EMEF Campos Salles: exemplo de educação democrática (Foto: Bruna Ribeiro)

A minha primeira experiência com projetos de educação em cultura de paz em escolas foi na EMEF Campos Salles, no Heliópolis, na Zona Sul de São Paulo, há quase um ano. Depois, vivenciei algo parecido na EMEI Nelson Mandela, no Limão, Zona Norte da cidade.

Incríveis e emocionantes, as vivências tomaram novamente meus pensamentos, desde a tragédia da semana passada, quando um estudante matou dois colegas de classe a tiros, deixando também quatro feridos, no Colégio Goyases, no Conjunto Riviera, bairro de Goiânia.

Algumas pessoas falaram que a motivação do ato infracional teria sido bullying. A escola, os pais da vítima e até mesmo o pai do adolescente atirador dizem desconhecer qualquer violência sofrida pelo menino. E como ele aprendeu a atirar? Como teve acesso à arma, que estaria em uma gaveta trancada?

Muitas perguntas sem respostas por enquanto, mas a verdade é que as respostas nunca serão suficientes. Não há justificativa para o fato – a não ser uma reflexão mais filosófica a respeito da violência e do ódio na sociedade contemporânea.

Uma pesquisa realizada pela Faculdade Latino-Americana de Ciência Sociais (Flacso), em parceria com o Ministério da Educação e a Organização dos Estados Interamericanos (OEI), aponta que a violência verbal ou física atingiu 42% dos alunos da rede pública, entre janeiro e novembro de 2015, quando 6709 estudantes, entre 12 e 29 anos, foram ouvidos em sete capitais brasileiras.

Cultura de paz

O número ilustra uma realidade facilmente identificada no nosso cotidiano. Mas os dois exemplos que citei no início do texto mostram que a realidade pode ser muito diferente.

Basta passar pela porta de escolas que trabalham a cultura de paz com seus alunos para perceber que a dinâmica é outra.

EMEF Campos Salles

Para quem ainda não conhece a história da Campos Salles, a escola foi transformada pela direção de Braz Rodrigues Nogueira, a partir de 1995. Situada na comunidade do Heliópolis, estava mergulhada na violência. Mas a grande virada aconteceu em 1999, quando uma estudante foi assassinada na saída da escola.

A partir de então, a comunidade escolar se mobilizou para transformar aquela realidade. Os muros foram derrubados e hoje a EMEF é referência em gestão democrática, inspirada na Escola da Ponte, de Portugal. As salas são multisseriadas e as disciplinas trabalhadas de maneira transversal, a partir de projetos, escolhidos pelos alunos em assembleias.

A democracia, respeito e diálogo fazem parte de toda a experiência de escola. Na minha visita, acompanhada por outros colegas, as crianças apresentaram um grito que nos emocionou.

“Nós somos a paz e não aceitamos violência. Heliópolis, bairro educador. São Paulo, cidade educadora. Brasil, pátria educadora.” Essa foi a parte que nunca mais esqueci e já é o bastante.

EMEI Nelson Mandela

O mesmo aconteceu quando conheci a EMEI Nelson Mandela. A escola carrega o nome do símbolo da luta contra o preconceito justamente pelo trabalho que vem realizando na educação em cultura de paz.

Sob a direção de Cibele Racy, o colégio já recebeu cinco prêmios, após um projeto sobre racismo iniciado em 2011. Depois disso, chegou a sofrer ataques racistas, com pichações nos muros da escola – o que motivou a alteração do nome, em 2016.

Projetos

Muito além das disciplinas obrigatórias, há muitos temas relevantes a serem tratados na formação de nossas crianças e adolescentes, nas escolas e nas famílias.

O ser humano educado em sua integralidade não é aquele que tira boas notas em português e matemática. É urgente que o objetivo das escolas e responsáveis deixe de ser “formar para passar no vestibular”.

Casos como o de Goiânia escancaram a necessidade de olharmos para o desenvolvimento integral, observando todas as competências e buscando a formação de seres humanos e cidadãos conscientes, que promovam a cultura de paz.