"A escola pode atuar na superação do combate ao machismo, à homofobia e à transfobia" (Crédito: Pixabay)

“A escola pode atuar na superação do combate ao machismo, à homofobia e à transfobia” (Crédito: Pixabay)

A cada onze minutos, uma mulher é estuprada no Brasil e o país tem a quinta maior taxa de feminicídio do mundo. Além disso, 318 gays, travestis, lésbicas e bissexuais foram mortos, em 2015. Foi também no ano passado que a Câmara de São Paulo votou contra a introdução do debate sobre gêneros nas escolas, como parte da grade curricular.

Conversamos com Vanessa Correia, especialista em juventude e membro do Conselho Municipal de Juventude da cidade de São Paulo, sobre a importância de levar o debate às escolas. “Quando se propõe abordar a igualdade de gênero na escola, está se propondo um sistema educacional que seja inclusivo”, diz Vanessa.

Ainda segundo ela, os papéis e as relações de gênero são resultado de um processo de aprendizado, que se inicia no nascimento e continua durante a vida, por meio das instituições e de seus discursos, que determinam o que é papel de homem e o que é de mulher. “A escola não é a única instituição que participa desse processo de aprendizado, mas é uma das mais importantes, sobretudo na adolescência.”

Confira trechos da entrevista:

Blog Era Uma Vez: Qual é a importância de se discutir a igualdade de gênero nas escolas?

Vanessa Correia: O gênero enfatiza a dimensão socialmente construída das identidades individuais e das relações entre homens e mulheres. É um conceito (não uma ideologia) que nos ajudou a entender que o corpo, o puro e simples dado biológico, não origina uma essência, uma experiência fundante de natureza feminina ou masculina. Os papéis e as relações de gênero são resultado de um processo de aprendizado, que se inicia no nascimento e continua durante a vida, por meio das instituições e de seus discursos, que determinam o que é papel de homem e o que é de mulher. A escola não é a única instituição que participa desse processo de aprendizado, mas é uma das mais importantes, sobretudo na adolescência.

Quando se propõe abordar a igualdade de gênero na escola, está se propondo um sistema educacional que seja inclusivo e que seja ativo no combate às desigualdades, evitando sua reprodução. A homofobia e o machismo, assim como o racismo e outras formas de preconceito, levam alguns estudantes a vivenciarem a escola como um espaço torturante, o que resulta em evasão muitas vezes. Penso, sobretudo, na adolescência e juventude, quando as questões de identidade estão emergindo com força.

Ao tratar da importância de abordar a questão de gênero na escola, estamos falando de uma escola que inclua, acolha e ensine a incluir e a acolher. É uma demanda que diz respeito à construção da igualdade e à visibilidade da diversidade, de não reproduzir desigualdades. A escola pode atuar na superação do combate ao machismo, à homofobia e à transfobia, assim como outras formas de desigualdade e violência. Ou pode só perpetuá-los.

Blog Era Uma Vez: Neste ano, a câmara de São Paulo não aprovou o debate de gênero nas escolas. Como você avalia isso?

Vanessa Correia: O que alguns setores da sociedade querem da escola é totalmente obscuro. É muito triste ver interesses políticos e religiosos impedirem que a sociedade avance ao tratar da igualdade entre homens e mulheres e as diferentes identidades de gênero. De qualquer forma, a questão de gênero vai aparecer no dia a dia escolar, queiram ou não. A questão é se a escola vai ter legitimidade da lei para intervir, para tematizar ou terá de ignorar a questão e torná-la invisível. É uma incoerência absurda, porque a escola terá de tratar os casos de estupro que acontecem dentro dela, mas não pode falar de igualdade de gênero, de respeito à diferença, de cultura do estupro. Na escola onde voto, em 2015, uma adolescente de 12 anos foi estuprada por três meninos dentro do banheiro. Se a escola não puder ser um espaço de construção de relações igualitárias, de tolerância à diferença, de pensamento crítico, ela serve a que modelo de sociedade?

Blog Era Uma Vez: O que é a cultura de estupro?

Vanessa Correia: Se pensarmos o que é cultura, fica fácil entender o que é a cultura do estupro. É uma construção que envolve crenças, comportamentos, práticas e valores socialmente aceitos, que toleram e legitimam a violência sexual contra mulheres. É uma cultura que constrói e aceita justificativas para o estupro. Essas justificativas se sustentam na ideia de que a mulher em nossa sociedade tem valor apenas se se comportar de determinada forma – bela, recatada e do lar. Por isso vemos o comportamento da mulher ser constantemente usado para justificar as violências que sofre, como o tamanho da saia, se estava bêbada, não era virgem, etc.

Blog Era Uma Vez: Em quais outras situações isso se manifesta?

Vanessa Correia: A violência contra a mulher não se manifesta apenas em casos de violência extrema, como o estupro ou o feminicídio. Na sociedade machista em que vivemos, a desqualificação intelectual da mulher, seus baixos salários, a falta de representatividade política, a objetificação de seus corpos em propagandas que circulam livremente, os assédios cotidianos, as piadas, as cantadas devem ser entendidos como violência e como práticas que encorajam o estupro.

Os movimentos feministas há décadas buscam desvelar o machismo, denunciando a segregação social e política a que as mulheres foram historicamente conduzidas. As mulheres desses movimentos politizaram o cotidiano, a família, a sexualidade, a maternidade, o doméstico: todos esses domínios da vida social, onde as mulheres foram confinadas, constituídos como atividades naturalmente femininas. Elas revelaram que essas relações e divisão de papéis são políticas, portanto, resultado de relações de poder. O esforço tem sido equalizar as forças, de modo a superar a invisibilidade das mulheres e de sua atuação social e construir relações mais igualitárias.