Crédito: Hans Georg

A evasão escolar é uma das principais violações de direitos de crianças e jovens. Os motivos são muitos: trabalho, desinteresse, gravidez precoce e violência. O problema fica ainda maior na transição do Ensino Fundamental para o Ensino Médio e no próprio Ensino Médio.

Segundo levantamento realizado pelo Todos pela Educação, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) 2015, é preocupante o crescimento muito tímido no porcentual de atendimento escolar entre 15 e 17 anos, sendo de 78,8% para apenas 82,6%, de 2005 a 2015.

De acordo com o mesmo estudo, no Brasil, 2,5 milhões de crianças e jovens ainda estão fora da escola. Conversei sobre o assunto com Caio Callegari, Coordenador de Projetos da organização. Confira trechos da entrevista:

Quem está fora da escola no Brasil?

Observamos que o primeiro ano do Ensino Fundamental está quase universalizado, com 99,5% das crianças na escola. A evasão escolar acontece na decorrência do Ensino Fundamental. Nos anos iniciais, perdemos de 2% a 3%.

Já no segundo ciclo do Ensino Fundamental, entre o quinto e o oitavo ano, ficam 5%. O número explode no nono ano, chegando a 8%. No primeiro ano do Ensino Médio, salta para 13% – porcentagem que se repete no segundo e cai para 7%, no terceiro.

Com isso, constatamos que o problema está na transição do Ensino Fundamental para o Ensino Médio e no próprio Ensino Médio.

Por que os jovens estão saindo da escola?

Eu uso como referência uma pesquisa da Miriam Abramovay, de 2013. Ela mostra que questões familiares e o trabalho são os maiores motivos para jovens entre 15 e 29 anos deixarem a escola.

A gravidez precoce, problemas de saúde e o próprio desinteresse pelos estudos também são fortes motivos. Ou seja: trabalho, gravidez, saúde, não gostar de estudar e família são os cinco principais motivos.

Como solucionar esse conflito que envolve tantas questões?

Precisamos de políticas integradas que contemplem todos esses temas. É dever do estado garantir que todos estejam na escola. No caso da gravidez e da saúde, são necessários serviços básicos de saúde e educação, por exemplo.

Precisamos também buscar todas as formas possíveis para evitar que o trabalho e as demandas familiares compitam com a educação. Sem dúvida, é preciso aproximar a escola da família e também do mercado de trabalho. Todos precisam dialogar para que o jovem não se perca no sistema educacional.

Como muitos pais só concluíram o Ensino Fundamental, temos uma cultura muito forte de que o Ensino Médio é visto como algo além do imaginário da família. Isso não pode acontecer. O Ensino Médio é um direito. Precisamos ter essa percepção para avançar.

O que os jovens pensam sobre isso?

Fizemos uma análise de cinco pesquisas ouvindo a juventude, entre 2013 e 2017. O primeiro problema apontado pelos jovens é a questão da segurança nas escolas. Apesar disso não ser indicado como um dos principais fatores que levam à evasão, é um problema que faz com que o jovem não tenha vontade de ir para a escola.

A qualidade da infraestrutura da escola é um aspecto de dignidade. Muitas vezes, o jovem chega à escola e o banheiro está quebrado. Ele não vai se sentir atraído por um ambiente que não o trata com respeito.

Outro aspecto importante é o ensino de informática e utilização de tecnologia. O jovem identifica tudo isso como muito precário. Eles são hiperconectados e veem a escola como um ambiente arcaico.

Precisamos de uma escola que permita que o jovem desenvolva suas capacidades e seu pensamento crítico, tornando a educação mais atrativa. Ficar sentado, olhando para a lousa, sem interagir, não é interessante. É preciso pensar na escola do Século XXI.

Além disso, é preciso pensar na contextualização do ensino e na organização curricular. O Ensino Médio ainda está muito engessado e o estudante não tem opção de escolher qual vai ser sua trajetória. Quais são os conteúdos que mais interessam a eles?

Como podemos envolver os jovens na solução do problema da evasão escolar?

Precisamos de uma rede de proteção complexa e completa para o jovem, na qual o poder público não é o único responsável. A família também é. Percebemos que há jovens com potenciais altíssimos de mobilização.

É preciso mudar a atitude para atrair novamente os alunos que faltam muito e os que deixaram a escola. Muitas vezes isso pode acontecer por uma liderança local, um parceiro da escola, que consegue promover a mudança no espírito da comunidade.

O ponto fundamental é que não podemos construir política pública desconsiderando a opinião dos jovens. A primeira mudança é justamente nesse processo de escuta, que deve ser feito de município a município, bairro a bairro. Precisamos escutar os jovens para entender quais são as necessidades deles, porque não estão indo à escola e o que precisam para voltar.

Como construir esse diagnóstico?

É preciso um processo estruturado de escuta da juventude, proporcionando a participação deles na formulação de politicas públicas, criando uma rede de proteção integral. Podemos chegar a eles por meio da assistência social, dos postos de saúde, escolas e equipamentos de esportes. Acima de tudo, o respeito ao jovem é o que precisamos ter como solução para a evasão escolar

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