Quando anunciaram o samba-enredo da Mangueira para 2019, ainda no ano passado, fiquei muito emocionada. Era Cacá Nascimento, de 11 anos, puxando o samba “História para ninar gente grande”. Muito simbólico o espaço que a Mangueira abriu para a voz da criança, porque a criança não é apenas o futuro. É principalmente o presente.

Na avenida, foi contada a história pela ótica das minorias – os índios, negros e pobres. O desfile criticou a ditadura militar, falou em demarcação de terras e exaltou heróis esquecidos. Marielle Franco, morta há um ano, foi também lembrada. Se Marielle virou semente, a Mangueira a fez florescer neste Carnaval, abordando temas tão necessários e polêmicos, como racismo, machismo e desigualdades.

Tenho pensado muito sobre a importância de olhar com mais cuidado para as diversidades. Quando falamos das questões sociais, obviamente que tratamos da sociedade como um todo, mas ao nos aproximarmos dos dados, percebemos que as minorias ainda são as mais prejudicadas, como as mulheres, os negros e a comunidade LGBT.

No caso das crianças, elas são muito afetadas, pois são pessoas em condições peculiares de desenvolvimento, condicionando a pobreza geracional e interferindo na saúde, educação e em muitos outros aspectos. A pobreza infantil impacta diretamente no desenvolvimento físico e neurológico, impedindo que as crianças alcancem seus plenos potenciais.

O estudo Terminar com a Pobreza Extrema: Um Foco nas Crianças, divulgado em 2016 pela Unicef e pelo Banco Mundial, mostrou que as crianças têm duas vezes mais probabilidade de viver na pobreza extrema do que os adultos. Em 2013, cerca de 385 milhões de crianças até os 17 anos de idade viviam em situação de pobreza extrema no mundo.

O risco maior é na Primeira Infância quando, nos países em desenvolvimento, mais de um quinto dos menores de cinco anos vivem em famílias extremamente pobres. De acordo com o relatório A Criança e o Adolescente nos ODS, da Fundação Abrinq, no Brasil, 27% da população geral vivem em situação de pobreza. No recorte de crianças de 0 a 14 anos, o percentual sobe para 40%.

O Carnaval é a festa do povo. É cultura popular. Que privilégio podermos levantar o debate e criar demandas sociais a partir da maior festa de nossa cultura!