Na Zona da Leopoldina, região mais antiga da zona norte do Rio de Janeiro, encontra-se o bairro da Penha. Fica a cerca de 12 quilômetros do Aeroporto Internacional Tom Jobim, O Galeão, de onde desembarquei na última terça (27), com destino à Escola Municipal Presidente Eurico Dutra. O objetivo era conhecer o projeto M4 Nas Escolas, de um dos maiores ídolos do basquete nacional, o ex-capitão da Seleção Brasileira Marcelinho Machado.

Crédito: Bruna Ribeiro

M é de Marcelo e 4 é o número que Marcelinho sempre jogou. O M4 Nas Escolas alia a técnica exclusiva do esporte aos valores fundamentais para a formação de crianças e adolescentes, privilegiando um olhar integral da educação.

Com mais de 30 anos dedicados ao basquete, Marcelinho começou a pensar em um sentido maior para o esporte em 2012, quando se machucou. “Sempre quis retribuir à sociedade tudo o que o esporte me deu”, diz o atleta, que teve contato com o basquete desde muito pequeno por influência do pai.

Tempos depois, em fevereiro de 2019, o sentimento foi concretizado com apoio da Plataforma de Esportes da BV, marca de varejo do Banco Votorantim, que também patrocina projetos sociais de outros atletas, como o Reação, do judoca Flávio Canto e o Instituto Esporte e Educação, de Ana Moser do vôlei. Saiba mais aqui.

A iniciativa atende 150 crianças de 9 a 15 anos em duas escolas da capital fluminense. A segunda delas fica em Andaraí, também na zona norte. As turmas são divididas nas categorias Sub11, Sub 13 e Sub 15, em duas aulas por semana para cada turma, além de uma roda de conversa com uma psicóloga ou assistente social.

Conhecendo o projeto

Ao entrar no bairro do subúrbio carioca, cortado pela Avenida Brasil, tive minha atenção tomada pelo padrão de muitos prédios iguais. Trata-se do IAPI da Penha, com 1248 unidades habitacionais divididas em 44 blocos.

O complexo foi construído na era de Getúlio Vargas, pelo Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários, com o objetivo de viabilizar a aquisição de moradia por meio de financiamento a longo prazo.

No centro deste complexo, fica a enorme Praça Santa Emiliana, com 15.728 metros quadrados. Em frente a ela, está a Escola Eurico Dutra. Logo de manhã, da calçada, dá para avistar uma quadra de basquete e muitos moradores praticando esportes e correndo pelo entorno. Pensei: Marcelinho escolheu o lugar certo para implementar o projeto.

Acredito que muito mais do que levar recursos e metodologias a comunidades em vulnerabilidade social, um bom projeto tem o compromisso de dialogar com os saberes da comunidade. Em Pedagogia da Autonomia, Paulo Freire já fala sobre a importância da construção da autonomia dos educandos, valorizando a individualidade e a cultura local.

Crédito: Bruna Ribeiro

Esporte como valor da escola

Logo que cheguei à escola, fui recebida pela diretora Sônia Bispo Santos – uma figura bastante interessante, que concilia uma extrema simpatia e a rigidez típica das diretoras de escola.

“Quando passo pelo pátio, tem criança que até leva susto”, alertou antes de sairmos para um tour pela escola. Mas a verdade é que os alunos olhavam encantados para a Dona Sônia, a quem faziam questão de desejar bom dia.

Ainda em nossa conversa na sala da direção, Sônia me confirmou o que eu pressentia. O esporte é um valor daquela comunidade, assim como da gestão.

Aquela praça em frente à escola é um verdadeiro ponto de encontro entre os moradores do IAPI. No pátio, durante o intervalo, os meninos jogam futebol com uma bolinha de papel enrolada com fita crepe.

Crédito: Bruna Ribeiro

Quando o calor aperta, as crianças usam a piscina do vizinho Grêmio Recreativo e Esportivo dos Industriários da Penha (GREIP). A Vila Olímpica divide muro com a escola e oferece diversas atividades esportivas e artísticas, como dança e artes marciais.

M4

Por isso o M4 faz tanto sentido naquela comunidade e já está com todas as vagas preenchidas. Reformada pelo projeto, a quadra é também utilizada pelas aulas de educação física da grade tradicional. O espaço favorece, cercado por árvores enormes, de onde macacos miquinhos escorregam e se penduram do lado de fora das redes.

Tamanha tranquilidade quase nos faz esquecer que a escola tem mais de mil alunos matriculados e divide o prédio com uma escola estadual no período noturno, enfrentando diversas dificuldades por falta de recursos.

Além dos alunos residentes no IAPI, a escola recebe crianças de comunidades próximas como o Complexo da Maré, Vila do João, Kelson e Morro do Cruzeiro. Moradora da Maré, Rebeca Marques, 12 anos, pega condução sozinha todos os dias para ir para a escola. Entre uma atividade e outra da aula de basquete, ela contou o quanto o esporte transformou a vida dela.

“Antes eu só queria saber de funk. Agora só quero saber de basquete. Descobri que posso fazer coisas novas”, diz a garota. João Gabriel, 12 anos, também sentiu diferença após o início da prática. “Eu me sinto mais feliz, porque antes eu só ficava em casa, sem fazer nada e mexendo no celular. Nosso raciocínio melhorou. Até nossas notas aumentaram.”

Crédito: Bruna Ribeiro

Do grupinho que se reuniu para me contar um pouco sobre a experiência de participar do M4, todos destacaram o quanto o esporte está os ajudando a descobrir que é possível aprender mais sobre coisas diferentes, impactando diretamente no desempenho em sala de aula.

Metodologia

Os depoimentos dos estudantes são compatíveis com o objetivo da metodologia desenvolvida por Marcelinho, em parceria com a Rio de Negócios. De acordo com o jogador, o objetivo não é formar atletas profissionais. “Pode acontecer de descobrirmos um talento, mas a nossa ideia é formar cidadãos, fortalecer a autoestima das crianças e outras habilidades socioemocionais”, conta.

Valores como trabalho em equipe, respeito ao próximo e habilidade de perder e ganhar são trabalhados na quadra e nas rodas de conversa com a psicóloga e a assistente social. Nos encontros, os alunos têm a oportunidade de compartilhar sentimentos e situações cotidianas da vida.

Com 2 metros de simplicidade, o atleta visita os projetos duas vezes por semana e participa das aulas. Incentiva, corrige a técnica e joga com a garotada. Nas redes sociais, ele compartilha algumas fotos das visitas que realiza.

Fiquei com a impressão que o M4 não é uma iniciativa qualquer, mas um projeto de vida do Marcelinho. “Até poderia fazer um projeto e apenas colocar meu nome, sem participar ativamente, mas qual seria o sentido? Acredito que o M4 pode incentivar outros atletas”, sugere.

Crédito Bruna Ribeiro

Ao lado de Marcelinho, estava o coordenador Gustavo Quintanilha. Professor de educação física, ele gerencia os quatro professores, a psicóloga e a assistente social. “Como queremos ter 25 alunos na quadra, sempre contamos com dois professores por aula para que todos tenham atenção.”

Segundo ele, os planos de aula são desenvolvidos de acordo com a metodologia, visando o desenvolvimento das crianças e adolescentes em seis âmbitos: pessoal, social, familiar, escolar, técnico e saúde.

A aula é dividida em quatro etapas. Quanto mais novas são as crianças, mais lúdico é o aquecimento. Depois chega a parte técnica, com apresentação dos fundamentos, como passe e drible. O momento mais esperado é a hora do jogo. Para baixar a energia, a aula termina com o momento chamado de “volta à calma”.

“Nunca descuidamos dos valores. Se o menino é habilidoso e não está passando a bola, adaptamos a regra e instruímos que não pode mais segurar a bola, por exemplo. A ideia é mostrar que precisamos trabalhar em equipe e respeitar os limites dos outros. Quando identificamos uma situação delicada com a psicóloga, como o assassinato recente do pai de um aluno, também passamos a ter um cuidado especial com ele na quadra”, explica o coordenador.

Crédito: Bruna Ribeiro

Para avaliar os avanços técnicos e comportamentais de cada criança, os professores preenchem uma ficha mensal. A ideia é fazer o monitoramento do programa para que ele possa ser expandido para outras escolas ou até mesmo dentro dos próprios colégios que já participam.

Sempre fico receosa que os projetos de esporte canalizem a atenção para a formação de novos atletas de categoria de base, mas o M4 passa longe disso. Ele enxerga o esporte como um direito humano da criança e do adolescente, importante para o desenvolvimento integral.

Espero que, além de chegar a outras escolas, o projeto seja um disparador para a melhoria das práticas de educação física na grade curricular tradicional, atraindo também recursos para atender necessidades básicas além da quadra. As escolas infelizmente contam com pouco investimento e são muitas vezes negligenciadas pelo poder público.

 

  • A repórter viajou a convite da BV.