Na quarta passada (26), o discurso da estudante secundarista Ana Júlia Ribeiro, 16 anos, na Assembleia Legislativa do Paraná ganhou o país. Até mesmo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entrou em contato com a menina, se dizendo emocionado com um discurso que falou sobre as urgências de uma geração extremamente insatisfeita com a educação que lhe é oferecida.

Escolas ocupadas por todo país foram representadas, em uma fala que destacou a morte do estudante Lucas Eduardo da Mota, em uma escola na zona norte de Curitiba, além da veemente objeção à reforma do Ensino Médio, da forma como pretende ser feita – importante destacar.

Em conversa com o blog Era Uma Vez, Antônio Carlos Ponca, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), falou sobre as ocupações das escolas e a urgência em se ouvir a voz desses adolescentes. Confira a entrevista:

Blog Era Uma Vez: O que o senhor pensa sobre a ocupação das escolas? O que eles querem dizer?

Antônio Carlos Ponca: Eu creio que em primeiro lugar estes jovens estão demonstrando uma profunda insatisfação para os adultos e para as pessoas responsáveis pelas políticas publicas. Acredito que eles estejam falando de duas grandes insatisfações: Primeiro com a atual situação do Ensino Médio, que tem graves problemas, tanto de acesso, quanto de permanência, reprovação, currículo inadequado, número de horas e uma série de coisas absolutamente insuportáveis, tendo em vista uma Constituição que determina que o Ensino Médio é obrigatório.

Em segundo lugar, os adolescentes falam de uma profunda insatisfação com o equívoco do Governo Federal em querer fazer uma reforma tão urgente e necessária para o Ensino Médio, por meio de Medida Provisória. A Medida Provisória dificulta e inviabiliza o diálogo, a abertura, a audiência e a participação das pessoas. Tudo teria de ser feito em um prazo tão curto, que os secundaristas querem dizer: que eles estão querendo dizer: nós queremos participar da solução que estão querendo dar para nossas vidas! E estão mostrando isso de uma forma muito bonita.

Blog Era Uma Vez: Qual é a melhor forma de responder a esses adolescentes?

Antônio Carlos Ponca: Eu acho que a primeira questão precisa ser a retirada dessa Medida Provisória. Depois, as entidades responsáveis e as instituições da área de educação devem instalar um debate, envolvendo audiências públicas e mesas redondas com a participação dessa juventude.

A minha experiência de educador diz que as tentativas de reformas onde não há a participação dos envolvidos, seja dos educadores, professores ou jovens, são fadadas ao fracasso total. É absolutamente indispensável que se volte atrás e se proponha um diálogo franco sobre uma matéria tão séria, porque neste sentido o tema que o governo propõe discutir é urgente. Reconheço que é algo que precisa ser feito, mas dentro de um amplo debate e diálogo, o que é plenamente possível.

Blog Era Uma Vez: O que essa voz tão forte e engajada representa para o país?

Antônio Carlos Ponca: Eu acho muito positivo. Eu sinto muita tristeza ao ver que algumas pessoas não entenderam quem são estes jovens. Estão tentando transformá-los em armas de partidos políticos, quando eles nos falam de sua insatisfação e nos alertam para uma porção de coisas erradas neste país.

Com muita tristeza, eu vejo adolescentes sendo algemados. Quando é necessário colocar algemas em crianças e adolescentes é porque algo não está bem. Precisamos aprender com eles e não podemos subestimar e dizer que são jovens manipulados. Eu acho que o discurso da Ana Júlia nos diz com clareza, que eles falam de uma insatisfação profunda deles e com certeza sabem o que querem. Portanto precisamos ouvi-los e aprender muito ouvindo.