EMEF Campos Salles: exemplo de educação democrática (Foto: Bruna Ribeiro)

EMEF Campos Salles: exemplo de educação democrática (Foto: Bruna Ribeiro)

A Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Campos Salles, em Heliópolis, periferia de São Paulo, é conhecida por fugir dos padrões tradicionais de ensino. Em minha primeira visita ao colégio, logo me surpreendi por um grupo de mediação de conflitos, formado por estudantes.

Ao chegar, fui encaminhada a uma sala para aguardar quem me receberia. Sem querer, interrompi a conversa de alunos de cerca de 10 anos. Eram oito meninos e meninas em volta de uma mesa, discutindo o comportamento de um dos participantes, que agredia verbal e fisicamente, segundo o grupo.

Eles permitiram que eu permanecesse na sala, em silêncio. O mediador conduzia com inteligência a conversa, dividida em três etapas. Na primeira, foi explanado o problema. Depois chegou a hora de falar sobre os aspectos positivos do menino sabatinado. Por fim, o compromisso.

No primeiro momento, a equipe tentava convencer o menino que não era necessário ser tão agressivo.

– Por que você brigou com a professora? Você acha certo falar essas coisas?

O clima estava tenso, até que o aluno confessou que andava mesmo nervoso, porque a família enfrentava dificuldades financeiras e que, por isso, ele passou a vender limões na feira.

– “Eu também fico preocupada quando meus pais enfrentam dificuldades”, disse uma das meninas.

– “Quando você crescer, você pode abrir uma loja de limões”, complementou a outra.

Foi assim que eles partiram para a etapa dos elogios. Cada um falou um pouco sobre os pontos positivos do estudante. Por fim, votaram que a mãe dele não seria chamada à escola e que ele receberia mais uma chance.

 A Escola

Este é apenas um dos exemplos da gestão democrática da escola, que transformou a comunidade. Até a década de 90, a Campos Salles enfrentava problemas como violência, alto índice de evasão escolar e falta de professores. Em busca de melhorar as condições, o diretor Braz Nogueira passou a dialogar com a comunidade e a refletir sua proposta pedagógica.

Com o assassinato de uma aluna em frente ao colégio em 1998, as reivindicações por paz aumentaram, as grades que cercavam a escola caíram e tudo foi revitalizado.

Atualmente, o colégio está inserido dentro do Céu Heliópolis, um grande completo que oferece teatro, cinema, biblioteca, tecnologia, esportes e muitas outras atividades. Foi desenvolvido o conceito de bairro educador, onde se acredita que toda a comunidade e todos os equipamentos da região ensinam – e não apenas as escolas.

Inspirada na Escola da Ponte, de Portugal, os alunos se reúnem em grandes salões, quatro por turno. Não há salas de aulas e nem divisão por disciplinas. Todos votam os temas de estudos em assembleias e, a partir dos temas, os professores desenvolvem planos interdisciplinares. Conheça os princípios da escola:

– Escola como centro de liderança.

– Tudo passa pela educação.

– Autonomia.

– Solidariedade.

– Responsabilidade.

É realmente inspirador!