Crédito: Iolanda Huzak

A fotógrafa Iolanda Huzak (1947-2013) começou a registrar o trabalho infantil no Brasil, no início da década de 90. Lançou, em 1994, o livro Crianças de Fibra, com texto de Jô Azevedo. A dupla revelou a triste realidade da exploração em fábricas de sapato, colheita de sisal, carvoarias e canaviais. “Essas atividades empregam gente muito pequena, pagando salários menores ainda”, diz uma reportagem publicada na época.

Trabalho infantil é um tema particularmente importante para mim. No ano passado, lancei o livro Meninos Malabares – Retratos do Trabalho Infantil no Brasil (Panda Books), em parceria com o fotojornalista Tiago Queiroz Luciano, revelando também uma das piores violações de direitos de crianças e adolescentes, que ainda perpetua em nossa sociedade.

Conheci Iolanda somente agora, tardiamente, no livro Pelos Olhos da Minha Mãe (Palavras Projetos Editoriais), recém-lançado por Laura Huzak Andreato, filha da fotógrafa. A obra reúne trechos de diários, publicações na imprensa, registros pessoais e também as impactantes imagens de uma viagem de oito meses que a fotógrafa fez pelo Brasil, registrando o trabalho infantil.

Laura conta, por exemplo, as dificuldades que Iolanda teve para chegar até as fontes e o sofrimento dela quando um menino que trabalhava numa carvoaria pediu para que o levasse dali. É interessante ganhar a perspectiva histórica da infância negada pelo trabalho infantil, com raízes no racismo estrutural e na desigualdade social.

Quando Iolanda lançou o livro, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) tinha apenas quatro anos e a Constituição Federal, seis. Era recente em nosso país a doutrina da proteção integral de crianças e adolescentes, como versa a legislação. Se hoje em dia ainda há quem defenda o trabalho infantil e reproduza mitos como “é melhor trabalhar do que roubar” ou “é melhor trabalhar do que ficar na rua sem fazer nada”, imagino a disrupção que foi o trabalho de Iolanda na época.

Dos anos 90 para cá, vimos o número de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil cair de cerca de 10 milhões para 1,768 milhão. O último dado é de 2019, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), mas certamente subnotificado e desatualizado, por conta da pandemia do coronavírus, que agravou as violações de direitos humanos, desde 2020.

Infelizmente é uma violência que não acabou e há um longo caminho pela frente, mas são inegáveis os avanços dos movimentos pelos direitos de crianças e adolescentes nos últimos 30 anos. Apesar da dor do trabalho infantil, o grande encanto pela infância não acontece em sua negação, mas na possibilidade de sua vivência plena, do brincar, enfim. E assim Iolanda também fotografou, ao longo da vida, a infância plenamente vivida – tudo registrado no capítulo Infâncias, em Pelos Olhos da Minha Mãe.

O livro traz ainda o capítulo Palco, reunindo as imagens e relatos sobre a relação da fotógrafa com a música popular e o teatro; o capítulo Cultura Popular, com os registros de costumes, danças, festas e arte brasileira e Trabalho, com fotografias do cotidiano de trabalhadores no Brasil e em outros países do mundo, como Costa Rica e Guatemala.

Vale a pena conhecer a obra pela perspectiva da filha, o que não deixa de ser também uma homenagem e uma saudade.