Há alguns anos, uma conversa com o educativo do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) me despertou para a importância da formação de novos públicos na arte. O retrato descrito pelo MAM era: aos finais de semana, muitos adolescentes das periferias iam até o Parque Ibirapuera, onde o museu está localizado. Ficavam sentados, conversando e se divertindo na marquise, em um movimento que ficou conhecido como rolezinho. Muitas vezes, ficavam encostados nas paredes do museu, mas não entravam.

A cena me intrigou. A entrada era gratuita, a programação era interessante e ainda havia oficinas. Por que eles não entravam? Não sei exatamente como se resolveu a história, mas sei que o museu decidiu ir para fora e se comunicar com aqueles jovens. Educar um novo público.

Talvez aquela juventude não se sentia representada no museu. Talvez aquela juventude não se sentia parte, não se sentia convidada a entrar, simplesmente porque existem algumas estruturas sociais, culturais e econômicas que nos impõem padrões muitas vezes invisibilizados. Essa não é uma exclusividade do MAM, obviamente. Tomei apenas como exemplo. Vale lembrar inclusive que o educativo do MAM é considerado um dos melhores da cidade.

Sabemos que a cultura pulsa na quebrada, mas é preciso ocupar os espaços. Um bom exemplo disso foi quando ocorreu um campeonato de slam em agosto do ano passado, na Casa das Rosas. Contei aqui no blog, neste post. Foi lindo. Poesia, protesto, falas contra o racismo, a violência e o machismo, em um casarão histórico da Avenida Paulista.

A arte é uma coisa louca, porque não existe vida sem ela. O corpo é um instrumento por si só. Cria movimentos, cenas, imagens e sons. A arte toca no sensível. Tem coisa que só ela diz. É vital, mas tão desvalorizada. Parece que tem de se provar o tempo todo. Provar para ter investimento, para ser política pública, para resistir e para existir.

Solfejo

Eis que nessa semana fui ver a exposição Solfejo, individual do artista Felippe Moraes, no Centro Cultural Fiesp. E enquanto passava pelas obras, me lembrei dessa história do MAM que contei no início do texto. Eu me lembrei da necessidade de falar de arte para todos, de atrair novos públicos, de comunicar de maneira diferente e democrática, ainda mais no atual contexto político.

O tema da mostra é o som, mas é um som diferente. Diferente do que estamos acostumados, porque até quem não escuta pode ouvi-lo. O som é comunicado por imagens, por vibrações e até por cheiro.  Além de acessível, Solfejo é para a família. É para todas as idades. Crianças, adultos e idosos. Cada um na sua camada de entendimento. Solfejo é um convite. Chama para entrar e deixa qualquer um a vontade.

Acho que essa é a maior beleza da arte. Retratar algo que é nosso, humano, físico, mental ou espiritual, de uma forma única. Desafio ainda maior na arte contemporânea, que as vezes a gente acha “que não é pra qualquer um” ou que “é muito difícil”. Mas se solfejo é o exercício para aprender a ler notas, elas chegam de formas totalmente inusitadas.

Logo de cara, na entrada da exposição, o visitante se depara com uma frase em neon: “Atenção para o refrão.” Na cabeça da gente já vem o resto da canção Divino Maravilhoso, de autoria de Caetano Veloso e consagrada na voz de Gal Costa: “É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte.” A música ali já acontece, mas acontece na nossa mente, sem caixa de som.

 

Em Composição Aleatória, oito redes são espalhadas pelo espaço. Os visitantes são convidados a se deitar. Quando movimentadas, elas tocam sinos, formando uma canção com a participação de todos. Tem ainda uma série de fotos denominada Desenhos Sonoros, quando grãos de areia formam composições variadas em uma placa estimulados pela frequência das ondas sonoras a que são submetidas.

Na instalação olfativa Tanto Mar, os visitantes experimentam o cheiro da essência de alecrim por todo espaço expositivo. O título é homônimo ao da música composta por Chico Buarque, em 1975, como uma referência ao trecho específico “manda urgentemente algum cheirinho de alecrim”. A canção faz menção à Revolução dos Cravos, que aconteceu em Portugal no mesmo período em que o Brasil passava pela ditadura militar.

São 30 obras ao todo. A minha interpretação desse trabalho que muito me emocionou é de que a arte pode e deve ser para todas as pessoas, cada qual transitando pelas suas próprias referências e ganhando novas, em obras sofisticadas e intelectuais – científicas e existenciais ao mesmo tempo.

Um ótimo passeio para ir com a família, dar uma volta na Paulista e encerrar com um cafezinho – quem sabe?  Vamos experimentar ouvir pela vibração de sinos ou pela fotografia do som em forma de grãos de areia. A arte acontece mesmo no sentir e é importante democratizar isso a todos os públicos.Vamos ocupar! Afinal de contas, há tantas formas de ouvir e de sentir…

Participe: No sábado (6), às 11h, vai ter uma oficina de instrumentos musicais para crianças. Com Giovanna Puerto Carlin, na sala do educativo.