Rimas & Melodias_Foto Catarina Martins

Foto: Catarina Martins

Rimas & Melodias é mais que um coletivo que mistura rap e R&B. É um projeto empoderador de mulheres. No palco, a energia forte e inspiradora de sete delas – seis vozes e uma DJ. Muito talentosas e – por que não dizer? – lindas! Aquele projeto que dá vontade de mostrar para o mundo.

No Dia da Consciência Negra, celebrado no dia 20 de novembro, o Blog Era Uma Vez conversou com as meninas do Rimas & Melodias sobre racismo, feminismo e música. Mayra Maldjian (DJ), Alt Niss (cantora), Tatiana Bispo (cantora), Tássia Reis (cantora e rapper), Drik Barbosa (cantora e rapper), Karol de Souza (rapper) e Stefanie (rapper).Confira a entrevista:

Como surgiu a ideia de criar o coletivo Rimas & Melodias?

Tatiana Bispo: Tudo aconteceu despretensiosamente. Pensei que seria legal fazer um cypher só de mulheres, mas que não tivesse só rima. Como cantora, queria participar. Também conhecia outras cantoras. Foi assim que surgiu o Rimas & Melodias.

Compartilhei a ideia com a DJ Mayra, que aceitou colocar tudo em prática. Chamamos as demais meninas não só porque são talentosas, mas pela identificação musical, além da amizade que já tínhamos e que vai crescendo cada vez mais.

Durante o show, vocês falam sobre o poder da mulher, o machismo na música e no rap e se dirigem muito às mulheres. O grupo tem proposta feminista? Qual é a mensagem que vocês querem passar?

Karol de Souza: O Rimas & Melodias tem sim uma proposta feminista. Somos mulheres reunidas pela música, mas em uma luta por igualdade de gêneros. Nas nossas letras é nítido que estamos celebrando o nosso encontro e ao mesmo tempo criticando as situações de machismo que as mulheres vivenciam na música e na sociedade em geral. Por uma questão de identificação, é mais fácil olhar no olho de uma outra mulher no show e dirigir a palavra a ela. Ela entende perfeitamente.

Qual foi a importância da criação do coletivo para você como artista e também como mulher?

Karol de Souza: Na minha vida, participar de um coletivo como o Rimas & Melodias é enriquecedor. É querer brilhar, mas não mais que as minhas manas do grupo. É lidar com o ego, da melhor maneira, tendo de silenciar para deixar suas parceiras cantarem e logo depois cantar alto junto com elas. Temos muito em comum, dentro e fora do palco. Estamos sempre juntas.

Mayra Maldjian: Foi na companhia delas, no palco, que eu senti pela primeira vez na vida como é bonito e poderoso ser mulher. Acho que é isso que muitas garotas sentem também na plateia, porque isso está na energia que dissipamos durante o show por meio de cada beat, cada flow, cada linha. Sem contar que a gente se diverte e se emociona junto. É uma sintonia de outro mundo, uma conexão que tem muito a ver com a música, mas acima de tudo com o feminino. O Rimas & Melodias foi muito transformador para nós todas, não só artisticamente, como pessoalmente. Fora do palco, a gente está sempre se falando e dando força umas para as outras nos perrengues do dia a dia, que não é nada fácil para quem tenta viver de música, para quem rala como mãe solteira, para quem sofre com racismo (todas as meninas do grupo são negras, exceto eu, que sou branca), machismo e outras podridões dessa sociedade doente, tudo ao mesmo tempo.

Quais são as maiores dores e as maiores delícias de ser uma mulher negra no Brasil?

Drik Barbosa: Eu poderia falar horas sobre as dores, porque infelizmente são muito maiores nesse caso, pela sociedade e cultura em que vivemos. Antes de sair de casa nós temos de nos preparar para enfrentar a sociedade racista e machista que nos rodeia. O nosso trabalho é dobrado, se não for triplo.

A mulher negra é vista de uma forma negativa comparada a qualquer outra mulher aqui no Brasil. Nós somos tão capacitadas, tão bonitas e inteligentes quanto qualquer outra mulher de outra etnia e nós enfrentamos o mundo para “provar” isso em tudo que fazemos. Nossa existência é tão importante quanto a de qualquer outra mulher e a luta é diária, para que reconheçam isso é fato.

As músicas falam bastante do empoderamento da mulher, sobretudo as negras. Qual é a importância deste recorte em seu trabalho? Vocês servem de inspiração para outras mulheres negras?

Drik Barbosa: Essa representatividade é extremamente importante. Uma jovem negra que nos vê no palco e se identifica com a nossa música pode se sentir representada e motivada, assim como me sinto ao ver outras mulheres negras conquistando e ocupando espaços que também são nossos. Quando subimos no palco estamos representando a força e a união de todas as mulheres de todas as etnias. Estamos representando a força que temos dentro de cada uma.

Karol de Souza: Mesmo eu sendo uma preta de pela clara, sempre fui negra o suficiente pra vivenciar todo o preconceito que infelizmente as crianças de nariz largo e cabelo armado passam!

As delícias de ser uma mulher preta só chegaram na adolescência, quando comecei a me espelhar em mulheres como Tina Turner e Aaliyah, que traziam um discurso de poder nas letras.

Nossas letras retratam nossa vida,  dores, amores, experiências… Tudo vira música!  Eu hoje me sinto lúcida e confortável como mulher e tenho um papel importante de locução através do Rap. Se eu me inspirei em cantoras e na minha avó, sei que posso ser fonte de inspiração pra outras mulheres. Todas nós podemos, pois temos muita semelhança com o nosso público.

Stefanie Roberta: Sabemos o quanto é difícil ser artista no nosso país. Muitos desacreditam, desvalorizam a nossa arte e acham que é uma perda de tempo, sendo que ela tem uma grande importância na vida das pessoas e pode influenciar uma geração.

Sabemos o quanto é difícil ser mulher e cantar rap, pois muitos têm uma visão machista e marginal, sendo que a poesia é livre e pode tratar de diversos assuntos. Também é difícil cantar r&b no Brasil e escutar de algumas pessoas que aqui esse estilo musical “não vira”. Por toda essa “desvalorização”, sentimos a necessidade de gerar trabalho para nós mesmas, pois nós queremos viver da música.

Podemos dizer que o público do Rimas & Melodias hoje é 80% feminino e achamos isso incrível, pois está sendo representativo para elas. No último show que fizemos na Casa Brasilis, uma garota disse que se animou a fazer música, ao ver nosso show. Creio que uma nova geração de mulheres se aproxima, uma geração que vai chegar de outra forma, cantando e tocando um instrumento como uma Alicia Keys, mulheres MC’s misturando outros estilos musicais… Devagar estamos rompendo barreiras e o público percebe o quanto a cultura hip hop é única e importante, abrindo portas para todas mulheres que queremos viver dignamente da música.

Quanto à importância do coletivo como artista, é a aprendizagem. Cada uma tem seu estilo, sua identidade e aprendemos muito uma com a outra. Nós vivemos mais ou menos as mesmas situações, enfrentamos as mesmas dificuldades e queremos viver o mesmo sonho.

O grupo mistura rap com R&B. Qual é a concepção artística do projeto?

Mayra Maldjian: O projeto foi criado com essa intenção de misturar manas que rimam e manas que cantam. As cantoras de R&B, tanto lá fora quanto no Brasil, sempre fizeram parte da cultura hip hop. No entanto, aqui elas sempre tiveram um papel mais coadjuvante nos palcos como backing vocals e nos raps fazendo refrões. Mas nos últimos anos esse quadro tem mudado e elas vêm tomando a dianteira com trabalhos autorais super consistentes e autênticos. Muita gente ainda chama as meninas que cantam de rappers, mas tenho certeza que com o tempo as coisas vão se definindo e o R&B será mais bem assimilado.

No fim das contas, fazemos parte do mesmo movimento e, juntas, cantoras, rappers e djs somamos forças no levante das mulheres no hip hop, que ainda é dominado por homens, apesar do avanço.

AGENDA / RIMAS & MELODIAS

Festa Black House @ Black Bom Bom
Terça, 22/11, 22h às 6h
Rua Luís Murat, 370, Pinheiros

Quilombaque Perus
Sábado, 26/11, 19h
Travessa Cambaratiba, 5, Perus

Mais informações na página do Facebook. Encontre vídeos do projeto no canal do Youtube.