O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio 2019 (Enem) surpreendeu muita gente no último final de semana. A proposta era dissertar sobre a “Democratização do acesso ao cinema no Brasil”. O assunto pode não ser tão comum nos cursinhos e nas escolas, mas é urgente.

De acordo com dados recentes publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 11% das cidades brasileiras possuem salas de cinema. Do total, a maioria está localizada em grandes centros urbanos.

Foi exatamente essa reflexão que motivou o Instituto Alana a criar o projeto Videocamp – uma plataforma que viabiliza a realização de exibições públicas e gratuitas de filmes com potencial de impacto.

Conversei com Josi Campos, coordenadora do programa, a respeito da temática. Segundo ela, quando falamos em democratização do cinema não falamos apenas da formação de público, mas do acesso à cultura. “Um povo sem cultura é um povo sem história. E o cinema é parte da nossa cultura”, diz.

A respeito da produção de impacto, a coordenadora acredita que o filme não transforma o mundo, mas transforma as pessoas, que vão transformando seus arredores. “O que posso fazer de bom na minha comunidade? Para essa reflexão, o assistir coletivo é de extrema importância”, sugere.

Na entrevista, Josi contou também sobre como funciona o Videocamp e como é possível organizar uma sessão de cinema na sua cidade. Para isso, não é preciso uma tela gigante. Pode ser uma televisão ou até um computador. O que é importa é a reunião, o conteúdo e a reflexão!

Confira trechos da entrevista:

Qual é a importância da democratização do cinema para a aprendizagem das crianças e dos jovens?

Josi Campos: Quando falamos em democratização do cinema, não estamos falando apenas da formação de público, mas principalmente de acesso à cultura. Um povo sem cultura é um povo sem história. E o cinema é parte da nossa cultura.

A gente tem construindo um mercado audiovisual, principalmente de documentário, que está voando. É muito importante que as pessoas tenham acesso para que se reconheçam na tela, para saberem que suas histórias estão sendo contadas e que elas importam. A diversidade precisa ser registrada.

Videocamp: Exibição no Rio de Janeiro

Além disso, acredito que o próprio cinema é uma forma de aprender. Temos uma playlist com 20 filmes selecionados, pensando no vestibular. A cultura e as artes são caminhos para o conhecimento. O filme pode ser muito potente nessa prática.

O assistir coletivo – seja no cursinho, na escola ou com amigos – é muito rico. Filmes abordam temáticas atuais e urgentes e contribuem para que o jovem desenvolva suas habilidades de reflexão. O filme é um momento de entretenimento, ao mesmo tempo que continua sendo estudo, cultura e informação.

E como as pessoas podem ter acesso a essa playlist e aos conteúdos do Videocamp?

Qualquer pessoa, de qualquer lugar, pode procurar um filme no Videocamp, inclusive em temáticas específicas, e solicitar uma exibição. Para isso, é preciso reunir um grupo de cinco pessoas ou mais. A exibição pode ser organizada em uma televisão, tela simples ou até computador. Queremos promover o acesso. Não precisa ser no cinema.

Geralmente a estratégia de distribuição dos filmes é tradicional, envolvendo mostras, cinemas e televisão. Mas quando falamos em impacto, precisamos falar além das janelas tradicionais. Como chegar na potência máximo do seu público?

Videocamp: Exibição em Berlim

Por isso os filmes são cedidos pelos realizadores ao Videocamp. Eles podem acompanhar onde suas montagens estão sendo exibidas, quando e para quantas pessoas. Essas informações ajudam a compor a trajetória do filme.

É para ocupar este lugar que o Videocamp surge, em 2015 – a partir de uma iniciativa do Instituto Alana, que acredita na potência do cinema e que realizou, junto à Maria Farinha Filmes, documentários com muito impacto, como Muito Além do Peso e O Começo da Vida. Estamos em um espaço aberto, que é o lugar do extra-cinema.

E quantas pessoas já foram atingidas?

Já realizamos 40 mil sessões, em mais de 117 países, com audiência de mais de 1 milhão de pessoas até hoje. Do total, 50% das exibições foram realizadas por pessoas que se autodeclaram educadores. Não são necessariamente educadores de sala de aula, mas podem ser também líderes comunitários que querem refletir questões urgentes da sociedade.

Videocamp: Exibição na Indonésia

O filme não transforma o mundo, mas transforma as pessoas, que vão transformando seus arredores. O que posso fazer de bom na minha comunidade? Por isso, para os professores, disponibilizamos alguns materiais de apoio, propondo atividades com referência à Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

O assistir coletivo é de extrema importância. O potencial de impacto dos filmes existe justamente pelo assistir coletivo. O acesso à cultura e à informação é um direito universal. Nós criamos a ferramenta pensando nisso e acredito que o mercado tem olhado também para esse lugar.