A crise do coronavírus no Brasil tem sido um desafio para toda a sociedade. Um dos setores bastante afetado é o da educação. Escolas estão correndo contra o tempo para readaptarem seus currículos à nova realidade em que será necessário utilizar a tecnologia enquanto crianças e adolescentes permanecerem de casa.

Mas em um país traçado pela desigualdade social, um momento como o de agora se torna ainda mais desafiador. Como fica a situação dos moradores de favelas, que muitas vezes dividem o mesmo cômodo entre muitos membros da família? Algumas das casas não têm janelas ou acesso ao saneamento básico. Crianças que iam à escola para se alimentar agora estão com as aulas suspensas. E como repor as aulas dos alunos que não têm acesso à internet?

Nessa perspectiva, conversei com Lúcia Dellagnelo, doutora em educação pela Universidade de Harvard e diretora presidente do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB), a respeito das medidas adotadas pelas escolas públicas e particulares. Para Lúcia, a situação está nos mostrando a urgência de repensar modelos de educação. Confira a conversa:

Qual caminho as escolas podem seguir agora que as aulas estão suspensas?

Primeiro defina uma plataforma de comunicação e como vai ocorrer a comunicação com os estudantes e professores para que eles possam se reunir e planejar.  É importante definir com os professores o que será ensinado e qual será o material de apoio. Nem todos os conteúdos são adequados para ensinar a distância. É importante que o professor faça seleção para tipos de conteúdos e materiais.

Uma boa dica é usar plataformas digitais educacionais já existentes. Como não tivemos tempo de fazer a transição entre o ensino presencial e o ensino remoto, é importante que os professores usem recursos educacionais digitais que já foram pré-selecionados e já passaram por uma curadoria pedagógica. No Brasil, há duas grandes plataformas: o MEC REC, do Ministério da Educação, e a Plataforma Escola Digital, que tem vários recursos digitais já pré-avaliados por outros professores.

A outra dica é garantia da equidade. Escolha uma maneira do ensino a distancia que você saiba que vai atingir todos os alunos da sua escola. Caso contrário, pode gerar uma desigualdade de acesso muito prejudicial no processo educacional.

Vamos conseguir manter o ensino a distância por muito tempo?

É difícil de responder, porque o ensino a distancia requer um planejamento constante de materiais e de formas de ensinar. Não é só um meio de comunicação diferente, mas requer um planejamento diferente, uma estruturação da experiência de aprendizagem diferente. Então vai ser difícil os professores se acostumarem. Nos países que já passaram o auge da crise, como a China, os professores reclamaram que mesmo dando aulas gravadas e mandando vídeos, eles não se sentiram tão eficientes em sala de aula e nem têm certeza que aquela experiência gerou aprendizagem.

Acho que essa crise está sendo uma grande oportunidade para reafirmar a necessidade de transformar as escolas em escolas conectadas. Uma escola capaz de oferecer atividades educacionais e situações de aprendizagem tanto de maneira presencial, quanto online. Para isso precisa ter um planejamento, um currículo e práticas pedagógicas já desenhadas para essa mediação para tecnologia. Precisa haver professores e gestores bem capacitados e a pré-seleção de recursos educacionais digitais alinhados ao currículo. Além disso, é essencial prover a infraestrutura necessária, tanto em termos de equipamento para ser usado na escola em casa, quanto na conectividade.

Esse é o conceito que o Cieb promove. O conceito de escolas conectadas. A partir de agora as escolas deverão ser capazes de oferecer aprendizagem em qualquer situação e em qualquer lugar. Essa crise vai nos fazer rever a maneira que a escolarização é feita.

A situação não pode potencializar a desigualdade no caso das escolas públicas?

No caso da escola pública é realmente um desafio garantir a equidade. Temos acompanhado a discussão entre os técnicos de tecnologia das redes públicas de ensino. Eles estão pensando em usar a TV aberta para garantir equidade e dados patrocinados para que alunos consigam acessar o conteúdo sem usar dados pessoais.

A quarentena gera desigualdade, porque muitos trabalhadores vão precisar continuar. Estamos vivendo um momento inédito e que sem dúvida irá gerar muitas lições principalmente para a área da educação.

Países como a Estônia, por exemplo, primeiro lugar no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) entre os países europeus, já tem história bem estabelecida de quase dez anos do uso de tecnologia na educação que pode nos ensinar como fazer essa transição. Isso não significa nunca que iremos substituir as escolas, mas fazer com que elas sejam capazes de oferecer experiências híbridas.