organizava uma espécie de sarau e incentivava a performance, ao invés da leitura. Um dia fez a brincadeira de dar nota. A coisa foi ficando séria e se espalhou pelo mundo.”

No Brasil, o Slam chegou em 2008, com o pioneirismo de Roberta Estrela D’Alva, ao fundar a Zona Autônoma da Palavra (ZAP!). Atualmente ela é apresentadora do programa Manos e Minas, da TV Cultura.

Os primeiros slams aconteciam em teatros ou bares. O da Guilhermina, fundado por Emerson, foi o primeiro de rua. “Aos poucos o movimento foi crescendo. Começamos a organizar torneios com etapas estaduais e depois nacionais, até chegarmos à Copa do Mundo dos Slams, que sempre acontece na França”, disse Emerson.

Embora haja a presença de adultos mais velhos nos eventos, a presença marcante e o protagonismo são dos jovens. “Eles viram ali um lugar de expressão. Eles mesmos se representam, tanto como público, quanto como poeta. Em geral, eles têm de 16 a 24 anos.”

Para Emerson, o slam é uma nova maneira de fazer política e promover debates. “O slam é quase um discurso direto de enfrentamento às desigualdades. É fundamental que os jovens participem. Lá eles descobrem quem eles são. É muito especial.”