“Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de maneira crítica.” 

Especialistas se reúnem em São Paulo para construção do Edital. Crédito: Divulgação / CEERT

A frase é de Paulo Freire e me veio à cabeça assim que tive acesso ao Edital Equidade Racial na Educação Básica Pesquisa Aplicada e Artigo Científico. A iniciativa tem como objetivo identificar e apoiar pesquisas aplicadas, bem como premiar artigos que apontem soluções para os desafios da construção da equidade racial na Educação Básica no Brasil. Para se inscrever, clique aqui.

Com inscrições abertas até dia 13 de junho, o edital visa apoiar proposições que defendam e façam avançar uma educação básica igualitária, nas palavras de Mario Rogerio, diretor do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), organização realizadora do fomento – uma iniciativa do Itaú Social em parceria com o Instituto Unibanco, a Fundação Tide Setubal e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

Relacionando à frase de Paulo Freire, tenho acompanhado também mais de perto o trabalho de Cida Bento, também diretora do CEERT, e suas falas a respeito do “Pacto Narcísico da Branquitude” – o que tem me fascinado e promovido profundas reflexões pessoais a respeito da importância do compromisso dos brancos na luta antirracista, começando pelo reconhecimento dos lugares de privilégio herdados dos benefícios simbólicos e concretos da escravidão.

Honestamente eu nunca acessei tal reflexão tão aprofundada em espaços fora do movimento negro e por isso é um tema que quero muito trazer com mais frequência aqui para o blog, pois acredito que precisamos furar essas bolhas. Não podemos mais negar que existe, sim, um “pacto” entre nós. Por mais que não seja um pacto verbalizado ou combinado, ele está em todas as nossas estruturas. E um desses espaços de privilégio é a escola.

Sabemos que diversas violações de direitos de crianças e adolescentes, como trabalho infantil e evasão escolar, atingem principalmente as crianças e adolescentes negros – sem contar o genocídio da juventude negra. Acredito que o edital seja uma das possibilidades de resposta a tudo isso.

“Quando trabalhamos equidade racial dentro das escolas, incidimos nessas dificuldades que o alunado está vivendo e possibilitamos uma educação de qualidade. Acreditamos na importância de dialogar com a comunidade e com a família”, disse Mario Rogério, também coordenador do Censo da Diversidade.

Segundo ele, 15 projetos de pesquisa e nove artigos científicos serão contemplados. Para a modalidade de projetos de pesquisa, serão destinados R$ 150 mil para cada projeto, além de uma bolsa de R$ 3 mil para o coordenador, durante 18 meses.

Já os autores dos artigos científicos serão divididos em três categorias. Serão destinados R$ 3 mil para cada um dos dois artigos de graduados, R$ 5 mil para cada um dos dois artigos de mestres e R$ 8 mil para cada um dos dois artigos de doutores. Cada categoria receberá também uma menção honrosa.

Confira trechos da entrevista:

Mario Rogério é diretor do CEERT e coordenador do Censo da Diversidade

Como foi o processo de construção do edital?

Mario Rogerio: O primeiro passo foi pensar em quais seriam as linhas de pesquisa. Por isso realizamos uma pesquisa exploratória para conhecer os trabalhos que estavam sendo realizados no chão da escola.

Esse primeiro levantamento nos trouxe 1.846 estudos. Do total, permaneceram 111 dissertações e teses. Procuramos por pesquisas com foco em equidade racial na educação básica com conexões entre escolas e comunidades.

A partir da pesquisa, surgiram três grandes linhas: políticas públicas afirmativas e gestão da equidade racial nas secretarias e escolas; perspectivas epistemológicas e processo de aprendizagem e ensino; e aspectos curriculares e abordagens pedagógicas inovadoras.

Essa pesquisa ocorreu em todo o país?

Mario Rogerio: Consultamos os principais intelectuais que pensam e atuam na equidade racial na educação básica no Brasil. Em setembro de 2019, realizamos oficinas regionais de escuta no Norte e no Nordeste, além de uma oficina nacional em São Paulo. Em formato de roda de conversa, os encontros foram realizados, visando à construção coletiva do edital.

Participaram especialistas, mestres e doutores das universidades, a exemplo da Universidade Federal do Sul da Bahia – que contribuíram para ampliar o foco em vários temas, entre eles a questão das mulheres negras, da população quilombola, intolerância religiosa e o papel das organizações sociais.

No sul da Bahia, por exemplo, muito se falou a respeito da importância de trabalhar com comunidades quilombolas, além da necessidade de conectar os projetos à realidade em que está inserido, promovendo o diálogo entre escola e comunidade.

Em São Paulo, recebemos em torno de 70 pessoas de cada uma das 5(cinco) regiões do país, além dos participantes de São Paulo. Foi um encontro bastante plural para pensarmos as linhas do edital.

E qual foi o resultado desses encontros?

Mario Rogerio: Construímos um edital que vem para apoiar proposições que defendam e façam avançar uma educação básica igualitária. A ideia é promover educação de qualidade para todas as crianças.

Sabemos que o alunado negro enfrenta sérios problemas na educação, muitas vezes sendo vítima de discriminação, o que aumenta a evasão escolar e gera baixo rendimento.

O alunado negro do ensino médio  não estuda somente, mas muitas vezes sai para trabalhar, pois precisa colocar comida dentro de casa.

Quando trabalhamos equidade racial dentro das escolas, incidimos nessas dificuldades que o alunado está vivendo e possibilitamos uma educação de qualidade. Acreditamos na importância de dialogar com a comunidade e com a família.