Há dois meses, entrevistei aqui no blog a Joice Berth, autora do livro “O que é Empoderamento?” e feminista negra, sobre o caso da menina Bella, que teve o cabelo cortado e alisado pelo pai e pela madrasta. Relembre a história aqui. Na conversa, ela disse que é muito difícil convencer as meninas negras de que elas são bonitas, pois a sociedade diz o contrário.

Disse que o cabelo é um símbolo de beleza e que, para a criança negra, a relação com o cabelo pode ser conflituosa, porque é alvo de discriminação. A luta contra o racismo tem proporcionado às crianças negras, principalmente as meninas, uma nova visão de si mesmas.

Dentro do Ministério Público do Trabalho, a procuradora Elisiane Santos desempenha um importante papel nesta luta. Na quinta, dia 13, o MPT promoveu a audiência pública Inclusão de Negros e Negras no Mercado de Trabalho nas Redes de Televisão. O evento contou com a participação de especialistas, artistas, jornalistas, representantes do movimento negro e coletivos, no Rio de Janeiro.

O objetivo do evento era discutir o cumprimento do Estatuto da Igualdade Racial. Segundo Elisiane, além do direito à igualdade de oportunidades e respeito à diversidade étnico-racial da população brasileira, a discussão é fundamental para o enfrentamento do racismo estrutural, historicamente sustentado pelos estereótipos disseminados nas redes de televisão e pela ausência de negros e negras na programação.

De acordo com a procuradora Luciana Tostes, do MPT do Rio de Janeiro, o evento foi um desdobramento das notificações enviadas às emissoras de televisão, em julho deste ano. O MPT recomendou que elas adotassem 14 medidas para assegurar oportunidades iguais de emprego na TV e em campanhas publicitárias.

Na prática

Logo após a divulgação das primeiras chamadas, a novela Segundo Sol, que ainda está no ar, na Rede Globo, recebeu críticas por contar com a maioria do elenco branco, sendo que a trama se passa na Bahia, onde há 76% de negros.

Em entrevista no Programa do Porchat, o ator Ícaro Silva também falou sobre a dificuldade de conseguir papéis por ser negro. “A dificuldade existe de todos os lados. Já ouvi produtor falar: ‘Tenho um papel de escravo, mas você é muito bonito para fazer. Você tem uma cara meio Zona Sul.’ Quando chega a sinopse do personagem, se não está escrito que ele é negro, não vão pensar em um ator negro. Isso é muito chato, porque sou bom e sei fazer o que faço. Por isso começamos a criar as nossas próprias coisas.”

A discussão é de extrema importância, não apenas do ponto de vista do mercado de trabalho para atores e outros profissionais, como também para a questão de representatividade e a importância disso na formação das crianças e da sociedade de modo geral.